sexta-feira, 25 de maio de 2012

Guiné 63/74 - P9945: Notas de leitura (363): "A CCAÇ 2317 na Guerra da Guiné - Gandembel / Ponte Balana", por Idálio Reis (Belarmino Sardinha)

Monte Real, 21 de Abril de 2012 > VII Encontro da Tabanca Grande > Idálio Reis dedica mais um exemplar do seu livro, "A CCAÇ 2317 na Guerra da Guiné - Gandembel / Ponte Balana", a um dos camaradas presentes.
© Foto de Juvenal Amado


Em mensagem do dia 24 de Maio de 2012, o nosso camarada Belarmino Sardinha (foto à direita) (ex-1.º Cabo Radiotelegrafista STM, Mansoa, Bolama, Aldeia Formosa e Bissau, 1972/74), faz a sua apreciação ao livro "A CCAÇ 2317 na Guerra da Guiné - Gandembel / Ponte Balana", de autoria do nosso camarada Idálio Reis, ex-Alf Mil At Inf da CCAÇ 2317 / BCAÇ 2835, Gandembel e Ponte Balana, 1968/69.
Como é sabido, este livro, edição de autor, foi autografado e oferecido aos presentes no último Encontro da Tabanca Grande.


Não vou fazer nenhuma crítica, não sou especialista na área e hoje até começo a ter dúvidas se ainda sei alguma coisa e quando acho que sei, interrogo-me se me lembro…

Quando compro um livro sinto-me na obrigação de o ler, gastei dinheiro, é o mínimo que posso fazer, mas quando alguém se propõe oferecer-me um livro e eu, de pronto e voluntariamente, aguardo para o receber, tenho a obrigação não só de o ler como dizer ao seu autor o que achei…

No caso concreto do livro escrito pelo Idálio Reis, não só devo dar-lhe conhecimento a ele, mas torná-lo público, razão para escrever estas linhas que mais não são que a minha opinião pessoal, pese o que pesar, sobre o que retirei da sua escrita.

Começo por agradecer-lhe o gesto e mais ainda por me considerar seu amigo, espero estar à altura de tal distinção.

Há muito que estava à espera deste livro, fui-me apercebendo pelos escritos no Blogue Luís Graça… ou Tabanca Grande, como preferirem, que coisas interessantes estariam para ser reveladas, não me enganei.

Comecei por verificar não se tratar de um livro de um eu, mas de, um nós. Coisa estranha e diferente dos demais, a particularidade como tudo é relatado, um envolvimento coletivo onde todos foram importantes e onde todos, sem exceção, são referidos pelos seus nomes e assim ficarão lembrados/imortalizados.

A forma como nos introduz naquele espaço de nome Guiné e nos faz a abordagem do povo que ali habita e do circundante, possibilitando a qualquer pessoa, mesmo a quem nada sabia ou sabe sobre aquela gente, como funcionavam as coisas no período mencionado. A forma como estruturou a sua narrativa, diferenciando os diferentes períodos e movimentos de meios no terreno em cada data e situação.

Depois, no descrever propriamente dito dos acontecimentos, a lembrança de todos que nos deixaram, quer por efeitos diretos da guerra, quer por acidentes motivados por esta. A forma como enaltece e reconhece o apoio e o trabalho, além do esforço de todos aqueles que marcaram presença naquele espaço no tempo a que se refere.

A crítica de como eram tratados os militares enviados para aquela terra e como eram de certa forma abandonados, sem uma preparação e apoio devidos, ficando apenas sujeitos ao desenrasca ou ao bom senso de um qualquer superior melhor preparado intelectualmente e por quem eram assumidas as responsabilidades e consequências, morais e patrimoniais.

Chega ao fim do livro sem nunca falar no eu, sempre nós, os militares, despido de qualquer vaidade ou protagonismo que só os grandes homens conseguem ter.

Por tudo que me ofereceu esta leitura, através do livro que irá ajudar a preservar a memória sobre estes homens e sobre tudo que passaram, aqui deixo o meu agradecimento ao autor do livro, que faz o favor de ser meu amigo, só possível por nos termos encontrado neste espaço onde escrevo estas linhas.

O meu obrigado ao Idálio Reis e a todos que não deixam esquecer este período da nossa história vivida, ajudando, sempre, a lembrar os que perderam a vida.
Belarmino Sardinha

Gandembel - Aquartelamento construído de raiz pelos militares da CCAÇ 2317
© Foto de Idálio Reis
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Notas de CV:

(*) Vd. poste de 7 de Junho de 2011 > Guiné 63/74 - P8385: Parabéns a você (270): Agradecimento de Belarmino Sardinha, aniversariante no dia 5 de Junho

Vd. último poste da série de 25 de Maio de 2012 > Guiné 63/74 - P9944: Notas de leitura (362): "O Fardo do Homem Negro", de Basil Davidson (Mário Beja Santos)

6 comentários:

Luís Graça disse...

Belarmino: a gratidão é coisa rara na nossa terra. Em contrapartida, é esperado que os pobres, os humildes, os humilhados, os ofensidos sejam gratos... Quem dá aos pobres empresta a Deus. E Deus paga com dividendos... A gratidão dos pobres é bonita, mas são "peanuts". Pois, para mim, é um dos sentimentos mais nobres do ser humano, crente ou não crente. A gratidão para com os nossos pais. E para todos aqueles/as que nos ajudaram a ser o que somos. Incluindo os que escreveram livros, fizeram filmes, realizaram coisas, etc., que nos marcaram. A gratidão não é dos valores mais nobres e apreciados na nossa terra. Vivemos numa aldeia, onde somos todos vizinhos uns dos outros, nos espiamos/vigiamos uns aos outros. Este país não é um continente, é uma paróquia É tudo liliputiano. Somos invejosos. Não somos magnânimos. Não somos gratos. Não, não é inteiramente verdade: somos magnânimos e gratos para com os estrangeiros... e os 'estrangeirados' (Eusébio, Amália, Figo, Cristiano Ronaldo, Mourinho, António Damásio...).

Tudo isto, Belarmino, para te dizer quanto me orgulho de ter aqui, entre os atabancados do blogue... Tu és um grã-tabanqueiro de corpo e alma. O teu gesto é muito bonito e sensibilizou-me, como seguramente vai tocar o Idálio quando ele te ler, ler o teu poste ou o teu mail.

A grandeza do idálio merece a tua, a minha, a nossa gratidão. Tu fostes o primeiro, se não erro, a dar um passo em frente, na parada. e dizer,. em termos simples mas tocantes, aquilo que todos nós pensamos mas nem todos somos de dizer em voz alta... na parada do blogue:
- Obrigado, Idálio, por teres escrito, por nós, uma história que é a história de todos nós ou onde muitos de nós se reconhecem...

Belarmino, ficas desde já contratado para produzires mais "notas de leitura"... Afinal de contas, tu és um homem que estás habituado a falar, tu cá tu lá, com os "autores" (do livro à música)... E isso é um privilégio que podes de nós podem reivindicar...

Luís Graça disse...

....Eu queria dizer: "E isso é um privilégio que nem todos de nós podem reivindicar"...

Anónimo disse...

Caro Luis,

Serei despreocupado com coisas que considero superficiais, sem interesse, mas, não fico indiferente às críticas, sejam elas negativas ou positivas.

Agradeço as tuas palavras de apreço pelo que escrevi em relação ao livro do Idálio, considero ter procurado apenas transmitir-lhe uma pequena parte do reconhecimento que lhe é merecido por ter escrito e oferecido o seu trabalho.

Dizes e bem que estou habituado a falar com autores/criativos, é verdade, foi essa a minha profissão que abracei com agrado e da qual hoje me orgulho. Aprendi a saber calar-me ou a falar quando achava que devia, por certo nem sempre certo ou da forma correta, mas preferível a calar-me e falar apenas onde somos ouvidos por quem nos diz sempre sim.

Quanto ao escrever mais sobre outros temas ou livros, desculpa dizer-te não me sentir suficientemente preparado academicamente nem ser capaz de escrever sem sentir as palavras, daí a minha incapacidade para o fazer de forma generalizada. Veremos se sou capaz de transmitir tudo o que pretendo sem ferir ninguém.

Por profissão, convivi e respeitei/o sempre todos os autores, independentemente de gostar ou não das suas obras. Só o facto de conseguirem fazer aquilo que a ninguém lembrou ou, no caso objetivo de um livro, posso não lhe reconhecer qualidade, mas merece-me respeito, mais não seja pelo trabalho que deu ao escrever, não pela tentativa de protagonismo, mas pelo respeito ao trabalho, sempre.

Depois vem aquela coisa da qualidade, quais os padrões que definem, quem os estabelece ou estabeleceu, fora as regras, mas até essas são por vezes alteradas, veja-se o caso da escrita de José Saramago ou de João Alfacinha da Silva. Um escreveu com maiúscula a seguir a vírgula o outro escreveu um livro sem qualquer pontuação, regras gramaticais alteradas, escrita criativa reconhecida para os escritores…Há um mínimo, é verdade, haverá?

Já na oralidade, há professores de faculdade, na área do jornalismo, que defendem não interessar como se diz, interessa é que a mensagem passe… Em que mundo estamos e vivemos? Parece-me termos que compreender isso primeiro.

Temos depois as críticas literárias feitas no blogue pelo Mário Beja Santos, técnicas e aprofundadas, estruturadas e elaboradas em termos críticos de factos, sujeitas ao contraditório por opção política ou outras, que aprecio na generalidade, sem falar na quantidade de obras analisadas nem na facilidade com que são feitas, razão suficiente para não enveredar por aí.

Não me leves a mal não dizer que sim ao que me pedes, compreende antes a honestidade que quero ter para comigo e com os outros na procura de tornar maior, mas também cada vez melhor, o que considero ser um trabalho para aproveitamento futuro, falo, evidentemente, do blogue que criaste.

Um abraço
BS

Hélder Valério disse...

Caro amigo Belarmino Sardinha

Foi como muito prazer que li este teu artigo.
Foi também com grande anuência ao seu conteúdo que o saboreei.

E até comentei para mim mesmo duas coisas, que agora dou conta:

a primeira é que, através de ti, foi feita a justiça devida ao trabalho e ao gesto subsequente do Idálio, ao escrever aquele livro que, embora centrado naquela epopeia, permite a muitos de nós se reverem nele e facilita a ilustração do que foi o 'cerne' da 'guerra na Guiné' quando se tem que falar com quem não viveu a época e tem dificuldade em 'entrar' no ambiente;

a segunda é que me senti compensado pela minha 'preguiça' ao não tomar a iniciativa de eu próprio escrever a propósito e 'sentir' que não iria conseguir fazer melhor do que fizeste.

Como complemento, acho que o comentário do Luís Graça fez é, neste caso, a 'cereja no topo do bolo'.

Obrigado, meus amigos.
Hélder S.

Anónimo disse...

Caro Belarmino:
Fui um dos felizardos contemplados com a maravilhosa oferta do Idálio que por intermédio do Cancela recebi.Li-o em dois fôlegos e logo o passei ao meu irmão Neca. De seguida vou emprestá-lo a um combatente da companhia do Branquinho que também passou por Gandembel. O livro é dos melhores retratos sobre a guerra da Guiné que tive o prazer de ler. Nada de narcísico e despido de intenção doutrinária. Está lá a guerra com toda a sua crueza, desumanidade e irracionalidade.
Aproveito para agradecer ao Idálio a sua obra e a sua atitude antes de o fazer pessoalmente em momento oportuno.
Um grande abraço
Carvalho de Mampatá

Anónimo disse...

Meu Caro Belarmino,
Na passada 4ª.feira, quando regressei de curtas férias no Alentejo, trazia dois livros que não li, por me ter esquecido dos óculos. Um, era o do Idálio.
Quero agradecer-te este post, genuíno, delicado, sincero, e cheio de humanidade.
Espero lê-lo tão breve quanto possível.
Apreciei ainda uma frase na tua resposta ao Luís, que refere a tua necessidade de honestidade para contigo. Valente.
Agora, tenho que voltar a agradecer ao Idálio a obra que nos ofereceu, a narrativa de um homem simples, descomprometido, amigo dos amigos, como deixa transparecer dos curtos contactos que mantivémos.
Abraços fraternos
JD