domingo, 31 de outubro de 2010

Guiné 63/74 - P7200: O Soldado Africano Esquecido / Forgotten African Soldier (2): Joaquim Mexia Alves, ex-Alf Mil Op Esp do Pel Caç 52 e da CCAÇ 15 (1971/73)

1. Mensagem do nosso camarigo Joaquim Mexia Alves (, foto à esquerda, algures na Guiné, entre 1971 e 1973:


Data: 19 de Outubro de 2010 09:18
Assunto: Pesquisa Académica sobre Soldados Africanos


Meus caros camadas editores:


Reencaminho mail que recebi do Senhor Jochen Steffen Arndt, pedindo-me ajuda para um trabalho que descreve no seu mail e aqui me escuso de repetir.


Julgo que poderá ser divulgado na Tabanca Grande onde há camaradas que, por muito mais dedicados aos números e estatísticas do que eu, poderão dar uma mais concreta ajuda a este trabalho, caso, meus camaradas editores,  achem que o devemos fazer.


Com um abraço amigo do
Joaquim Mexia Alves

2. Resposta do Joaquim Mexias Alves ao investigadorJochen S. Arndt:


Exmo. Senhor Jochen Steffen Arndt:

Agradeço o seu mail e desde já me disponibilizo para o ajudar no seu trabalho, em tudo aquilo que eu possa saber sobre o assunto.

Com efeito comandei o Pel Caç Nat 52, de soldados guineneses de diversas etnias, e depois comandei durante uns tempos a CCaç 15 que era formada por guinenenses da etnia Balanta.
De qualquer modo e como penso ser do seu interesse e do interesse do seu trabalho, vou dar conhecimento desta troca de mails entre nós aos editores do blogue onde estão reunidos diversos combatentes da Guiné, http://blogueforanadaevaotres.blogspot.com/, e onde há camaradas meus que o poderão ajudar bem melhor do que eu, pois têm acesso mais fácil aos números estatisticos que refere e deseja conhecer.

Fico obviamente à sua disposição.
Com os melhores cumprimentos
Joaquim Mexia Alves

3. Mensagem, de 18 do corrente, de Jochen S. AArndt, enviada ao nosso camarada Joaquim: [com correcções do português, introduzidas por L.G.]




Exmo. Senhor Joaquim Mexia Alves,


Meu nome é Jochen Steffen Arndt. Sou [assistente de investigação] e estudante no programa de doutoramento da Universidade de Illinois em Chicago, EUA. Encontrei recentemente o seu site na internet e seu artigo publicado no journal Correio da Manhã no dia 10 de Julho 2010. Este artigo foi de grande interese para mim por que trata também de soldados africanos que [fizeram] parte das forças portuguesas no ultramar. Mais especificamente foi de grande interese para mim porque estou realizando um projeto de pesquisa académica sobre soldados e [milícias] africanos que serviram com as forças portuguesas na África entre 1961 e 1974.


As questões que norteiam meu projeto são (...) (vd. poste P7192) (*).


Dado este contexto, e como o Senhor Alves serviu juntamente com tropas africanas no Pel Caç Nat 52, perto de Bambadinca, eu gostava de perguntar se estaria disposto a participar neste projecto, partilhando [comigo] as suas experiências, memórias e, talvez, seus contactos.


Por enquanto eu estabeleci contactos através do site ultramar.terraweb, com alguns veteranos europeus e africanos. Seria de grande interesse o Senhor Alves [poder] juntar-se a este projecto.

Agradeço-lhe sinceramente por [me dispensar] o seu tempo. Por favor, não hesite em contactar-me com quaisquer perguntas.


Atentamente,


Jochen S. Arndt
PhD Student
Department of History (MC 198)
913 University Hall 601 South Morgan Street
University of Illinois at Chicago
Chicago, IL 60607-7109

3. Comentário de L.G.:

Eu já dei o meu acordo de princípio em relação à colaboração dos membros do nosso blogue, a título individual,  com este investigador e com este projecto. Fazendo eu próprio parte da comunidade científico, e sendo oriundo das ciências sociais e humanas, tenho a obrigação de contribuir, também eu, para o desenvolvimento de domínios científicos como a história, e em particular, a história contemporânea (portuguesa, europeia, africana...). 

Infelizmente não tenho actualmente quaisquer  contactos pessoais com os antigos soldados guineenses que integraram a CCAÇ 12 (da qual fiz parte, entre Maio de 1969 e Março de 1971). Não me correspondo com nenhum deles nem sei onde vivem, com uma única excepção. No entanto, os seus nomes estão publicados no nosso blogue.

As informações que publicamos no nosso blogue são públicas. Naturalmente que os nossos textos e imagens estão sujeitos a direitos de autor. Mas podem ser citados em trabalhos de investigação científica ou outros propósitos desde que estes não sejam comerciais. Pedimos apenas que nos dêem conhecimento desse uso.

A colaboração com este investigador e com este projecto é, em princípipio, feita a título individual, e tem um propósito académico. O nosso blogue (que abriu uma nova série, O Soldado Africano Esquecido / Forgotten African Soldier, inspirado no título da página do Jochen, ForgottenAfricanSoldiers.Orgmas que já tinha e tem a série Os Nossos Camaradas Guineenses, entre outras), o nosso blogue - dizia -  gostaria de poder acompanhar os progressos feitos pelo autor e sobretudo aproveitar o ensejo para expor e discutir a actual situação dos antigos militares, do recrutamento local, que integraram as Forças Armadas Portuguesas no CTIG. Na realidade, não se trata do Soldado Africano Desconhecido (que também o houve, na Guiné) mas de um Soldado Africano Esquecido.

Por outro lado, gostaríamos de ver acautelados, acima de tudo, os interesses e os direitos dos nossos antigos camaradas guineenses que venham a aceitar ser entrevistados no âmbito deste projecto de doutoramento. Esses interesses devem ser devidamente protegidos. Nomeadamente achamos que a sua identidade e local de residência (dentro e fora da Guiné-Bissau)  não devem ser revelados, de modo a proteger a sua identidade e segurança. Muitos deles já sofreram demais, foram perseguidos, discriminados, presos e até mortos.


A mediação da nossa Liga de Combatentes também pode ser útil. No entanto, é bom não esquecer que há um contencioso com o Estado Português (por causa de reparações e pensões) que poderá dificultar e até inviabilizar os contactos com os nossos antigos camaradas guineenses. Não me parece, por outro lado, que esteja muito activa a AMFAP - Associação dos Ex-Militares das Forças Armadas Portuguesas, da Guiné-Bissau. Não conheço os seus dirigentes nem sequer os seus estatutos... 



No que diz respeito ao Jochen Steffen Arndt, sabemos que é alemão, ou de origem alemã, que é ainda jovem, que teve um avô no exército alemã, na frente russa, e que trabalhou em Portugal, mais exactamente em Vila Nova de Gaia, durante sete anos, pelo que fala e escreve (presumo) o português (, para além do inglês e do africânder, as três línguas que ele usa no sítio do projecto). Gosta de francesinhas, diz-nos o Paulo Salgado, e tem boas recordações do nosso país. Não sabemos as razões, pessoais ou outras,  por que decidiu entretanto continuar os seus estudos e doutorar-se em história numa universidade americana. Essas razões poderá ele ter a gentileza de nos dizer, se for caso disso. 



Fica aqui também o convite para ele integrar a nossa Tabanca Grande (e mandar-nos uma foto sua), à semelhança do que fizemos com a Tina Kramer, também alemã, doutoranda em etnologia, e que entende o português, coisa que não acontece com outro doutorando, que apoiámos, o Ten Cor da Força Aérea dos Estados Unidos,  Matt Hurle.


_____________


Notas de L.G.: 

(*) Vd. poste de 30 de Outubro de 2010 > Guiné 63/74 - P7192: O Mundo é Pequeno e o Nosso Blogue... é Grande (30): Forgoten African Soldier / O Soldado Africano Esquecido (Jochen Steffen Arndt, Universidade de Illinois em Chicago)

5 comentários:

Jochen Arndt disse...

Caros Membros do Blogue,

Concordo plenamente. Os interesses e a seguranca dos ex-combatentes tem de ser protegidos. Tive consciencia disto desde a primeira hora. Eu acho que é possivel para os soldados que o desejam de ficar anonímos. Não se trata de
uma solução optima do ponto de vista acadêmico. Mas tendo em conta a situação no terreno é preciso manter esta opção em aberto.
Cumprimentos,
Jochen Arndt

Jochen Arndt disse...

Caros Administradores e Participantes do Blogue,

Pensando melhor, acho que vale a pena de dar mais detalhos sobre o meu projecto embora ainda se encontra numa fase inicial.

I.
Em primeiro lugar, gostaria de agredecer aos administratdores do blogue de ter publicado o meu pedido. Acho que este blogue e outros deram aos ex-combatentes um meio fantastico de ficar em contacto com camaradas com os quais passaram momentos importantes e formativos das suas vidas. Para os historiadores como eu os blogues também são importantes porque permitem abrir vias de comunicação com pessoas que podem fornecer informações que só eles podem fornecer porque estiveram lá na altura e viram as coisas com seus próprios olhos. Neste contexto, também gostaria de aproveitar esta oportunidade e agredecer àquelas pessoas que tomaram o tempo de responder ao meu pedido. Eu estou consciente do facto que sem a colaboração deles e de outros ex-combatentes este projecto não vai ter pernas para andar.

Jochen Arndt disse...

II.
No entanto as dificuldades são muitas e talvez são impossíveis de superar. Mas não quero disistir já porque acho que sem a perspectiva dos soldados de origem africano que combateram lado ao lado com soldoados de origem europeu a historiografia da guerra do ultramar vai ficar incompleta. Embora estou apenas no ínicio da pesquisa e tenho mais pergunats do que respostas, eu acho que a perspective dos soldados de origem africano e fundamental para comprender melhor o carácter do colonialismo português, a dinâmica da guerra do ultramar, e os problemas pós-coloniais que afectam a Guiné-Bissau. Uma coisa que é certo em meu ver é que “rótulos” como "colaborador, traidor, ou reacionários" obscuram muito mais do que revelam e fazem pouco para ajudar aos ex-combatentes (soldados africanos e guerrilheiros africanos) para verem uns aos outros como simples seres humanos.

Jochen Arndt disse...

III.
Gostaria também aproveitar esta oportunidade para explicar melhor um dos objectivos do estudo. O meu objectivo não é de julgar o propósito da guerra, de investigar uma campagna ou uma operação. Para mim um objectivo importante é de comprender melhor como o que as vezes é chamado “a africanização” da guerra do ultramar afectou os soldados portugueses (de origem africano) e os soldados portugueses (de origem europeu). Admito que eu gostaria dar mais atenção ao lado dos soldados de origem africano porque penso, como tenho dito em cima, que a historiografia da guerra do ultramar não deu a eles a atenção que merecem. Também acho que é muito importante de perceber melhor porque os soldados de origem africano lutaram para Portugal enquanto outros tomaram o lado dos movimentos anti-coloniais. Acho que as respostas podem complicar o nosso entendimento do colonialismo e do nationalismo anti-colonial em Africa.
Para atingir estes dois objectivos, acho que não seja necessariamente preciso de falar com os ex-combatentes africanos sobre coisas delicadas que aconteceram durante a guerra. Mas será preciso de tentar reconstruir a formação das suas identidades como “africanos” e como “portuguêses.” Neste contexto será preciso falar com eles sobre muitos factores que moldaram as suas identidades. Estes factores podem estar relacionados com a guerra mas podem estar relacionados com muitos outros factores (educação, religião, etnia, etc.). No entanto admito que penso que a experiência de guerra molda a identidade de qualquer pessoa. Por isso seria também importante de falar com eles sobre esta experiência. Mas isto não tem de significar que detalhos delicados têm de ser revelados. Para mim seria mais interessante de saber como soldados de origem europeu e de origem africano se relacionaram durante a guerra e como ambas as partes
experimentaram este relacionamento. Neste contexto a experiencia do combate é importante, mas também as festas festejados juntos, as cervejas bebidas juntos, os jogos de futebol jugados juntos, as prendas dadas, as conversas, as brincadeiras, os convívios (etc.). O facto que os ex-combatentes europeus e africanos as vezes ainda têm laços de amizade mostra, em meu ver, que estas experiencias tiveram algo em especiale que contribuio para um entendimento especiale entre europeus e africanos.

Jochen Arndt disse...

IV.
Penso que entrevistas com ex-combatentes em Portugal e na Guiné-Bissau são fundamental para comprender melhor estes aspectos. O problema da língua vai ser significativo. Mas gostaria de salientar que é habitual de contratar intérpretes para entrevistas deste tipo. Os historiadores que pesquisaram o contributo de soldados africanos para a primeira e a segunda guerra mundial utlizaram intérpretes (Joe Lunn, Memoirs of the Maelstrom: A Senegalese Oral History of the First World War; Gregory Mann, Native Sons: West African Veterans and France in the Twentieth Century; Nancy Ellen Lawler, Soldiers of Misfortune: Ivoirien Tirailleurs in World War Two).
O problema da segurança dos ex-combatentes é um problema que me preoccupou desde do ínicio do projecto. Eu acho que é possivel para os ex-combatentes que o desejam de ficar anonímos. Não se trata de uma solução optima do ponto de vista acadêmico. Mas tendo em conta a situação no terreno é preciso manter esta opção em aberto.
Finalemente gostaria aproveitar esta oportunidade para explicar melhor quem eu sou. Sou alemão. Vivi durante sete anos em Vila Nova de Gaia trabalhando para uma empresa alemã na Senhora da Hora, Matosinhos. É por isso que, como o Paulo disse, tenho saudades das francesinhas. Depois foi para os EUA para estudar. Sou casado com a minha esposa Sheri desde 2004.

Agradeço mais uma vez aos administradores e participantes do blogue para esta oportunidade de falar sobre este projecto. Se o projecto merece a sua ajuda, por favor não hesite de contactar-me com quaisquer perguntas.

Muitos cumprimentos,
Jochen Arndt