sábado, 28 de novembro de 2015

Guiné 63/74 - P15419: (Ex)citações (302): Apaixonei-me por uma canção que o Conjunto João Paulo interpretava e incluí-a no meu reportório para a cantar numa festa no Entroncamento (José Vargues)

1. Mensagem do nosso camarada José Vargues (ex-1.º Cabo Escriturário da CCS do BART 733, Bissau e Farim, 1964/66), com data de 26 de Novembro de 2015:

Camarada Carlos Vinhal
Eu não podia passar sem falar sobre o brioso conjunto musical, e como tal adquirir o álbum de 45 rotações, gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, que na altura foi representante exclusivo, em Portugal, da etiqueta Colúmbia.
Eu sempre me interessei pela música e apaixonei-me por uma canção que eles também interpretaram, que a incluí no meu reportório para cantar numa festa no Entroncamento.
Foi uma experiência curta, porque estava a tirar o Curso Geral do Comércio, que achei mais importante.

Um abraço a todos
José Vargues
ex-1.º Cabo Escriturário n.º 609/64

Para ouvirem o tema "Ma Vie", incluído neste EP, cliquem aqui
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Nota do editor

Último poste da série de 23 de novembro de 2015 Guiné 63/74 - P15397: (Ex)citações (301): O álcool na génese de não poucas baixas mortais no CTIG: relato de um quase acidente que se passou comigo, e que podia ter resultado em tragédia (Abílio Magro, ex-fur mil amanuense, CSJD/QG/CTIG, Bissau, 1973/74)

Guiné 63/74 - P15418: Os manuais escolares que nos forma(ta)ram (2): Geografia, Portugal e Colónias, 3ª e 4ª classes, de A. de Vasconcelos, c. 1940 - Parte II: Angola, com uma superfície 14,5 vezes maior que a de Portugal Continental, teria uma população que "regula(va) por uns 6 milhões de habitantes, a maior parte pretos (sic)"... Esta estimativa parece-nos grosseira... Oz densos aponmtavam para 3,7 (em 1940), 4,1 (em 1950), 4,8 (em 1960) e 5,7 milhões (e em 1970)...


VASCONCELOS. A[ugusto Pinto Duarte] de - Geografia Portugal e Colónias, 3ª e 4ª classes, nova edição. Porto: Editorial Domingos Barreira, [1940], 118 + 1 pp., ilustrado, 18 cm.





Geografia... op. cit. p. 103: vejam-se as fronteiras de Angola, de antes da II Guerra Mundial: Congo Francês, Congo Belga, Rodésia Inglesa e África do Sudoeste (Inglaterra) ou Botelândia (antiga África Ocidental alemã, perdida para os ingleses na sequência da I Grande Guerra, e hoje Namíbia)...




Geografia..., op cit., pp. 103-106


2. Comentário do editor:


Não sabemos onde o autor foi buscar um valor de 6 milhões de habitantes para a época [, 1940,] em Angola...

"A notícia da primeira tentativa para a contagem da população angolana data do último quartel do séc. XVIII, mais precisamente do tempo em que foi governador de Angola D. António de Lencastre (1777-1778), com a execução da ordem de 21 de maio de 1770, da autoria do então,ministro Martinho de Melo Castro. Foram contados, nessa altura, 1.581 brancos, 1.013 mestiços e168.493 pretos avassalados."

Por Carta de Lei de 17 de agosto de 1899, foi mandado proceder-se  ao recenseamento da da população no Ultramar de dez em dez anos

O primeiro censo, na realidade, só foi realizado em 1940.  A população total de Angola era então de 3.738.010 indivíduos.  

O censo de 1950 apontava para um total de  4.145.266  indivíduos e o de 1960 apurava um crescimento de 700 mil (Total; 4.840.719 pessoas).

Em 1970,  a população estimada de Angola era  de 5.673.064 habitantes.  [E já aaora acrescente-se que a população de origem europeia continuava a ser diminuta: cerca de 44 mil em 1940; 172.529 em 1960...].


sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Guiné 63/74 - P15417: Guiné, Ir e Voltar (Virgínio Briote, ex-Alf Mil Comando) (XXIII Parte): Lifna Cumba, o "Joaquim"; Um longo Dezembro e Os Últimos Dias

1. Parte XXIII de "Guiné, Ir e Voltar", série do nosso camarada Virgínio Briote, ex-Alf Mil da CCAV 489, Cuntima e Alf Mil Comando, CMDT do Grupo Diabólicos, Brá; 1965/67.


GUINÉ, IR E VOLTAR - XXIII

1 - Lifna Cumba, o “Joaquim” 

Parou no Taufik Saad, manequim na montra, mexeu-se no meio daquelas novidades, umas calças finas, antracite, uma camisa branca made in Macau, meias pretas nos sapatos pretos, parecia outro quando saiu, pela rua fora.

Em Brá, a 3.ª Companhia de Comandos estava a caminho dos quatro meses de comissão. Já tinham medido forças várias vezes com a guerrilha. Um dos alferes na primeira saída foi atingido por um estilhaço. Apesar do ferimento não parecer muito grave teve que ser evacuado para o Hospital Militar de Bissau. Recuperado, duas ou três semanas depois, voltou a sair e voltou a ser atingido. Evacuado, foi novamente internado no Hospital. Dias depois teve alta e após uns dias em repouso em Brá foi a vez do grupo que chefiava voltar a alinhar.
Não há duas sem três, deve ter sentenciado um filósofo há centenas de anos e passou a ser corrente na voz do povo. Pois o nosso alferes voltou a ser atingido, desta vez com mais gravidade. Três saídas para o mato, três ferimentos em combate, não era nada animador, de facto. Só havia uma saída, abandonar o palco.

Ainda estavam os Diabólicos nos últimos dias de actividade operacional, foi uma tarde contactado em Mansoa pelo Capitão Alves Cardoso, o comandante da 3.ª Companhia de Comandos.
Dê-me os nomes de dois guineenses do seu grupo, que possam vir a fazer parte da minha companhia.
E deu, não dois mas três. Foi assim que o Joaquim passou a integrar a 3.ª CCmds. Teve conhecimento, mais tarde, pelo próprio capitão, de que teria entrado em duas ou três operações e tinha inspirado confiança aos jovens candidatos a Comandos.
Em Outubro, talvez no final da primeira semana ou início da segunda, soube que o grupo de que o Joaquim fazia parte andava algures para os lados de Mansoa. Num daqueles dias encontrou o Furriel Valente de Sousa na esplanada do Bento. Então que tal têm corrido as coisas aos novos, perguntou a certa altura ao Valente de Sousa, que mantinha uma relação de maior proximidade com alguns camaradas da 3.ª CCmds.
Têm corrido bem, o Joaquim, ontem, é que teve azar. Um azar que, aliás, podia acontecer a qualquer um de nós. Que azar?

“Joaquim”, o Lifna Cumba, de pé, em segundo plano, de frente para a máquina. Regresso da Operação "Atraca". Julho de 1966. 

E o furriel, continuando como se estivesse a falar só, que o comandante do grupo tinha mandado o Joaquim internar-se na mata, que alguém do grupo terá visto um vulto a movimentar-se entre as palmeiras, e precipitou-se, disparou e depois foi uma fuzilaria para a mata. Olhe meu alferes, ficou como um crivo.
Levantou-se, enfiou-se no Fiat, directo ao Hospital Militar.

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2 - Um longo Dezembro

Uma eternidade, aquele mês de Dezembro nunca mais acabava.

Olhou para as tralhas acumuladas nestes dois anos. Não é que fosse muita, livros, papelada e fotos sim. Andava a aproveitar as noites de subalterno de dia no QG para lhes pôr alguma ordem, cópias de relatórios das operações e centenas de fotos. Estas são para rasgar, isto onde foi, como é que se chamava este tipo, apontamentos ao lado, nomes dos camaradas atrás, e depois disto, para onde fui? Anotava o que se lembrava, folhas e folhas, dois anos quase, ali à sua frente.

Correspondência! O aroma dela nas cartas, falta pouco, um mês só, não vou a Lisboa esperar-te, mas quando puseres os pés em terra, lembra-te, estou contigo. Está tudo dito, já não há mais para dizer. À frente dele, uma folha toda em branco, enorme, com tanto espaço para responder, sem ideias, nem sabia como começar. Quero estar contigo, sem mais ninguém por perto. Uma frase só numa carta. Não tenho mais para dizer, não sei o que escrever.
Vinte e quatro meses de cartas para lá e para cá. Palavras para encher papel, que de guerra não havia que dizer. Tinha cumprido, sem um desvio, que se lembrasse, o que tinha prometido a si próprio, falar de tudo menos de guerra, que era assunto que não lhes interessava. Que havia de dizer aos Pais e à namorada? De bazucas, de morteiros, de PPSHs1, de feridos, de estropiados, de evacuações? De uma guerra que se discutia? Não, não à namorada nem aos Pais.
Quando lhes falava da Guiné, era das paisagens, dos rios, dos enormes poilões, da gente boa que conhecia, e do tempo que fazia. Um calor e uma humidade que nunca sentira, vê lá tu, às vezes acabo de tomar banho e só de me limpar com a toalha fico outra vez a suar. Por vezes volto ao chuveiro e deito-me sem me secar. Escrevia-lhe do tempo que faltava para ir de férias, ainda nem quatro meses tinha de Guiné! Umas férias que nunca vieram, por culpa dele. Quem havia de se meter em sarilhos na Associação Comercial de Bissau? Quem havia de fazer frente a um tenente-coronel, na ordem de batalha, dizer-lhe nas trombas, com oficiais presentes, que ele, senhor tenente-coronel, estava pouco informado? Um garoto com 21 anos, quem é que ele se julgava? Não posso ir de férias, fui castigado, na tropa diz-se punido, por falta de respeito a um oficial superior. Já passou um ano, só falta o outro. Estou bem, em descanso, tenho muito pouco para fazer, espero o dia em que te vou ver. Não é preciso testemunhas, só quero estar contigo, os dois sós.

O sono leve, intermitente, e as malas, o que vou levar? Tem que caber tudo numa mala, não levo mais. Já pensaste no que vais levar, o que é que vai contigo? Os livros, todos, uma muda de roupa civil, as coisas do quarto de banho. Os sapatos civis, as botas, o camuflado, tudo no saco da tropa. Levaria vestida a farda amarela, a que envergara aquele tempo todo, as botas de cabedal e a boina. O resto ficava, podia servir a alguém.

O despertar súbito, outra vez muito acordado, uma sensação estranha a aparecer, a tomar conta dele, uma vontade irreprimível de fugir, os pés fora da cama, o que vou fazer, para onde, a tremer como se estivesse com febre. No quarto de banho, frente ao espelho, este sou eu com as mãos na cara, isto vai passar, nem um mês falta.

Talhão militar do cemitério de Bissau. 
Foto do autor. 

Tinha que ser, tinha que lá ir. Numa daquelas tardes entrou no cemitério, directo às campas dos camaradas. Parou em frente ao túmulo do Silva, a olhar para a relva. As diligências que fizeram, até o dinheiro que receberam pelas armas que apanharam, reverteu todo para as urnas de chumbo, para as trasladações dos corpos dos camaradas mortos. E o que resta do Silva ainda aqui está, aqui mesmo à frente. Soldado António Maria Alves da Silva. Nasceu em 17 de Janeiro de 1942. Faleceu em 6 de Março de 1966.
Sem uma flor, sem nada.

A guerra via-a de muito longe, como se fosse um assunto que já não lhe dizia respeito. Mas mesmo assim, às vezes não podia esquivar-se aos relatos dos recém-chegados do mato. A 3.ª CCmds andava por Tite. Raramente saía com efectivos inferiores a dois grupos.


Entretanto chegara outra Companhia de Comandos, a 5.ª, comandada por um jovem capitão, um tipo simpático. Então como é isto aqui, fresco, não? As zonas da guerrilha são todas iguais ou há diferenças? Antes que me esqueça, cumprimentos do Capitão Saraiva. Quando chegar a Lisboa contacte-o.

Visto como inexpugnável, no sul as NT estavam praticamente confinadas aos aquartelamentos. Madina do Boé, um inferno, o Diem-Biem-Phu dos portugueses, o capitão de lá a dizer que a única coisa que podiam fazer era viver de dia e de noite dentro dos abrigos cavados no solo, suportados por troncos e enchidos com cimento em barda. Passavam os dias e as noites a verem a vida em frente por entre os buracos. Abastecidos do ar, dizia para quem o queria ouvir, que os aviões faziam malabarismos para não serem atingidos. Madina vai ser o primeiro aquartelamento a ser tomado pelo PAIGC, ouvia-se em muitas bocas que era um assunto arrumado.


Os Fiats G-91 já estavam operacionais, a esperança da manutenção da superioridade via-se em algumas caras, confirmavam-se notícias de acções sobre antiaéreas do PAIGC. E os lobos maus, os Alouettes III armados com canhão e metralhadora, passadas as experiências, também já apoiavam as forças terrestres.

Alouette III armado. 
Foto da net. 

E os ataques dos guerrilheiros com foguetes a vários aquartelamentos também começavam a ser frequentes. O norte em brasa, Barro, Bigene, Guidage, o Oio nem se fala, o sul quase fora do controlo, o leste ainda assim-assim.
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Nota:
1 - Pistola metralhadora utilizada pelas tropas da URSS durante a 2.ª Grande Guerra. Nos anos a seguir a PPSH foi utilizada por numerosos movimentos guerrilheiros apoiados pela URSS. Encravava com alguma facilidade, especialmente com o carregador em forma de tambor, e a alta cadência de tiro (cerca de 900 por minuto) aliada à facilidade de disparo faziam com que rapidamente se gastassem munições disponíveis, o que acarretava alguns problemas logísticos à guerrilha. A elevada cadência de tiro levou a que as NT lhe pusessem o nome de costureirinha.

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3- Os últimos dias 

Natal à porta, as montras de Bissau mudaram a cara, muitos militares nas ruas a entrarem e a saírem das lojas. Há um ano andava por Barro e Bigene, foi um fim de ano diferente.
No QG organizaram uma Ceia de Natal como devia ser, bacalhau e os doces todos. Estava lá toda a oficialada superior, Comandante Militar incluído, e familiares, mulheres e filhos, alguns vindos de Lisboa para passar o Natal com os papás.
Bebeu-se muito bem, alguns demasiado, como acontece sempre. Depois, ao ar livre, viram um filme italiano, com o Gianni Morandi, um cantor italiano que estava na moda, a fazer o papel principal dentro da farda de um soldado, estavam à espera de quê, que fosse de um capitão? Um apaixonado, aquele Morandi, tirava canções atrás de canções. Tantas que a maralha lá de trás, entusiasmada, começou a acompanhar a música, primeiro um, muito baixo, depois já se sabe como é, outros entusiastas também, até o Morandi se virou para eles, a cantar de lágrimas nos olhos. Falta de respeito! Uns alferes de merda, uns comunistóides, que é para isso que agora servem as universidades, sussurrava um major voltado lá para trás!

Entrou Janeiro, a primeira semana nunca mais acabava, minuto a minuto, até de noite! A confirmação da data de chegada do Uíge também chegou naqueles dias. A 17 deste mês, disse-lhe o Manaças, a par de tudo o que fosse transportes. Estou a dizer-te, pá, já saíram de Lisboa, estão neste momento a caminho daqui!
E o navio chegou mesmo. As tropas, verdinhas de novas, demoraram uma eternidade a desembarcarem, uma vontade enorme de não mexerem as pernas.

Navio “Uíge” em Bissau. Foto de Torcato Mendonça. Com a devida vénia. 

Estava a vê-los ao longe, na marginal, encostado a uma palmeira. É aquele o navio que te vai levar, amanhã por estas horas estás com a mala na mão, prontinho a entrar. Ficou-se a olhar para eles a saírem devagar, um a um até às lanchas, depois já no cais, perdidos, para um lado e para outro, pareciam formigas. Alguns daqueles não voltam a ver Lisboa.
Bom, vamos lá embora, até ao Bento, mais uma cerveja para veres melhor, o Manaças sempre ao lado, não o largava nem um segundo. Veio-lhe à memória a despedida do Godinho dos “Camaleões” naquele mesmo cais. E o gesto dele, de um jovem virado ao contrário. Tira do bolso uma pequena caixa de plástico e da boca sai-lhe uma frase: aqui a ganhei, aqui fica! E manda a caixa pelo ar até ao Geba.
Sabias que na noite de consoada, um soldado em Tite descarregou a G-3 no capitão?
Não quero saber de mais nada, Manaças, quero é ir-me embora. Da Guiné, agora só quero ostras no Fonseca.
Nem no Fonseca se podia estar, tanta gente nas mesas. O Augusto, um guineense que a sua companhia de Cuntima recolhera no mato e que depois aprendera com eles a ler, recebeu-o com um abraço, até se esqueceu que estava de serviço às mesas. Arranja mesa, pois claro, alferes, tem que arranjar! A sala cheia de fumo, aromas de álcoois, de muita gente também.
As cores da pele desta gente, das roupas, são quase todas iguais. As cores daqui são diferentes das que estamos habituados a ver na metrópole, um periquito da mesa do lado.
A Guiné não tem cor, tem cores, as que eu vejo andam todas à volta de tons de verde do claro ao escuro, o Manaças sonhador.
A cor de fundo, a que vai comigo, é a cor do uísque e da cerveja, Manaças.

Tanta pressa que chegasse a manhã e ela nunca mais vinha. Deitou-se e levantou-se a noite toda. Mal a luz entrou pela janela atacou a mala. Afinal estava cheia, um peso para burro, o saco ao lado. Os camuflados, as botas de lona que trilharam quilómetros sem conta, as meias esverdeadas, lenços, os restos todos arrumados ao canto do quarto. Antes de sair volto a despedir-me destes camuflados que me chuparam o suor e a água das chuvas, desta tralha que me acompanhou estes tempos todos.

Depois o andar das horas acelerou, nem deu tempo para se despedir de ninguém, tudo para trás. Ficara sem olhos, não via nada. Mal deu pelo Major Pereira da Silva, só reparou quando ele o interpelou, sorridente. Isso é que é pressa, alferes! Não se esqueça, a sua vida vai agora recomeçar, as guerras vão ser outras! E pense naquela escola de que falámos, a de Lausanne.
Leva a Guiné aqui dentro, não? Mala nas mãos do motorista do Manaças, saco nas costas dele, o quarto numa desarrumação, deixa estar, a malta arruma tudo. Parou, olhou para trás, para os restos que deixava, dois anos ali no chão. Ainda pegou no lenço negro, do pescoço, que sempre o acompanhou por aquelas terras. Siga a marinha, para o cais antes que a piroga se pisgue. Ainda falta muito, pá, só embarcas depois das 5 da tarde. Ainda tens duas ou três horas à tua frente, vamos até ao Bento, sentamo-nos lá um bocado.
Uma emoção no cais. Rostos magros, amarelos, sorriso tristes, ausentes, ar de cansaço, sentados em cima das malas alinhadas, etiquetas coladas. Outros, mais exuberantes a dançar o malhão, o vira e o corridinho. Tudo pronto à espera da ordem de embarque para as lanchas. A primeira a partir, a segunda meia hora depois. Qual meia hora, cinco minutos para aí, ainda ali vai, pá! Outra, outra, nunca mais chegava a vez dele. Mas chegou, foi das últimas, mas foi. Manaças amigo!
Pá, vai direitinho, olha o chão, cuidado com as escadas.
As luzes de Bissau ali e só tinha olhos para o Uíge, ainda tão longe, mas desta vez deve ser, devo mesmo ir-me embora.
Mal subiu a escada, o camarote onde é? Meteu-se lá para dentro e fechou a porta. Acabou-se a Guiné.
Porta fechada? Julguei que não abria, um camarada com a mala.
Está a ouvir estes rebentamentos? Deve ser em Jabadá, não?

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(Continua)
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Nota do editor

Último poste da série de 19 de novembro de 2015 Guiné 63/74 - P15385: Guiné, Ir e Voltar (Virgínio Briote, ex-Alf Mil Comando) (XXII Parte): Outros horários; Contas com os fornecedores; Um mês e meio para o fim; Um Folgado no QG e VAT 69

Guiné 63/74 - P15416: Notas de leitura (780): “Sopros de vida”, por José Lemos Vale, Fonte da Palavra, 2011 (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 5 de Fevereiro de 2015:

Queridos amigos,
É uma leitura que nos permite ficar a conhecer a formação dos enfermeiros militares. Temos aqui um registo de exaltação do enfermeiro a falar desses enfermeiros, alguém que escreveu que os feridos da guerra colonial, na sua agonia e sofrimento aprenderam a só reconhecer um verdadeiro herói na pessoa do enfermeiro de combate que, desarmado e debaixo de fogo, os socorria nas picadas lamacentas. E dei comigo a pensar que ainda não li um elogio semelhante aos maqueiros, falando por mim tive o privilégio da colaboração de maqueiros extremosos que me acompanhavam nas operações, as populações do Cuor confiavam neles, acompanhavam os doentes até à consulta médica, faziam pequenos tratamentos a qualquer hora do dia e da noite.
Por favor, se conhecerem relatos sobre estes maqueiros peço-vos a amabilidade de mos transmitirem.

Um abraço do
Mário


Sopros de vida, por José Lemos Vale

Beja Santos

“Sopros de vida”, por José Lemos Vale, Fonte da Palavra, 2011, é uma homenagem de quem foi enfermeiro na CART 3505 de 1972 a 1974 e atuou em Diaca, Cabo Delgado, Moçambique. O autor esclarece: “O principal objetivo deste livro é o de relembrar a ação humanitária dos ex-enfermeiros militares e sobretudo a abnegação, coragem, sentido de entrega e generosidade de todos os ex-enfermeiros operacionais e das ex-enfermeiras paraquedistas que prestaram serviço na guerra colonial”. E exalta o combatente enfermeiro: “Era ao enfermeiro que cabia dizer ao companheiro caído, trespassado por uma rajada de metralhadora, que tivesse coragem, que não iria morrer, que tivesse fé e era a ele que cabia procurar, na picada ou no capim, o que restava do homem feito em pedaços por uma mina e depois arrumar o que pode encontrar para que as famílias viessem a ter algo dos seus entes queridos para velar. Quando se ouvia o sinistro estrondo de uma mina, ou o ladrar raivoso das metralhadoras a disparar a morte em pedaços de chumbo em brasa, todos os soldados se atiravam ao chão e se protegiam debaixo das viaturas ou num buraco qualquer. Todos, não! Carregando uma singela maleta com alguns medicamentos de primeiros socorros, os enfermeiros de combate corriam desarmados, debaixo de fogo inimigo, sob chuvas diluvianas ou sol abrasador, rastejavam nas tormentosas picadas tentando socorrer um companheiro em dificuldades ou em risco de morte que, em desfalecimento, suplicava: enfermeiro, aqui”.

O autor introduz um punhado de relatos de feridos em combate, onde constam os de Arquimínio Carrasco Marcão, da Companhia de Caçadores Paraquedistas 121, Guiné, 1970-1972, José Pereira Lopes, Guiné, 1972-1974 e Victor Tavares, também da Companhia de Caçadores Paraquedistas 121. Arquimínio Marcão depõe: “Eu regressei ferido. Fui apanhado numa emboscada quando já tinha 19 meses de comissão e ia ser distinguido com o Prémio Governador da Guiné. Depois deram-me um louvor. Uma rajada de metralhadora atingiu-me na barriga, no braço esquerdo, e o mais grave na perna esquerda: a bala entrou junto ao joelho e saiu entre as pernas”. José Pereira Lopes vivenciou o inferno de Gadamael: “Eramos obrigados a ir para as valas de água para fugirmos aos ataques. O pouco que comíamos era debaixo de fogo. Alguns, com a aflição de tentar fugir, atiraram-se ao mar e acabaram por morrer afogados”. Victor Tavares recorda a operação “Pato Azul”, na zona de Tite, o Alferes Afonso Abreu pisou uma mina antipessoal, improvisou-se uma maca alguns metros à frente um dos paraquedistas que pegava na maca acionou o fornilho que matou seis militares, incluindo o sinistrado alferes. E expõe a situação: “O Sousa, enfermeiro, que até aí tinha sido um herói no socorro ao Alferes Abreu e que seguia ao lado da maca segurando o frasco do soro, viria a morrer ficando sem um dos braços. Regressados ao destacamento, os feridos mais graves foram conduzidos para tendas onde lhes foram prestados os primeiros socorros por enfermeiros e socorristas que não tinham mãos a medir para aqueles que mais sofriam: uns choravam em sofrimento, porque os paraquedistas também choram”.

Esclarece a formação dos enfermeiros militares. No Hospital Militar Principal especializavam-se os cabos milicianos que seguiam para África como furriéis enfermeiros. No Regimento do Serviço de Saúde preparavam-se os soldados que eram enviados para a guerra como primeiros cabos enfermeiros. A instrução e especialização consistiam essencialmente em aulas teóricas onde os instruendos aprendiam matérias como: avaliação e tratamento do estado de choque; traumatismo craniano e torácico; improvisação de talas ortopédicas; urgências respiratórias e reanimação cardiorrespiratória; tratamento do choque anafilático; noções de traqueostomia (teoria); prática de pequenas cirurgias; estancamento de hemorragias; imobilização de fraturas internas; analgesia e sedação; tratamento de feridas extensas; injetáveis de vária natureza; tratamento antiofídico e antipalúdico; tratamento de doenças venéreas. No Regimento de Serviço de Saúde era também dada formação às especialidades de maqueiros e analistas de águas. Refletindo sobre as condições terríveis do trabalho do enfermeiro, recorda-nos que por vezes ele cedia às emoções e dá a sua interpretação: “Não é fácil ver um homem com os intestinos a saírem-lhe do abdómen e derramados pelo chão. É algo de pavoroso ver um corpo sem pernas, sem braços, às vezes sem as pernas e os braços. É arrepiante ver a massa encefálica a escorrer do crânio desfigurado por ter ficado sem parte da cara”. E comenta seguidamente o tratamento-tipo destes feridos e como se procurava aplacar as dores em estado de choque ou para impedir o aparecimento de gangrenas, por exemplo. Refere ainda o apoio psicológico do enfermeiro a militares deprimidos e em quadros de tentativa de suicídio. Menciona mesmo que o número de mortes de militares por suicídio foi muito significativo, o que sinceramente me deixou confuso, nunca considerei esta possibilidade. Para os grandes feridos era pedida uma evacuação e aí entravam as enfermeiras paraquedistas. Lemos Vale recolheu testemunhos de dois enfermeiros militares, dois deles antigos combatentes da Guiné: Hugo Rodrigues Coimbra e José Eduardo Reis Oliveira que nós aqui no blogue conhecemos por JERO.

A recordatória das enfermeiras paraquedistas tem sido alvo de vários livros dos últimos anos, a sua formação, a mudança que trouxeram as tradições militares, os primeiros cursos destas boinas verdes, são assunto sobejamente conhecido. Ganham realce alguns depoimentos destas briosas profissionais de saúde como o de Zulmira André que foi buscar a Guileje o Capitão Peralta, no âmbito da operação “Jove”. O autor tece-lhes uma homenagem tocante, lembra como elas excederam todas as expetativas dos responsáveis daquele projeto pioneiro, estas enfermeiras levaram os combatentes o carinho, o profissionalismo, o altruísmo e o elevado sentido de missão, pondo a mulher num plano jamais observado, não como enfermeira num Hospital de Guerra mas indo fisicamente a locais de muito risco, salvar vidas.
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Nota do editor

Último poste da série de 25 de novembro de 2015 Guiné 63/74 - P15410: Notas de leitura (779): "Combater duas vezes: as mulheres na luta armada em Angola", da antiga combatente do MPLA e hoje antropóloga Margarida Paredes (Vila do Conde: Verso da História, 2015)

Guiné 63/74 - P15415: Os manuais escolares que nos forma(ta)ram (1): Geografia, Portugal e Colónias, 3ª e 4ª classes, de A. de Vasconcelos, c. 1940 - Parte I: "A superfície das colónias portuguesas é 23 vezes maior que a superfície de Portugal Continental" (p. 93)... Éramos então a maior potência colonial, a seguir à Inglaterra e à França...



VASCONCELOS. A[ugusto Pinto Duarte] de - Geografia Portugal e Colónias, 3ª e 4ª classes, nova edição. Porto: Editorial Domingos Barreira, [1940], 118 + 1 pp., ilustrado, 18 cm. 

[Cópia em formato ppt que nos chegou por intermédio do nosso grã-tabanqueiro Mário Beja Santos... Há também uma cópia disponibilizada na Net por Armando Oliveira  Professor, Escola Secundária de S. Pedro da Cova, em 25 de junho de 2015]


Este livro do professor do ensino oficial Augusto de Vasconcelos já ia na 5ª edição, em 1930 (ano em que terá falecido, no Porto, segundo o Arquivo Municipal do Porto). Temos dúvidas sobre a data desta "nova edição", mas só pode ser dos anos 40: Bissau torna-se a capital da Guiné em 1941... não sabemos como o manual foi sendo atualizado e editado, depois da morte do autor).

Também não sabemos se chegou a  tornar-se livro  único, de acordo com a orientação do todo poderoso ministro António Carmeiro Pacheco (1887-1957), nos anos 30, que definiu as grandes linhas da política de educação nacional sob o Estado Novo:  (i) transformação do Ministério da Instrução Pública (designação cara à I República) em Ministério da Educação Nacional; (ii) criação da Mocidade Portuguesa, Mocidade Feminina e Obra das Mães pela Educação Nacional; (iii) criação da  Junta Nacional da Educação, a par do Instituto para a Alta Cultura, a Academia Portuguesa da História e o Instituto Nacional de Educação Física; (iv) introdução do modelo do livro único; (v)  obrigatoriedade de afixação do crucifixo nas salas de aula; (vi)  casamento das professoras sujeito à autorização do Estado. (A Reforma Carneiro Pacheco ficou definida pela  pela Lei n.º 1941, de 11 de Abril de 1936, a Lei de Bases da Educação do Estado Novo).

Segundo Sérgio Claudino ("Os compêndios escolares de geografia no Estado Novo: mitos e realidades", Finisterra, XL, 79, 2005, pp. 195-208), a disciplina de geografia foi suprimida no ensino primário, nos anos 30, mas continuaram a produzir-se manuais... No ensino liceal, só "em meados dos anos 50, se inicia a aprovação de livros únicos de Geografia, de conceituados professores liceais"...

Segundo o citado autor, há uma primeira reforma da instrução primária, em 1927, sob a Ditadura Militar. Na 3ª classe, "os alunos abordam noções gerais de Geografia e aspectos físicos de Portugal". Na 4ª classe, dava-se a "orografia de Portugal e Colónias"... A reforma de 1929 vai acrescentar o estudo do Brasil, até então o principal destino da emigração portuguesa. É nesse ano que se abre "concurso para a aprovação governamental dos livros escolares que os professores poderão seleccionar" (p. 197)... Em 1937, abre-se concurso para o livro único, mas não aparecem textos de qualidade.  O autor onsagrado e reconhecido pelas autoridades eram  o Acácio Guimarães( Noções de Geografia da 3.ª e 4.ª classes. Lisboa: Livraria Popular de Francisco Franco, 1931).

O ensino da Geografia vai-se manter, na instrução primária, até aos anos 60, em "ilegalidade formal"... É nessa época que aparece a disciplina de Ciências Geográfico-Naturais nas quatro classes...

Portanto, é bem possível que alguns de nós ainda tenham conhecido este manual de Geografia de A. de Vasconcelos. Tenho ideia que o meu pai estudou por ele... 



Geografia, op. cit., p. 93: "A superfície das colónias portuguesas é de 23 vezes maior que a superfície de Portugal Continental", o que nos coloca(va) entre as três maiores potências coloniais do mundo...

Geografia..., op. cit, p. 82: o território era então dividido em 3 partes, espalhadas por 4 continentes; (i) Continental; (ii) Insular (ou "ilhas adjacentes"); e (iii)  Ultramarina ("colónias ou províncias ultramarinas").


Geografia..., op. cit, p. 83





Geografia... op cit, pp. 97, 99-100 > 

Sobre a província da Guiné ficamos a saber que na época [c.1940] tinha à volta de 600 mil habitantes. (Estamos em crer que este número está sobreestimado:  a população da Guinée era de 519 mil (1960), tendo descrescido para 487,5 mil (em 1970)... É hoje de 1 milhão e meio.

A capital já era, nessa altura,  Bissau. E outras "povoações importantes" eram Bolama, Cacheu, Farim, Geba (!), Buba e Cacine... Repare-se que Bafatá nem sequer consta da lista: a única povoação importante do leste (chão fula) é Geba, completamente decadente no final dos anos 60, ofuscada pela vizinha Bafatá!... O desenvolvimento de Bafatá (a "princesa do Geba") estará ligado à expansão da cultura da mancarra, a partir dos anos 40.

Ah!, e ainda segundo o manual,  "nos sertões há muitos animais ferozes": tigre (!) (sic), leão, pantera, onça, lobo e hiena... (Essa do tigre, um felino asiático, dá vontade de rir!)... De entre as produções agrícolas, destaca-se depois do arroz e do milho, a "jinguba" (mancarra, no nosso tempo)...

Geografia..., op. cit, p.  98

Já desde o liberalismo, em meados do sec. XIX,  e até à rectificação de fronteiras com os franceses (que levou à troca da região de Casamansa com a de Cacine ou de Quitafine, em 1886), a Guiné estava dividida em dois distritos:  (i) Bissau, que compreendia as praças de S. José de Bissau, com as dependências do presídio de Geba (*), da feitoria de Fá, das ilhas de Bolama e das Galinhas; e (ii) Cacheu, que compreendia Ziguinchor (hoje capital de Casamansa, no Senegal), Cacheu, Bolor e Farim.  Este mapa é revelador da fraca penetração portuguesa no interior do território até à I República...

É bom recordar que a Guiné só em 1879 é que se separa administrativamente de Cabo Verde. É nessa altura que Bolama passa a ser a capital. Só seis décadas depois, em 9 de dezembro de 1941, é Bissau se torna a moderna capital da colónia, conhecendo então um surto de desenvolvimento sob a ação enérgica e esclarecida do governador Sarmento Rodrigues.

Na época a Guiné Portuguesa fazia fronteira com a Guiné... Francesa.

(Edição das imagens  e notas: LG)
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Nota do editor:

(*) Sobre "presídio de Geba" nos finais do séc. XIX, vd. poste 21 de junho de 2005 > Guiné 63/74 - P71: Antologia (3): Sócio-antropologia da família e da mulher em Geba, nos finais do Séc. XIX (Marques Lopes)

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Guiné 63/74 - P15414: Fotos à procura de... uma legenda (65): Os que deram, não a vida, mas uma parte do seu corpo (um pé, uma perna, uma mão, um braço, ou os olhos) pela Pátria (José Maria Claro / Francisco Baptista)


Foto nº 1 B > HMP [Hospital Militar Principa],  Lisboa, c. 1969/70 > Cinco camaradas amputados por efeito de minas na guerra do ultramar / guerra colonial



Foto nº 1 A > Foto nº 1 C > HMP [Hospital Militar Principa],  Lisboa, c. 1969/70. O José Maria Claro é o segundo a contar da esquerda.


Foto nº 1 > No HMP [Hospital Militar Principa],  Lisboa > O José Maria Claro é o segundo a partir da esquerda.


 

Foto nº 2 > CCAÇ 2464, Biambe, 1969 > O José Maria Claro, na brincadeira, "com um camarada do rolo de peso", o cilindro manual que se usava na construção e manutenção dos arruamentos dos nossos aquartelamentos...


Foto nº 3 > CCAÇ 2464, Biambe, 1969. O José Maria Claro, cheio de energia, vida e otimismo, no campo de futebol (improvisado) do quartel, antes da maldita mina A/P o ter mandado para Lisboa, para o HMP... É hoje DFA. Recorde-se, por outro lado, que a ADFA - Associação dos Deficientes das Forças Armadas comemora este ano o seu 40º aniversário.


 Fotos (e legendas): © José Maria Claro (2015). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: LG]



1. O nosso grã tabanqueiro José Maria Claro foi soldado radiotelegrafista de engenharia, da CCAÇ 2464 / BCAÇ 2861, esteve em Biambe, setor de Bula, em 1969...

Foi curta a sua estadia no  TO da Guiné. Vitimado por uma mina antipessoal, que lhe causou a perda de um dos membros inferiores.  foi evacuado para a Metrópole, para o Hospital Militar Principa (HMP), em Lisboa. (*) 


.2. Comentário do nosso camarada Francisco Baptista [,ex-alf mil inf, CCAÇ 2616/BCAÇ 2892 (Buba, 1970/71) e CART 2732 (Mansabá, 1971/72)]


Amigo e camarada José Maria Claro,  salta à vista a alegria com que te moves e te divertes, só tu ou com outros camaradas,  antes da maldita mina te ter roubado uma perna.

A tua última fotografia [, no HMP, em Lisboa,] depois de toda a sequência anterior,  é de um homem corajoso que não está disposto a desistir de viver seja qual for a contrariedade. O que nos ensinas é que a vida é um caminho a percorrer sejam quais forem as dificuldades do percurso.

O teu poste fotográfico diz mais do que mil palavras. (**)

Muita saúde e felicidades que bem mereces e muito obrigado pela lição de optimismo que me deste.

Um abraço. Francisco Baptista

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Notas do editor:


(*) 25 de novembro de 2015 > Guiné 63/74 - P15411: Memória dos lugares (323): Biambe em 1969, fotos de José Maria Claro, DFA, ex-Soldado Radiotelegrafista da CCAÇ 2464


(**) Último poste da série > 8 de outubro de 2015 > Guiné 63/74 - P15220: Fotos à procura de... uma legenda (64): visita do gen Arnaldo Schulz e do brig Reimão Nogueira a Porto Gole, em fevereiro de 1967... O insólito: (i) duas caixas de cerveja (Cristal e Sagres) no banco traseiro do helicóptero; (ii) um comandante-chefe, de máquina fotográfica a tiracolo, com ar de turista...

Guiné 63/74 - P15413: Expedição Porto-Dakar, integrada na 2ª edição do Dakar Desert Challenge: Coruche, Marrakech, Bissau, Dakar: 26 de dezembro de 2013- 9 de janeiro de 2014 (Abílio Machado, ex-alf mil, CCS/BART 2917, Bambadinca, 1970/72) - II (e última) Parte




Porto-Bissau... Expedição >  21 de abril de 2016...Dia 17 > Aeroporto Internacional Osvaldo Vieira da Silva > O tão desejado avião da TAP...


Porto-Bissau... Expedição >  21 de abril de 2016...Dia 17 > Aeroporto Internacional Osvaldo Vieira da Silva...

O que restou de Portugal, na Guiné-Bissau, por comparção com a herança inglesa (na Gâmbia) e francesa (no Senegal) ? O que resta de Portugal na Senegâmbia ? Fomos os primeiros europeus a chegar a esta vasta região da Africa sariana e subsariana... A pergunta (e a provocação) é do Abílio Machado, que a percocorreu, de jipe, entre 26 de dezembro de 2013 e 9 de janeiro de 2014,,, Ficou de nos mandar fotos, que não mandou... Socorremo-nos de outras, mais antigas, da expedição Porto-Bissau, realizada em abril de 2006, por alguns camaradas nossos (o Xico Allen e o A. Marques Lopes) e onde o Hugo Costa, filho do Albano Costa, se integrou.

Fotos: © Hugo Costa (2006). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem: LG]


II (e última) parte da crónica do Abílio Machado


[foto atual à direita; Abílio Machado,  ex-alf mil, contabilidade e administração, CCS / BART 2917, Bambadinca, 1970/72; e também um dos fundadores do grupo musical Toque de Caixa; vive na Maia; publicou recentemente o Diário dos Caminhos de Santiago, Porto, 2013]


Porto-Dakar - Parte II

por Abílio Machado

[, integrado na 2ª edição do Dakar Desert Challenge: Coruche, Marrakech, Bissau, Dakar: 26 de dezembro de 2013- 9 de janeiro de 2014 ]


Um fim de dia global : na Mauritânia estamos, no Hotel Emira, camaronês, dormimos, no restaurante Huzur, turco, comemos. Bem. Na companhia do grupo espanhol. Boa.


Porto-Bissau, expedição. 10 de abril de 2006. Dia 6.
Rua de Nouakchott, capital da Mauritânia.
Foto: © Hugo Costa (2006)
Quarto triplo : 127 euros. A cotação está alta ou a oferta baixa e muita a procura…


Nouakchott [, a capital], uma cidade em terra batida, onde mal adivinhas um centro, se o há, um chafariz monumental, sem água, em cada multibanco um guarda, o Islão impera, homens de vestes islâmicas, as mulheres de cabeça coberta, algumas emburqadas.

Emborcar é coisa que não farás, se o não trazes, aqui não o compras, não há uma pinga de álcool à venda… Nem cães, não se vêem cães na Mauritânia…

Vê-los-ás de novo no Parque Nacional de Diawling, e verás tucanos, pegas, da azul e da negra, abutres, perdizes, javalis, esquilos, ginetos, e mais pelicanos e garças, uma explosão de vida selvagem, não, não é um safari, embora se veja por aqui muito bicho selvagem, o homem que é o pior de todos, e algumas mulheres…

Porto-Bissau, expedição. 12 de abril de 2006. Dia 8. 

 Viagem de Tambacunda (Senegal) até à Guiné-Bissau... 

Babuínos(ou macacos-cães). 
Foto: © Hugo Costa (2006)
Há algo de diferente hoje : o ar quente, há mais acácias, e mais verdes, ali um embondeiro, capim, enfim a savana… Entramos na África negra : mais escura a cor da pele, a roupa é um revoltear de cores vivas, há um aroma de luxúria, na mulher e na vegetação…

Senegal, cidade de Saint Louis, La langue de Barbarie : ao lusco-fusco, as ruas fervilham de agitação, uma correria de gente e carroças, jumentos amestrados transportam os donos a casa e aos negócios, fazem-se ofertas, vendem-se os últimos produtos…

O Senegal é um mercado só, tudo é uma venda e todos vendedores, até o que julgas ser um favor é um negócio e tem um preço, a polícia de trânsito é o exemplo, a extorsão pratica-se às claras, uma multa - não importa se legítima - é regateada como uma venda, 18.000 fr. cfas podem num ápice reduzir-se a 11.000, nunca mostres o dinheiro que tens, levam-to todo, tiram-to da mão, a venalidade e a corrupção começam de cima, quem os ensinou?...

Da África negra direi : a pobreza, a sobrevivência, as crianças “cadeau, cadeau”, o lixo plástico, os jumentos, os mercados, tangerinas, caju, telemóveis e acessórios, panos, água em sacos, gelo, bolos, doces fritos na hora, bolachas à unidade, melancias, feno, lenha, mancarra, carne, moscas e pau de Cabinda, não sei se me entendem… mas também das acácias vivas, das mangueiras, dos embondeiros, aquela flor do embondeiro lembrou-me a declinação latina “ rosa-rosae”, das palmeiras, dos rios, graves, pachorrentos, das árvores que não florescem como se a flor lhes exigisse demasiado esforço e energia.

Direi mais : dos jovens, deitados, apáticos, sem destino e sem futuro, a fome entristece, a pobreza enlouquece, do calção roto, do pé descalço, também do telemóvel, da parabólica à porta da cubata de adobe.

De súbito, nesta viagem, La Grande Mosquée de Thiamène…um marco nesta viagem, a ela acorrem muçulmanos de todo o Senegal.

Porto-Bissau, expedição. 13 de abril de 2006. Dia 9. 
  Guiné-Bissau: Quinhamel.Foto: © Hugo Costa (2006)
 

Guiné-Bissau

A passagem pela Guiné foi - não o escondo - um dos motivos maiores que me trouxeram a esta expedição. E a aventura, que sempre me estimula. A oportunidade de rever amigos e voltar a um território onde, por força da guerra, gastei dois anos da minha juventude, tornavam esta jornada mais que aliciante.

A entrada da fronteira fazia-se pelo leste da Guiné, a região a que pertence Bambadinca, o quartel onde cumpri o serviço militar. Aí tive as primeiras emoções, direi melhor, decepções.

Em Bafatá, a segunda cidade da Guiné, a degradação das antigas casas comerciais é escandalosa, é chocante ver algumas delas, hoje edifícios públicos, ao abandono, os funcionários à porta, desocupados.

Porto-Bissau, expedição. 16 de abril de 2006. Dia 12. 
Mansoa, ponte (portuguesa) sobre o rio
Foto: © Hugo Costa (2006)
Na avenida que conduz ao cais serpenteia-se por entre buracos. A alguns kms de Fá-Mandinga, onde Amílcar Cabral realizou as suas primeiras experiências de agronomia, Bafatá quis lembrá-lo e implantou um busto do libertador, olhando o Geba… Abandonado e sujo está o pai da Nação, os novos líderes esquecidos da sua herança.

No aeroporto que usei tantas vezes, a caminho ou no regresso de Bissau, já não aterram aviões, desde fins dos anos 90 é uma avenida urbanizada, com um hotel/discoteca, algumas tabancas e casas inacabadas.



Porto-Bissau, expedição. 18 de abril de 2006. Dia 14. 
Saltinho, a ponte (portuguesa) sobre o rio Corubal
ainda lá estava, rija, de pé.
Foto: © Hugo Costa (2006)
Manhã cedo, rumamos a Bambadinca, ao encontro das emoções. Revi amigos, abracei-os, o tempo não corrói a amizade, mas altera as feições, não os reconheceria ao fim de tantos anos. Na face de alguns, algumas, a miséria escreveu rugas e decrepitude, mulheres sós, mortos os maridos, lutam pela vida numa sociedade que lhes é madrasta; a outros, outras, a fome ou a doença derrotou-os.

O pequeno aeródromo que servia o quartel é hoje ocupado por um mercado - é assim em toda a Guiné- onde, como no país vizinho, tudo é vendável.


Porto-Bissau, expedição. 18 de abril de 2006. Dia 14. 

O mítico  rio Corubal,no Saltinho. Foto: © Hugo Costa (2006)
Do quartel - fui recebido pelo 2º Comandante, dois dos seus subordinados acompanharam-me numa visita às instalações - recuso falar : a degradação total, destruídos os bares, as messes, os quartos, só alguns gabinetes são usados.

De pé e a funcionar, a igreja e a escola missionária S. José : para os alunos, na pessoa do director e professores, deixamos o que levávamos de ajuda humanitária : óculos de sol, roupas, bolas, livros, cadernos, mochilas, canetas. A alegria das crianças guineenses, como em toda a África, é contagiante : nada têm, mas na face um sorriso cativante, sempre, que se transforma em dança, saltos, cabriolas à mais pequena dádiva, um pequeno saco de caramelos solta alegrias, às vezes lutas…

Bissau é a praça da Independência, o Hospital e a Assembleia Nacional Popular…tudo o resto é um cartão de visita calamitoso que o país apresenta ao visitante.

A avenida que conduz ao cais do Pidjiguiti, e as ruas adjacentes, estão tão esburacadas como a credibilidade interna e exterior dos seus lideres políticos.

O país é isto : uma jovem mãe, mulher apreciável, um Mercedes novo, vidros fumados, aguarda o abastecimento de combustível. Descasca uma laranja com os dentes, cospe a casca e depois as pevides, pela janela… Quando aproxima o carro da bomba de combustível, a sua educação mede-se pelos restos cuspidos da laranja, não pelo rasto dos pneus.

Porto-Bissau, expedição. 18 de abril de 2006. Dia 15. 
 Empada, escola Foto: © Hugo Costa (2006)
De resto, um país bloqueado, instituições paradas, projectos cancelados, ONG’s em fuga, bolanhas ao abandono, o gado mais nutrido que as pessoas, uma pequena lavra, por vezes…

E como tudo isto contrasta com o belo da natureza : mangueiras abrigam as povoações, mamoeiros, palmeiras, bagabagas, o tarrafo, os rios Geba, Mansoa e Cacheu espraiam e arrastam suas águas turvas rumo ao mar…

Mas há um aroma no ar, ou uma cor, a cor do dinheiro : chegada a expedição a Bissau, as propostas para compra dos jeeps são insistentes, qual o preço, quer vender?, a uma farmácia aonde vais em busca de álcool o dono da farmácia pergunta primeiro o preço do carro…

1 queca : 5.000 fr. cfas.

Apresento-vos a Gâmbia, mais que um país é um rio, do mesmo nome, à volta dele se faz a vida das suas gentes.

Transcrevo da Wikipédia : “…comerciantes árabes criaram uma rota comercial, que comercializou escravos, ouro e marfim. No século XV, os portugueses herdaram este comércio estabelecendo uma rota de comércio do Império MaliEm 1588, António, Prior do Crato, vendeu os direitos de exclusividade de comércio na região do rio Gâmbia aos ingleses, direitos … confirmados pela rainha Elizabeth I ”.

Um pouco de história, da nossa história não aborrece e ajuda a fazer, no ferry, a travessia do rio. A língua é a inglesa, encravada entre o português da Guiné-Bissau e o francês do Senegal, já o trânsito é continental, circula-se pela direita.

Vi um tractor na Gâmbia e um anão negro…

Transpostas as fronteiras, é a hora de uma breve comparação entre estes países. De colonizações diversas, o que se vê, o que ressalta do que ficou?

A herança francesa é visível no Senegal :

(i) identificação e organização das comunidades rurais,
(ii) poste de santé,
(iii) escolas,
(iv) universidade em Ziguinchor,
(v) mais limpeza e sanidade, algumas povoações esmeradas, mesquitas, sinalização e indicativos de velocidade…

A Gâmbia não esconde a colonização inglesa:

(i) estradas em bom estado,
(ii) sinalização e identificação das aldeias, há rails numa das estradas,
(iii) campos cultivados,
(iv) um dos ferries em bom estado e um cais novo em construção,
(v) ruas mais limpas, mercados mais cuidados, polícias, muitas mulheres polícias, todos bem fardados…

Da Guiné-Bissau, valha a verdade,

(i) as estradas do interior estão em bom estado,
(ii) pontes foram construídas sobre os rios,
(iii) os espaços Galp bem arranjados, mesmo se as bombas estão vazias…

Anda há quatro anos fugido à crise, não dorme em hotéis, toca viola, estuda temas da música fula e mandinga, vai de família em família, como as famílias se estendem por países, vai de país em país, fala francês, inglês, espanhol, vimo-lo, o grego errante, perdido, como Ulisses, quase um andrajo, magro, mochila vazia, contente de nada ter

Enfim, a chegada ao Lac Rose…e a estadia no Hotel Campement Lac Rose. O sol escondeu-se, não pudemos ver a reverberação rosa nas águas do lago…

O regresso, apressado ou económico, segundo as opiniões - em 5 dias fizemos o que na ida fizéramos em 14?? - foi feito sem incidentes de maior.

Ao contrário, alguns rallystas da African Race - passaram por nós a toda a brida, motos, buggies, camiões, no parque natural de Diawling - tiveram seus contratempos, rebocados alguns, a nossa Elisabete Jacinto dialogava com os colegas a melhor forma de socorrer um dos camiões, mais atascado que javali na lama.

Agora chama-se Sahara Desert Challenge e vai na 4ª edição...Inscrições ainda abertas!...  Arranca de Coruche no próximo dia 27 de dezembro... (LG)


Do regresso direi mais :

(i) do canto dos muezzins, às seis da manhã, em Nouakchott,
(ii) da raposa tresnoitada a caminho da toca,
(iii) dos ciclistas, sós, algures entre Nouadhibou e Nouakchott,
(iv) do almoço com Maité e Tomás no deserto mauritano, jamon, pão com tomate catalão, conservas, paio português,
(v) do cabo Boujdou (Bojador), “ quem passa além do Bojador, passa além da dor “ [, Fernando Pedssoa],
(vi) do azul do mar sarauhi,
(vii) da chuva, hélas, chuva no deserto, do vento quase um tornado, dos polícias ou soldados que em todas as povoações te obrigam a parar, o Sahara um país ocupado…

Direi dos kms do regresso :

1º dia : Dakar – Nouakchott : 600 Kms
2º dia : Nouakchott – Dakhla : 850 Kms
3º dia : Dakhla – Agadir : 1200 kms
4º dia : Agadir – Jerez de la Frontera 890 kms
5º dia : Jerez – Porto 900 kms

Quem vem e atravessa o rio… Ah, meu Porto sentido, lar, doce lar… Ah cama boa!!!

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Nota do editor:

Vd. poste anterior > 24 de novembro de 2015 > Guiné 63/74 - P15405: Expedição Porto-Dakar, integrada na 2ª edição do Dakar Desert Challenge: Coruche, Marrakech, Bissau, Dakar: 26 de dezembro de 2013- 9 de janeiro de 2014 (Abílio Machado, ex-alf mil, CCS/BART 2917, Bambadinca, 1970/72) - Parte I

Guiné 63/74 - P15412: Parabéns a você (992): Jorge Teixeira, ex-Fur Mil Art da CART 2412 (Guiné, 1968/70) e Manuel Lima Santos, ex-Fur Mil Inf da CCAÇ 3476 (Guiné, 1971/73)


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Nota do editor

Último poste da série de 24 de Novembro de 2015 Guiné 63/74 - P15403: Parabéns a você (991): Abel Santos, ex-Soldado At Art da CART 1742 (Guiné, 1967/69) e António (Tony) Levezinho, ex-Fur Mil Inf da CCAÇ 12 (Guiné, 1969/71)

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Guiné 63/74 - P15411: Memória dos lugares (323): Biambe em 1969, fotos de José Maria Claro, DFA, ex-Soldado Radiotelegrafista da CCAÇ 2464

 

1. Fotos enviadas ao Blogue pelo nosso camarada José Maria Claro, DFA, (ex-Soldado Radiotelegrafista de Engenharia da CCAÇ 2464/BCAÇ 2861, Biambe, 1969) referentes à sua curta estadia na Guiné. 
Lembremos que o José foi evacuado para a Metrópole por ter sido vitimado por uma mina antipessoal, que lhe causou a perda de um dos membros inferiores. Vd. última foto.



Biambe, 1969 - À entrada da Tabanca

Na fonte do Biambe

Biambe, 1969 - No campo de futebol

Biambe, 1969 - Com camaradas

Biambe, 1969 - Junto à pista dos aviões

Na parada do Biambe

 Biambe, 1969 - Com um camarada do rolo de peso


Biambe, 1969 - Com o Xico

Biambe, 1969 - Na bananeira

Biambe, 1969 - A ler a correspondência

Biambe, 1969 - Ao "telemóvel"

Biambe, 1969 - Na parada com o portátil

Parada do Biambe

No HMP de Lisboa (Claro, o segundo a partir da esquerda)
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Nota do editor

(*) Vd. poste de 11 de setembro de 2014 Guiné 63/74 - P13601: Tabanca Grande (444): José Maria Pinto Claro, DFA, ex-Soldado Radiotelegrafista de Eng.ª da CCAÇ 2464/BCAÇ 2861 (Biambe, 1969)

Último poste da série de 11 de outubro de 2015 Guiné 63/74 - P15233: Memória dos lugares (322): Porto Gole: mulheres balantas apanhando "cacri", na bolanha, junto ao rio Geba. O "cacri" (espécie de bocas) era, também para nós, um petisco saboroso que acompanhávamos com a célebre cerveja São Jorge (José António Viegas, ex-fur mil, Pel Caç Nat 54, 1966/68)