sábado, 10 de outubro de 2009

Guiné 63/74 – P5087: Estórias do Mário Pinto (Mário Gualter Rodrigues Pinto) (24): A camaradagem em tempo de guerra


1. O nosso Camarada Mário Gualter Rodrigues Pinto, ex-Fur Mil At Art da CART 2519 - "Os morcegos de Mampatá" (Buba, Aldeia Formosa e Mampatá - 1969/71), enviou-nos a sua 24ª estória:

Camaradas,

Do meu baú de memórias lá retirei mais um texto, que com uns retoques consegui, creio eu, actualizá-lo, deixando-o à vossa consideração como uma Homenagem minha, pessoal, à nossa camaradagem de ex-Combatentes.

A CAMARADAGEM EM TEMPO DE GUERRA

A camaradagem na minha Companhia não foi diferente das outras. Formaram-se entre nós laços de amizade para o resto das nossas vidas, as más e as boas horas que nós passámos juntos, teriam que ter uma repercussão de irmandade e amizade para todo o sempre.

A recruta é apontada, por muitos, como a época mais difícil da vida militar. As novas rotinas militares e o rigor castrense traziam alterações profundas aos nossos hábitos, dificultam-nos a adaptação à nova vida como soldados.
Mancebos de todas as Províncias deste nosso país, chegavam aos quartéis com sacos às costas, onde levavam apenas utilidades essenciais ao uso rotineiro do dia-a-dia. Mostravam as suas guias e convocatórias, e iniciam a assim a incorporação.

A primeira semana era a pior de todas (digo eu). Tínhamos que nos habituar a tudo o que era novidade para nós. Os horários a cumprir, o uso do uniforme, as botas em vez de sapatos, novos Camaradas e Amigos, muitas bolhas nos pés, pernas cansadas de marchar e correr… enfim tudo era diferente.

Para recrutas com 20 anos, vindos a maior parte dos meios rurais e do operariado fabril, a grande maioria “sacados” às escolas, aos amigos e às namoradas, estas bruscas mudanças de “modo de viver”, eram, para muitos, cruéis e desumanas.

Valia-lhes o “desenrascanço” e a entreajuda dos seus novos Camaradas (que horas jamais haviam visto nas suas vidas), para superarem as suas ignorâncias, insuficiências e incapacidades.

Era nesta ajuda mútua que se iniciava a camaradagem militar, e se vincavam os laços de amizade que ficaram para a eternidade.

A disciplina militar que lhes era imposta pelos seus superiores, mais os conseguia unir e tornarem-se num espírito de corpo único, que, ainda hoje, é a maior virtude do Exército.

Acabadas as recrutas, juravam bandeira, e, seguiam para outras unidades especializando-se em várias “artes” castrenses, acabando, salvo raras excepções, em Unidades de Mobilização, onde lhe traçavam novos destinos para África, em rendições individuais, ou em formações de Pelotões, Companhias e Batalhões, e… Guerra do Ultramar.

Sempre conhecendo novos Camaradas e Superiores Hierárquicos, que com eles constituíam a sua “família” militar. Aprendiam a conviver e a depender exclusivamente deles próprios e do grupo (os seus Camaradas da Unidade), e a sobreviver, combater, rir, chorar, sofrer, dividir, comer, etc., em grupos de acção colectiva.

Quantas vezes, não estiveram os seus Camaradas, ali ao seu lado, para os confortar de desgostos, ferimentos, desânimos, cansaços, etc., sofrendo com eles os seus azares e infortúnios.

Marchavam para a guerra, imberbes e inexperientes, com uma única certeza, os seus Camaradas e Irmãos-de-Armas, eram a única “ilha” de salvação psíquica naquele “mar imenso e agitado de tempestades” traumáticas que lhes eram proporcionadas na Guiné.

Conheceram de perto as agruras da guerra, a sede, o suor, a lama, o pó, os estropiados, os feridos, a morte... Tudo isto viram, sentiram e sofreram.

Mas a camaradagem, essa ficou. Continua hoje imaculada nas suas mentes, sabendo que é graças a ela, com parte da sua sanidade e equilíbrio mental, vão sobrevivendo nesta outra “guerra”, não menos dura, que “eles” (aqueles que nós bem sabemos infelizmente), não compreendem, nem querem compreender, por total desinteresse pessoal, as suas razões.

As comissões eram cumpridas e compridas, mas eles mesmo assim conseguiram superá-las e regressar, não todos infelizmente, mas todos os que sobreviveram mantêm-se solidários e amigos, como nunca deixaram de o ser.

Ainda hoje essas manifestações de amizade se mantêm, entre os ex-Combatentes, comprovadamente pelos sucessivos momentos das inúmeras confraternizações e encontros, que são levadas a efeito pelo país fora, todos os anos.

Amizade e camaradagem não são palavras ocas, são também o espelho dos sentimentos de solidariedade e de lealdade que dedicamos ao próximo, resultantes da experiência da dobragem de vários conjuntos de dificuldades, que ultrapassamos em comum e nos permite actualmente comungarmos deste sentimento.

Passados mais de 40 anos deste conflito comum eis o que aprendemos:

O tempo passa,
A vida acontece,
A distância separa,
As crianças crescem,
Os empregos vão e vêem,
O amor fica mais frouxo,
As pessoas não fazem o que deveriam fazer,
O coração desgasta-se,
Os Pais morrem,
Os colegas de trabalho nos esquecem,
As carreiras terminam.

Mas, os verdadeiros amigos e Camaradas... estão aqui, não importa quanto tempo e quantos quilómetros nos separam… estão aqui… todos, ou quase, todos os dias.

Um Camarada nunca está mais distante do que ao alcance de uma… necessidade, torcendo por nós, intervindo em nosso favor, e esperando de braços abertos, abençoando a vida.

Nós sentimos e sabemos o que é precisarmos uns dos outros.

Um abraço,
Mário Pinto
Fur Mil At Art

Legendas das fotos:
1 - J. Alberto - A banda de Mampatá
2 - O "comando" da CART 2519
3 - Camaradas até ao fim
4 - Até que a morte nos separe

Fotos: Mário Pinto (2009). Direitos reservados.
Emblema de colecção: Carlos Coutinho (2009). Direitos reservados.
____________
Nota de M.R.:

Vd. último poste desta série em:

1 comentário:

Hélder Valério disse...

Caro Mário Pinto

Um bom "retrato" do que foi o percurso de muitos de nós.
É bem verdade que tudo o que passámos nos fez crescer muito mais rapidamente do que hoje, por exemplo, conforme se pode constactar pelo comportamento da juventude, em geral, que "amadurece" muito mais tarde.
E também é bem verdade que foi nessa época que se criaram os fortes laços de solidaridade que nos unem, muitas vezes sem que tivéssemos dado conta.
Vai escrevendo.
Um abraço
Hélder S.