segunda-feira, 20 de março de 2017

Guiné 61/74 - P17162: Boatos e mentiras que correm o risco de entrar para a história (2): De 1 a 10 - Parte II: 4/5. Guileje cercado e conquistado pelo PAIGC; 6. Áreas libertadas; 7. MiG e carros de combate; 8. FAP sem voar; 9. Guerra perdida; 10. Isto não interessa a ninguém... (António Matins de Matos, ten gen pilav ref)


Guiné > Região do Boé > Madina do Boé > CCAÇ 1589 (1966/68) > O "menino-soldado"... a fingir. Uma das melhores fotos do álbum do Manuel Coelho, o fotógrafo de Madina do Boé... As NT retiraram deste aquartelamento em 6/2/1969.

Foto: © Manuel Caldeira Coelho (2014). Todos os direitos reservados [ Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


A. Continuação da publicação da mensagem do António Martins de Matos (ex-Ten Pilav, BA 12, Bissalanca, 1972/74), com data de 3 do corrente:

(...) Relembrando o que nos uniu, talvez pudéssemos passar a uma nova fase, organizar umas “mesas redondas”, “quadradas”, “tertúlias” ou algo parecido, com algum pessoal a participar, moderador, um secretário e um “historiador de serviço”, discussão construtiva sobre um determinado tema, com conclusões fundamentadas e aceites pela maioria. Depois era só enviar o papel a quem de direito.

Há um grande número de assuntos com interesse a que correspondem um número infindável de postes e que poderiam dar lugar a um texto devidamente “certificado”…

Que acham?.. Entretanto e para (re)animar a malta juntei alguns assuntos que já foram discutidos e discutidos mas que nunca obtiveram um consenso alargado.

Deixo-vos com 10 temas, ideias que tenho defendido e que, se o entenderem, poderemos abordar durante o nosso almoço anual, talvez ao lanche [, dia 29 de abril de 2017, em Monte Real], entre um croquete e uma imperial. (...)  (*)



P'ra a mentira ser segura
e atingir profundidade,

tem de trazer à mistura

qualquer coisa de verdade.

(António Aleixo)


4. O Guileje esteve cercado
Os últmos inquilinos  de Guileje:
a CCAV 8350


Não é verdade.

A unidade que esteve cercada foi o Guidaje. Se o Guileje tivesse sido cercado não poderiam ter de lá saído cerca de 600 alminhas, todas em bicha de pirilau, bagagem à cabeça e armas a tiracolo (conforme fotos esclarecedoras)

5. A conquista do Guileje pelo PAIGC  

Não é verdade.

Guileje foi abandonado, depois apareceu a curiosidade, vamos lá ver o que ficou. Comeram bem e melhor beberam, carregaram uns recuerdos e … foram-se embora.


6. As áreas libertadas 

Não é verdade.

Havia áreas sem qualquer população (região do Boé), outras em que as NT evitavam hostilizar as populações (Ilha do Como, Morés, Cantanhez)… Spínola não autorizava que se tocasse na Ilha do Como, em finais de 1972 foram corridos da “área libertada” do Cantanhez.  Pelo sim pelo não,  a sua declaração de independência em 1973 e numa suposta área libertada,  foi… em território da Guiné Conacri, “à cause des mouches” [literamente: por causa das moscas...]


7. Os MiG e os Carros de Combate 

Não é verdade.

Nunca ninguém os viu


8. A FAP sem voar 

Não é verdade.

Em 1973,  e já depois do aparecimento do Strela, a FAP voou muito mais que em períodos anteriores, basta ler os relatórios oficiais.


O temível MiG 17 russo...
que nunca ninguém viu
9. A guerra perdida

Não é verdade.

A guerra estava e continuaria empatada até que um dos contendores se cansasse. Dizer que a guerra estava perdida é passar um atestado de incompetência aos 30.000 homens que por lá andavam e que lutavam contra 5.000 guerrilheiros.


10. Estes assuntos não interessam a ninguém

Não é verdade.

Na nossa geração praticamente todas as famílias tiveram alguém a combater em África e os vindouros, netos, bisnetos, querem saber por onde andaram os seus familiares.
______________

Nota do editor:

(*) Último poste da série > 14 de março de  2017 >  Guiné 61/74 - P17138: Boatos e mentiras que correm o risco de entrar para a história (1): De 1 a 10 - Parte I: 1. O território guineense do tamanho do Alentejo; 2. O Strela, a arma que revolucionou a guerra; 3. A FAP perdeu a supremacia aérea (António Matins de Matos, ten gen pilav ref)

31 comentários:

antonio graça de abreu disse...

Pois é, meu caro António Martins de Matos.
Trata-se de falar claro e dizer a verdade.
A verdade com base em factos reais, por quem
viveu esses 1972/1974, contando o
que verdadeiramente aconteceu.
Não se trata da diferente interpretação dos factos,
fazendo-se fé em boatos e mentiras.
Não há muitas "verdades", ao gosto de cada um.
Há dez anos, neste blogue, ando a lutar pela verdade histórica.
Lembram-se da minha polémica com o Mário Beja Santos
que defendia a tese da guerra perdida, da superioridade do PAIGC, etc?
Até nos zangámos.
Não se trata de ressuscitar fantasmas, mas,
como diz o nosso tenente-general António Martins de Matos
de respeitar o esforço, coragem e dignidade dos nossos
40.000 militares que até Abril de 1974, combateram na Guiné.
Não misturem os factos,o que verdadeiramente aconteceu, com
ideias sobre a justiça ou injustiça daquela guerra. Isso é outra questão,
infelizmente muito usada e politizada neste blogue. Daí, acreditaram-se tanto em
boatos e mentiras.
Abraço,

António Graça de Abreu

Manuel Peredo disse...

Completamente de acordo com o Sr. Tenente-General. Apenas acrescento que o apoio da Força Aérea não faltou,mas passou a actuar de maneira diferente. As evacuações faziam-se com mais dificuldade e por vezes os helicópteros não iam ao local do "crime",falo com conhecimento de causa.

Tabanca Grande disse...

António (Graça de Abreu):

A ideia de que o blogue tende a "politizar" a guerra que travámos na Guiné, tem sido utilizada por ti, mais do que uma vez. Tens o mesmíssimo direito de defender essa ideia, como outro leitor e camarada tem o direito de a refutar...

O blogue é o "espelho da Nação", tal como nos diziam os nossos instrutores em Mafra, em Tavira, em Lamego, em Vendas Novas... Claro que é um espelho distorcido... mesmo sendo plural.

Felizmente, não há aqui "comissários políticos"... A ideia é (e sempre foi) poderes entrar sentar-te sob o poilão da Tabanca Grande e contar as tuas histórias... Se te armares em Pinóquio, há o risco de os outros começarem a ver o teu nariz a crescer...

O nosso blogue é escrutinado todos os dias pelos leitores que o visitam...E todo a gente, em qualquer parte do mundo, pode comentar, sem "moderação prévia" dos editores... Queres maior liberdade do que esta ?...

E começa a ser uma fonte de informação e conhecimento apreciada, credível, até pelos académicos, investigadores, historiadores, antropólogos, sociólogos... Mas a sua função não é essa, é apenas a de um plataforma onde podemos escrever e comunicar uns com os outros, como de resto tu tens feito, tu e tantos outros camaradas, alguns dos quais, no entanto, têm relutância em envolver-se em "discussões de caserna".. E eu tenho pena que alguns estejam "retirados" do blogue por questões de "suscetibilidade"...

Não estamos aqui para impôr a "verdade" a ninguém, mas cultivamos a verdade, nomeadamente a dos factos... Temos sido rigorosos e até obsessivos, na procura da verdade factual: veja-se o caso de Madina do Boé como local, esse sim, propagandeado "ad nauseam" pelo PAIGC, como local da proclamação unilateral da independência da Guine-Bissau, em 24 de setembro de 1973...

Felizmente somos crescidos, e gostamos de pensar pelas nossas cabeças... Não há nenhuma "agenda escondida"... Como eu gosto de dizer, a Tabanca Grande não tem portas nem janelas... Mas muita coisa precisa ainda de investigação historiográfica... e nós não somos historiadiores!... Pelo menos, aqui...

Quanto à gente zangar-se com outro camarada de armas por diferendos de opinião, bom, isso é que eu não acho bonito. Aconteceu, não devia ter acontecido, não se fala mais nisso. A guerra, aquela guerra, tem de ser vista "da terra, do ar e do mar... e da bolanha"... Eu vi-a da bolanha, muitas vezes, nunca andei de heli nem de T 6 nem de Fiat G-91... A única vez que "voei" foi numa GMC que pisou uma potente mina A/C...

Boa continuação do "cruzeiro" da vida!... Muita saúde para ti e para os teus. Luís

Anónimo disse...

Falar da guerra da Guiné por vezes torna-se complicado, mesmo quando essa conversa acontece entre camaradas que pisaram o mesmo terreno só que em épocas diferentes...
Mais ainda depois da chegada dos strela, que a nossa força aérea continuasse a voar o mesmo, ou ainda mais não ponho em causa aquilo que não conheço, o que posso garantir com conhecimento baseado em factos vividos é que pelo menos durante algum tempo o modo de atuação foi diferente.
Como já relatei em alguns postes que enviei, antes dos strela, vi durante uma operação na zona do Xime uma DO a sobrevoar durante muito tempo o local em que decorria a operação, vi também os fiat a bombardear quase junto à copa das árvores.Foram várias as vezes que quando estava em Mansambo éramos sobrevoados por parelhas de hélis a uma altura normal. Depois dos strela uma vez que viajei de Cufar para Cobumba voavam junto à copa das árvores. Outro dia a seguir ao almoço uma viatura nossa em Cobumba dentro do arame farpado acionou uma mina, depois de pedida a evacuação e os feridos estarem cerca de quatro horas à espera de serem evacuados o heli não apareceu, foi necessário fazer a viagem para Cufar pelo rio com a ajuda dos fuzileiros que estavam no Xugué.
Era possível ver os fiat bombardear mas a uma altitude que não tinha nada a ver com aquela que o faziam antes...

António Eduardo Ferreira

Manuel Reis disse...


Caro António Matos:

Discordo completamente que O Convívio, que se quer alegre, num salutar intercâmbio de ideias. se transforme numa querela, onde muitas vezes se ultrapassam os limites do razoável. Os temas já foram abordados noutros locais e de um modo muito exaustivo no blogue. Constatou-se que as posições da maioria dos camaradas estão extremadas e nada há fazer. Essa verdadeira história, que se procura, seja feita noutro local e noutro momento.

Têm sido ricos os Convívios da Tabanca Grande e eu gostava de usufruir do momento, tal como sucedeu nos Convívios anteriores, onde se dialogou com normalidade e em que, até, alguns destes temas propostos foram abordados de modo ligeiro e num grupo restrito, sem alarido.
É bom rever os amigos que connosco partilharam momentos difíceis na guerra e afastar os fantasmas nesse dia. É só uma vez por ano, é bom saboreá-lo.

Lembrem-se que o tempo corre contra nós e urge aproveitá-lo.

Manuel Reis

Forte abraço.

J. Gabriel Sacôto M. Fernandes (Ex ALF. MIL. Guiné 64/66) disse...

Muito interessante e verdadeiramente importante a sugestão do António Martins de Matos. Só tenho dúvidas no local e no momento sugerido.
Um abraço a todos do,
JS

Anónimo disse...

"Nem mais um soldado para as colónias"
JÁ!


Como alguns sabem mais desta frase que outros,diria antes:
Quanto mais me bates mais gosto de ti!

Fraternalmente Rui Santos Lima

antonio graça de abreu disse...

Meu caro Luís
Claro que existe uma politização inequívoca em muitos dos textos que vão sendo publicados neste blogue.Só não vê quem não quer ver. Não somos neutros e, ao fim destes anos todos, ainda existe muita paixão por detrás, ou dentro de todos nós. A guerra na Guiné ensinou-me muitas coisas, a amar mais a gente boa da minha Pátria, a ter respeito pelos combatentes do PAIGC, a não gostar de quem, apoiado em boatos e mentiras, falsifica a nossa História. Só isto. Procuro ser um homem livre, coisa difícil nos tempos que correm. Concluo com uma citação de Manuel Frias Martins, meu colega na Faculdade de Letras, há cinquenta anos atrás, Ele, jovem foi PCP, eu jovem. fui PCP (m-l). Depois crescemos.

"Um homem livre não é de esquerda nem de direita. Um homem livre sabe que esquerda e direita são palavras, tão-só palavras, postas na boca de quem só sabe obedecer e que vive sôfrego de mais obediência. Um homem livre sorri na cara dos obedientes e deseja-lhes vida longa. Um homem livre é livre porque encontrou o caminho e respira o ar do caminho à medida que vai caminhando. Um homem livre confia mais nos seus próprios erros do que naqueles com que poderia julgar outros homens. Um homem livre é aquele que escuta os ruídos do mundo e logo os torna passado. Um homem livre é o que gosta do paradoxo, da contradição, do movimento, do sorriso incorreto. Um homem livre sabe que a sua liberdade depende de si e de mais ninguém. Um homem livre é livre porque ama o ser e não a máscara. Um homem livre é livre, apesar do medo. (MFM)

Abraço,

António Graça de Abreu

José Marcelino Martins disse...

Todos sabemos, por experiência própria, que a guerra continua, e continuará, na nossa vida.
Por outro lado, a Guiné continua nos nossos corações, pelas suas gentes, e pela camaradagem que une todos os combatentes. Os convívios, sejam os da Tabanca (Grande e Sucursais) e os das Unidades, continuam a ser concorridos e cheios de amizade.
A documentação produzida e arquivada, alguma divulgada outra nem tanto, continua a ser controversa e não reconhecida por todos?
É possível, aliás, vários comentários o confirma.
Para os Combatentes da Guiné, só existe um caminho possível e, no meu entender, aconselhado.
Continuar a trocar impressões sobre os factos ocorridos e deles dar o seu testemunho, com serenidade e aceitando os comentários e/ou versões que não coincidem com a "nossa memória".
Uma coisa podem ter a certeza: Já passaram mais de 40 anos sobre o fim da guerra e o que foi escrito passa a ser, quer queiramos quer não, a versão "oficial" e o que ficará para a história.
Se neste espaço de tertúlia, se continuar a "terçar armas" sobre o que se passou, recorrendo às vezes à confrontação de palavras, este espaço, quando mais tarde vier a ser consultado, os historiadores ao notar a "beligerância verbal", deixarão de parte todo um espólio que contem, que sabemos muito válido, e virar-se-ão "apenas" para a documentação que existe.
Quem perde?
Todos nós. Todos aqueles que quiseram trazer, ao conhecimento geral, aquilo que passamos no dia a dia.

Tabanca Grande disse...

António (Martins de Matos):

O teu poste anterior (a parte I) já vai a caminho das 500.. visualizações, o que
não é bom, é excelente!.. Seguindo a tua ideia, cheguei a propor-te a organização de uma mesa redonda, sem microfone, com um moderador e um secretário (para tomar notas), sobre
a FAP e o Strela, com um nº limitado de inscrições... Onde e quando ? Para o dia 29, em
Monte Real, das 15h30/16h00 às 17h00... É uma hora morta...

Mas agora sou sensível aos argumentos dos nossos camaradas José Martins, Manuel Reis e João Sacôto... O debate de temas como este continua a ser atual e importante, se conseguirmos trazer novos dados (o que pressupõe investigação, depoimentos, orais e escritos, etc.). Mas, segundo os camaradas citados, pode ser a ideia certa no lugar errado...

O Manuel Reis escreve: "Discordo completamente que o convívio, que se quer alegre, num salutar intercâmbio de ideias, se transforme numa querela, onde muitas vezes se ultrapassam os limites do razoável... Têm sido ricos os convívios da Tabanca Grande e eu gostava de usufruir do momento, tal como sucedeu nos convívios anteriores, onde se dialogou com normalidade e em que, até, alguns destes temas propostos foram abordados de modo ligeiro e num grupo restrito, sem alarido. É bom rever os amigos que connosco partilharam momentos difíceis na guerra e afastar os fantasmas nesse dia. É só uma vez por ano, é bom saboreá-lo." (...)

Outro camarada, sábio, experiente e veteraníssimo combatente, o João Sacôto, diz o mesmo, de um modo mais sucinto: Interessante e importante a sugestão do António Martins de Matos, "só que tenho dúvidas em relação ao local e ao momento sugeridos"...

António, temos que deixar amadurecer a ideia... Um abraço, Luís

Tabanca Grande disse...

... Ah!, esqueci-me de referir o teu poste anterior, além das cerca de 500 visualizações, já vai com 30 comentários, o que nos tempos que correm, quer dizer alguma coisa... Conseguiste atrair atenções dos nossos blogueiros e facebuqueiros... Afinal, o blogue mexe e a rapaziada está viva... Ab. LG

antonio graça de abreu disse...

Desculpa, Luís, mas não se trata simplesmente de considerar, segundo as tuas palavras: "O debate de temas como este continua a ser atual e importante, se conseguirmos trazer novos dados." Exactamente, o debate é sempre actual e importante. Mas quais "novos dados", meu caro Luís? Estamos a falar de "boatos e mentiras" sobre a nossa guerra, que têm feito o seu caminho na historiografia portuguesa recente e no nosso blogue. Quais "novos dados"? Será que eu, quanto falo sobre os factos reais, na fase final da nossa guerra, estou a inventar? Será que o nosso tenente general António Martins de Matos quando fala em "boatos e mentiras" e dá os exemplos claros desses boatos e mentiras, também está a inventar? Dados novos?
Novos dados? Por Amor de Deus e dos irãs da Caboiana!...
Este excepcional blogue, ao longo de muitos anos, deu muito trabalho a erguer, é incontornável para entendermos a nossa guerra na Guiné. Tu, o Vinhal, o Briote, o Eduardo têm sido uns heróis no inteligente levantar do blogue. Mas uma coisa é a verdade factual e histórica, outra são "boatos e mentiras" que de tão repetidos
se transformam em "verdades", falsas como Judas.
Só isto, que será assim tão difícil de entender?

Abraço,

António Graça de Abreu

Anónimo disse...

Senhor A.G.Abreu

No seu comentário surgem Deus,Judas,e um respeitado senhor Oficial operacional.

A ser uso medievo do argumento da autoridade é patético!

Na busca de verdades absolutas devo recordar-lhe que ,para muitos de nós,elas têm origem no Vaticano e suas Encíclicas Papais.

Intelectuais,filósofos,místicos,todos costumam demonstrar saudável humildade quanto a verdades indiscutíveis,

Quanto a verdades histórico-políticas,e seus vinculadores civis ou fardados,bastará olhar-se à volta,antes,durante,e depois da guerra,para se constatar que as mesmas pouco têm de comum.

Restam assim as verdades antagonicas que,sem o argumento da autoridade acima referido, ou uma polícia política mais efetiva que a anterior,nos acabam por limitar raciocínios.

Rui Santos Lima



antonio graça de abreu disse...

Disse o historiador e filósofo inglês Bertrand Russel (1872-1970), também Prémio Nobel e um homem de paz:

"Quando você está estudando um assunto ou a considerar alguma filosofia, pergunte a si mesmo: Quais são os factos? E qual é a verdade que os factos revelam? Nunca se deixe divergir por aquilo que você gostaria de acreditar, ou pelo que você acha que traria benefícios às crenças sociais, se acreditassem em si. Olhe apenas e somente para quais são os factos"

Em entrevista à BBC, em 1959.

Eu escrevi: uma coisa é a verdade factual e histórica, outra coisa são "boatos e mentiras". Quais verdades absolutas, quais verdades indiscutíveis? Leiam outra vez as palavras de Bertrand Russel.

Abraço,

António Graça de Abreu

joe disse...

Caro Rui Santos Lima

Encontro-me muitas vezes (demasiadas) em desacordo com o Amigo e Camarada Graca de Abreu.
A alguns,talvez mais novatos neste blogue,ele poderá parecer provocativo e exaltado ao argumentar com o seu coracäo de poeta demasiadamente junto à boca.

Será certamente opiniäo discutível mas...é a minha.

Mas iräo täo longe estas nossas trocas de "pirôpos" que acabam
por nos levar para áreas de metafísicas várias?

Mesmo em perspectivas de uma área täo interessante como a metafísica,o Camarada Abreu poderá reagir com a tal exaltacäo de "converso novo" mas...nunca da forma "patética" como,quanto a mim inapropriadamente, refere.

Entre nós,antigos combatentes, poderá haver *Amigos em desacordo*. É saudável!
Mas näo creio existirem neste blogue... *inimigos em acordo*.

E,mais uma vez,os comentadores voltam a falar (quase literalmente) do sexo dos anjos em vez de analisarem as interessantes propostas do Sr.General.

Um abraco

José Belo



António José Pereira da Costa disse...

Tás a ver António?
Tás a ver o que arranjaste com aquelas bocas sobre a guerra?
Já vamos na filosofia e iremos mais à frente... Se arranjares mais uns "boatos, mentiras e verdades é certo e sabido!
Por mim, tou de acordo contigo.
FAP for évora!
Guilege nunca mais!
E çagente não çe punhápao, inda ganhávamos auela m...
Tava quase, quase e In(sidioso) e ardiloso In rendia-se de cócoras.

Um Ab. para ti e para os os outro sem esquecer o A. G. A.
António J. P. Costa

joaquim disse...

Bom dia camarigos

Meto a minha "colherada", não para discutir seja o que for, (confesso, sem qualquer ironia, que me vai faltando a paciência), mas para defender a ideia expressa por alguns de que o Encontro, o Convívio, deve ser precisamente para isso: Encontro e Convívio.

Por isso mesmo sempre achei que este tipo de mesas redondas, ou quadradas, para discutir a guerra, deverão ter lugar noutro contexto que não seja o puro e simples convívio entre combatentes, que aliás, já falam livremente desse tema sentados à mesa do almoço e por aí fora.

Conto-vos uma história que pode ter passado desapercebida.

O ano passado, ou há dois anos, (a memória não ajuda), quando esperava cá fora, no sítio do costume, que fossem chegando os camarigos, veio uma senhora ter comigo, confirmando o meu nome e dizendo-me que trazia o pai para o encontro.
Dizia ela que o pai tinha estado na Guiné, que nunca falava disso, e aliás falava muito pouco, porque a guerra o tinha marcado fortemente.
Tinha no entanto acedido a ir a este almoço.

Cumprimentei-o, dei-lhe um abraço, e ele foi-se envolvendo com os outros camarigos.

Resumindo e concluindo, o nosso camarigo veio no fim do Encontro falar comigo, (com a filha, salvo o erro), e parecia outro.
Agradeceu-me, (a mim que nada fiz, pois nem estive com ele ao almoço), e a filha disse também que o pai estava diferente, para melhor, claro.

É por estas razões que eu insisto que estes convívios devem ser absolutamente convívios, em que todos falam, mas não têm que ouvir discursos, "orações sapientais", palestras, música a metro, etc., etc., para que cada um faça e conviva como melhor lhe apetecer e não se sinta obrigado a ouvir seja o que for.

E "prontos", por aqui me fico.

Abraços a todos do
Joaquim Mexia Alves

Tabanca Grande disse...

Costuma-se dizer que vemos a floresta quando estamos longe ou quando a sobrevoamos... Ao pé da floresta, eu só vejo a árvore. É importante o ponto de observação e o ângulo de visão do observador... (para não falar dos instrumentos de obserção…). De longe posso ver o conjunto, mas não o detalhe. Ao perto, posso ver o detalhe mas não o conjunto...
Hoje sei muito mais da guerra no TO da Guiné, sei muito mais sobre as nossas Forças Armadas e sobre os homens (e mulheres) que estavam do “outro lado do combate”, do que no tempo (1969/71) em que eu fiz a guerra, integrado numa companhia africana de intervenção, e num setor (L1) delimitado.. Tudo isto graças a este blogue que temos construído, ao longo de anos, com a generosidade, a paixão, a autenticidade, o voluntarismo, a solidariedade de centenas, senão milhares, de camaradas que por aqui têm passado, carreando materiais (textos, documentos, fotos…), publicando, lendo, comentando, etc....
Tenho, além disso, a humildade intelectual suficiente para dizer que, chegado a esta idade, (i) não vivi tudo; (ii) não vi tudo; e (iii) não li tudo...
A função da investigação histórica é justamente a de nos trazer "dados novos", produzir conhecimento e sobretudo dar-nos novas grelhas de "leitura e interpretação" dos acontecimentos...
Estou grato a todos aqueles (e aquelas...) que me têm ajudado a saber "mais e melhor" sobre este dossiê (, o da guerra da Guiné, 1961/74) que está longe, em minha opinião, de estar fechado... E não vamos ser nós que o vamos fechar...

joe disse...



Mulheres e copos! Mulheres e copos!...(mais o tal "Já" de um comentador anterior) e... näo será altura de voltar a página?

Gr.ab. do José Belo






Ricardo Figueiredo disse...

Meus caros Camaradas e Amigos,(Camarigos),

Quão pequena é a Guiné e quão grande é a discórdia ,factual ,da guerra a que todos nós,então jovens e garbosos soldados de Portugal,oferecemos o nosso sangue,suor,lágrimas e até a vida,para que comprometamos agora a nossa camaradagem com pequenas discussões interpretativas de algumas estórias que se vão postando neste nosso Blog.
Há porém uma coisa que é absolutamente indesmentível . No teatro de operações da Guiné,nenhum aquartelamento era igual a outro,podiam ter semelhanças,mas nenhum era igual.O comando era diferente,o equipamento bélico era diferente,as instalações eram diferentes,o rancho era diferente,a comunhão com os nativos era diferente,as bolachas eram mais ou menos extensas,as picadas eram mais ou menos transitáveis,enfim,nada era igual.
Também o período que antecedeu a revolução de Abril foi diferente dos períodos vividos na década de sessenta e setenta.O pulsar da Guerra,quer se queira ou não, teve um pico entre 1972 e Abril de 1974.O nosso armamento em nada evoluiu,o equipamento do IN ,sofreu uma evolução notória,os nossos meios de transporte,mantiveram-se,os do IN ,foram melhorando gradualmente,a nossa supremacia aérea,viu o seu poder reduzido ,com a introdução dos mísseis ,pelo IN.
Os nossos aquartelamentos começaram a ser atacados por mísseis,quando a nossa capacidade de defesa era muito inferior.
Estes,são alguns dos factos indesmentíveis ! Os outros ,os que se vão dizendo,com mais ou menos verdade,são os temperos naturais e a gosto de quem os reproduz. Uma coisa é certa,a nossa camaradagem,essa é verdadeira,real e indiscutível.
Em vésperas de mais um saudável encontro ,esqueçamos estas discussões estéreis ,que a nenhum lado nos levam e deixemos o resto para os verdadeiros historiadores,que por enquanto,poderão contar com os testemunhos vivos .
Um abraço do tamanho da Guiné,do
Ricardo Figueiredo

antonio graça de abreu disse...

Último comentário meu a ideias subjacentes, omnipresentes, falsas sobre a nossa "derrota na Guiné." O IN eram os bons,nós, NT, derrotados, éramos os maus, os coitadinhos.Diz o Ricardo Figueiredo:

"Os nossos meios de transporte,mantiveram-se,os do IN ,foram melhorando gradualmente,a nossa supremacia aérea,viu o seu poder reduzido ,com a introdução dos mísseis ,pelo IN.
Os nossos aquartelamentos começaram a ser atacados por mísseis,quando a nossa capacidade de defesa era muito inferior."

As pessoas que fazem estas afirmações acreditam cegamente no que costuma ser dito, acreditam cegamente, em mentiras desmentidas pelos factos e pela História, acreditam com uma fé messiânica e inultrapassável.
Como explicar que a realidade, os factos,com alguns pontos de verdade, eram diferentes?
Claro que não íamos ganhar aquela guerra.Mas sejamos dignos, honestos, rigorosos a entender o esforço, suor e sangue dos nossos camaradas dos três ramos das Forças Armadas, Guiné 1972/1974.
Mais nada.

António Graça de Abreu

joe disse...

Bom,como aparentemente näo vamos mesmo "voltar a página" (e como se dizia no nosso querido Portugal do antigamente) lá vamos continuar a:

-Deitar foguetes e apanhar as canas!

J.A.G.C.Belo

Ricardo Figueiredo disse...

Meu caro António Graça Abreu ,

Não posso ficar calado,face à utilização da minha citação.
Serenamente ,dir-lhe-ei do que sei,do que vi e do que vivi.
Estive em Cabuca,no leste da Guiné,vivíamos no subsolo,éramos atacados com foguetões e para defesa do aquartelamento dispúnhamos apenas de dois morteiros 81,a arma mais pesada que existia,para além de 2 bredas !
Em relação a transportes,tínhamos ,a nível de companhia,uma Berliet e 3 unimos,funcionais,o resto era sucata!
Os abastecimentos,demoravam a chegar muitas vezes um mês e quando chegavam o seu estado de conservação não era o melhor,v.g. as batatas,possuo fotografias propositadamente tiradas para os fins convenientes !
Foi preciso proceder à evacuação de feridos e a FAP não compareceu,sendo necessário fazer coluna para Nova Lamego , no nosso Jornal Os Abutres de Cabuca isso é referenciado !
E fico-me por aqui .
Se a guerra do meu amigo, era melhor que a minha .só tenho a felicitá-lo por isso.
Com isto,não desvalorizo a valentia dos soldados Portugueses e o esforço de guerra que foi feito. Outrossim é dizer-se que tínhamos supremacia,pois isso é de facto uma falácia ! Tivemo-la no inicio da guerra,não duvido,depois de 70 ponho as minhas dúvidas.
Abraço do,
Ricardo Figueiredol

antonio graça de abreu disse...

Obrigado, Ricardo,pelo seu testemunho.
Eu não vi quase nada da guerra. Cheguei em 1972, estive sete meses em Teixeira Pinto,Cacheu,Bachile,Jolmete,Pelundo, Có, Bula, Caió. Depois cinco meses em Mansoa,
com Cutia, Jugudul, Braia, Infandre,Dugal, Nhacra e finalmente, a partir de Julho de 1973 foram dez meses em Cufar, Catió, Bedanda,Cobumba, Chugé, Caboxanque, Cadique e Cacine.Estive no CAOP 1, um Comando de Operações no norte, centro e sul da Guiné, 1972-74.
Acha que eu não conheço as dificílimas condições de vida de todos nós? Não conheço "a valentia dos soldados Portugueses e o esforço de guerra que foi feito"?
É exactamente por isso, pela extrema dignidade e espírito de sacrifício de toda esta nossa gente que continuo a alinhar estes comentários.Por favor não misturem a política,a má política em tudo isto.
Abraço,

António Graça de Abreu

Ricardo Figueiredo disse...

Grato ,António Abreu,

Em nenhuma parte das minhas postagens anteriores ,encontrará qualquer politização da guerra.
Nunca pus em causa e jamais o farei,a valentia,o espirito de sacrificio e o patriotismo dos nossos soldados ,tanto mais quanto,o Senhor e eu,o fomos também e disso ,penso,nos orgulhamos.
Factos são factos e isso,nada tem que ver com política,vencedores ou vencidos.
Assim,penso,continuamos irmanados na mesma cruzada.
Um abraço do,
Ricardo Figueiredo

joe disse...

Caro Amigo e Camarada.

"Por favor näo misturem a política,a má política em isto tudo".

Quando se escreve o comentário número-1 d'estes já mais que 20,näo se está lá a "misturar a política"?

De estranhar, virginalmente,que as respostas(!) ao mesmo mais näo sejam que uma continuidade de opiniöes políticas?

Temos entäo que assumir ser este comentário número-1 o...originário dos nossos "estados de escândalo" posteriores.

Valorizacöes quanto à boa ou má política?

Boa política a própria e... dos que comigo concordam?
Má política... a dos outros?

Francamente,nem com o meu "assuecamento" de quarenta anos feito!

Mais um abraco do José Belo


Manuel Luís Lomba disse...

Evocando Paul Veyne, "a História é um romance verdadeiro que tem o homem por actor". O António Martins Matos, eu e a malta deste blogue fomos actores da Guerra da Guiné, logo habilitados a historiá-la, na primeira pessoa. Os que não a protagonizaram, não só a contam pela boca de outros, mas também lhe acrescentam pontos.
Como os comentadores, sem embargo a sua multiplicidade, não contraditam as tão qualificadas asserções do AMM, proponho-me a subscrevê-las:
4 - E a população de Guileje não fugiu para o atacante "libertador", mas acompanhou a força militar que retirava do seu posto!
Meu testemunho pessoal, vivido: as populações em fuga à guerra, procuravam o Exército Português...
5 - O Nino Vieira não entrou em Guileje,enquanto não pode dispor do blindado de transporte de pessoal, semelhante à Chaimite...
6 - Spínola correu com a malta do PAIGC do Cantanhês, mas "não autorizava que se tocasse na Ilha do Como" - o seu refúgio.
Indício de prova de que a sua condução da Guerra da Guiné não almejava a derrota militar do PAIGC...
7 - Tinham dois blindados de transporte - um no Sul e outro no Norte. A malta que defendeu Pirada viu e neutralizou este, a tiro de...morteiro de 60!
8 - Acredito; mas tenho de confrontar as estatísticas.
9 - Éramos 45 mil (militares, polícias, milícias. sipaios, auto-defesa, etc.), enquanto o efectivo operacional do PAIGC rondava os 4 mil - um rácio de mais de 60 armados para mil habitantes!
10 - Prevalece o "politicamente correto".
Para políticos e facções ideológicas, conta o que eles acreditam que aconteceu e não os "factos acontecimentais"...

Antº Rosinha disse...

Para mal dos "nossos africanos", nós perdemos a guerra, sim!

Mas não foi em Guileje, nem em Bissau, nem em Cabora Bassa, nem em Nambuangongo...nem mesmo em Goa nem em Dili.

Nós perdemos a guerra em Argel, em Dien-Bien-Phu, em Kinshassa, em Estocolmo, no Vaticano, em NY na ONU e até mesmo em Paris e Londres.

Em África, apenas os Boers da Mandela ganharam uma grande, enorme guerra colonial.

Mas o nosso esforço (1961-1974)não deve ser esquecido, antes pelo contrário deve ser sempre exibido e lembrado à Europa e África inteira.

Consta nos jornais que os nossos Comandos entraram em acção recentemente sem baixas, na República Centro Africana (estão bem treinados).



J. Gabriel Sacôto M. Fernandes (Ex ALF. MIL. Guiné 64/66) disse...

António Rosinha:
Esse é, na verdade o meu pensamento. é a partir daí que toda a análise tem que ser iniciada.
Forte abraço, camaradas,
JS

antonio graça de abreu disse...

É isso mesmo, Rosinha,em termos políticos aquelas guerras seriam sempre perdidas. Era insustentável, impossível o sonho do Portugal multiracial e pluricontinental,do Minho a Timor. Os ventos da História (hoje podemos questioná-los!) sopravam desembestados e reduziam-nos ao "orgulhosamente sós". Perderíamos sempre aquelas guerras.
Mas no terreno,no campo militar, até Abril de 1974 ,não perdemos guerra nenhuma. Só isto. Será tão difícil entenderem-me?

Abraço,

António Graça de Abreu

António José Pereira da Costa disse...

Perder? Nem a feijões!...
Uké pecizo é "não perder a faze".

Durmam bem
Um Ab.
António J. P. Costa