sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Guiné 63/74 - P3495: Memórias de um comandante de pelotão de caçadores nativos (Paulo Santiago) (18): Vem nos manuais de sobrevivência, está lá tudo..

Retirada? É por escalões...


Paulo Santiago

ex-Alf Mil, Pel Caç Nat 53
Saltinho 1970/72



entre o Quirafo e Corubal, zona do Cantoro, onde se notam áreas sem mata.

Lá pelos idos de Março de 71, houve um, mais um, patrulhamento para as bandas do Cantoro, a quem já chamei rio, mas o rio, melhor linha de água, chamava-se Quebeiel, correcção que faço após conversa, em Março/08, com o ex-IN, comandante Paulo Malú.

Cantoro era a zona de mata, pouco densa, que se estendia praticamente desde o Quirafo até à foz do Quebeiel no Corubal.
Voltando ao patrulhamento. Dois grupos de combate, o Pel Caç Nat 53, comandado por mim, e o 1ºgrupo da CCaç 2701, comandado pelo Fur Mil Josué, na ausência do Alf Mil Julião.
Saímos do Saltinho às 04h00, direcção a Madina Buco, donde tinha saído o pelotão, lá destacado, a picar a estrada até ao Quirafo. Antes de continuar, devo dizer que as saídas do Saltinho, nestas ocasiões, em que metia distribuição de ração de combate, gerava uma tremenda confusão entre os militares do 53, onde a maioria muçulmana procurava quem trocasse os enlatados com carne de porco pelos de carne de vaca. Acabava por haver solução.

Chegados ao Quirafo, vá de apear e seguir a butes até ao Corubal. Com mata pouco densa, grandes extensões sem vegetação, época seca, o calor, a sufocar, era um suplício, sendo que o dito rio Cantoro/Quebeiel só próximo da foz, nesta altura do ano, apresentava umas poças de água com bicharada minúscula, mas à falta de outra também esta se bebia. Dormimos uma noite por aquelas bandas tendo regressado ao Saltinho pela hora do almoço. Estava lá o Major Sousa Teles, 2ºcomandante do batalhão de Galomaro, bom homem, mas que daquela guerra não percebia puto, que pergunta ao Josué, que vinha com cara de chateado, pudera, como tinha corrido o patrulhamento.
- Oh meu Major, um gajo passa muita sede para aquelas bandas. O Cantoro só tem umas poças de água que não dão para encher dois cantis e daqui a três meses aquilo é um mar de água onde ninguém passa.
Resposta do Major Teles:
- Josué tem de ler os manuais de sobrevivência, vem lá tudo explicado, a seca do rio é aparente você cava meio metro, encontra água e até...peixes. E continua com a lição:
- Quanto à passagem, quando existe muita água também há solução: levam uma corda aí com uns 100 metros, um militar que saiba nadar agarra numa ponta e vai amarrá-la a uma árvore na outra banda, depois passam todos com uma mão na corda.
Já se encontravam, nesta fase, mais militares a assistir a esta lição e o Alf Mil Oliveira diz:
- Meu Major, passaram todos para o lado de lá do Cantoro, encontram um bi-grupo do IN, são forçados a retirar, como fazer essa retirada?
- Oh Oliveira, essa pergunta não tem cabimento. Retirada? É por escalões...vem nos livros.

P.S.: Conheci dois Sousa Teles, irmãos, ambos Majores, um era este de Galomaro, de Infantaria, o outro conheci-o em Bambadinca, de Artilharia, 2ºcomandante do batalhão do Mexia Alves.
Com este, artilheiro, tive pouco contacto, mas o bastante para perceber que eram diferentes.

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Notas: Artigos da série em

9 de Setembro de 2008 > Guiné 63/74 - P3189: Memórias de um comandante de pelotão de caçadores nativos (Paulo Santiago) (17): Instrutor de milícias em Bambadinca (Out 1971).

1 comentário:

Anónimo disse...

lol, gostei.
A Guiné sabe melhor quando se contam estas histórias.
Venham mais, para chorar não contem comigo.
Parabéns Jorge Félix