domingo, 23 de março de 2008

Guiné 63/74 - P2678: Simpósio Internacional de Guileje: Comunicação de Coutinho e Lima (2): A dolorosa decisão da retirada de Guileje









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Vídeo (1' 29''), fotos e legendas: ©
Luís Graça (2008). Direitos reservados. Vídeo alojados em: You Tube >Nhabijoes

Guiné-Bissau > Bissau > Hotel Palace > Simpósio Internacional de Guileje (1 a 7 de Março de 2008) Continuação da comunicação do Cor Art Coutinho e Lima sobre a sua decisão de retirar Guileje, em 22 de Maio de 1973 (1):


5. Situação encontrada em GUILEJE

Após 3 dias e 2 noites de ausência, quando cheguei a GUILEJE, pelas 18.00 horas de 21 MAI, a situação que encontrei foi a seguinte:

- destruição total do Centro de Comunicações, incluindo todas as antenas, o que impedia o estabelecimento de ligação rádio com qualquer entidade;

- na flagelação dessa tarde , as NT tinham tido um morto (Furriel); o graduado fora atingido por uma granada, dentro de um abrigo de fraca protecção;

- tinham sido atingidos, em consequência das várias flagelações:

. dois depósitos de géneros;
. depósito de artigos de cantina;
. cozinha;
. forno da cozinha;
. celeiros de arroz da população (ainda estavam a arder);
. grande parte das casas da população;
. vários abrigos, parcialmente danificados;
. vários impactos nas valas;
. variadíssimos rebentamentos (talvez centenas) dentro do aquartelamento;

- falta de água potável, por não ter sido feito o respectivo reabastecimento; refere-se que a água era recolhida junto ao Rio AFIÁ, através do qual se fez a evacuação, em 19 de manhã, das baixas da emboscada do dia anterior; o último reabastecimento foi feito precisamente neste dia, após o embarque das baixas;

- escassez de munições de Artilharia e de Armas Pesadas;

- escassez de medicamentos;

- presença do IN nas proximidades do quartel, seguramente do lado de MEJO; alguns elementos da população que tentaram ir recolher água à bolanha, a cerca de 500 metros nessa direcção, tinham sido flagelados na tarde do dia 21 e imediatamente recolhidos pelas NT, que foram em seu socorro;

- desde o início das flagelações, toda a população (umas centenas de pessoas), recolheram às casernas abrigo das NT, aumentando cerca de 3 vezes a sua lotação; a estadia dentro dos abrigos era praticamente insuportável; além do imenso calor, o cheiro era nauseabundo, também porque as crianças acabavam por fazer as suas necessidades fisiológicas no interior dos mesmos;

- nas últimas flagelações, tinha-se verificado a “presença” de uma nova arma do PAIGC; os rebentamentos demoravam cerca de 3/4 segundos, após a audição do disparo;

- verificaram-se vários rebentamentos no ar e também havia algumas granadas perfurantes, tendo sido, eventualmente, uma destas que provocou o morto às NT:

- desde o dia 19 MAI, deixou de ser confeccionado o rancho, em virtude das flagelações e das destruições provocadas na cozinha; todo o pessoal passou a alimentar-se de ração de combate;

- todo o pessoal estava arrasadíssimo, quer física quer psicologicamente, pois as flagelações tinham começado na noite de 18/19 e continuado durante todo o período;

- a população estava preocupadíssima, principalmente pela forte pressão do IN, mas também devido ao desaparecimento do milícia ALIU BARI, verificado em 10 MAI que, poderia ter dado informações muito importantes ao IN, não só relativamente às NT, como também aos hábitos da população, incluindo a localização dos campos de cultivo;

- garantia da não evacuação dos feridos, se os houvesse; de facto, a evacuação dos feridos da emboscada de 18 MAI, não fora feita de GUILEJE, contrariamente ao que o Sr. Comandante-Chefe dissera na sua visita de 11 MAI; a possível evacuação por barco, à semelhança da que fora feita em 19 MAI não mais era exequível, não só devido à presença do 3º CE do PAIGC na mata de MEJO, como devido à falta de barcos, pois que os utilizados em 19 MAI não regressaram a GUILEJE.

6. Factores considerados para tomar a decisão de efectuar a retirada

Imediatamente após ter chegado a GUILEJE e depois de uma breve inspecção ao aquartelamento, fiz uma reunião informal com o Sr. Comandante da CCAV 8350 (que me substituíra na minha ausência) e outros Oficiais; o Sr. Capitão QUINTAS relatou-me, resumidamente, o que se havia passado desde a minha saída na manhã do dia 19 MAI.
No fim deste relato, tive uns minutos de reflexão, considerando os seguintes factores, tendo em vista uma tomada de decisão:

(1). Forte pressão do Inimigo

O aquartelamento de GUILEJE, no período de 182000 MAI73 a 220400 MAI 73 (80 horas) sofreu 37 flagelações, com um total estimado de 795 rebentamentos; esta estimativa foi feita empiricamente e dava uma ideia, porventura calculada por defeito, do volume do fogo inimigo.

Esta acção em força do PAIGC sobre GUILEJE foi planeada pormenorizadamente e com muita antecedência, de acordo com as informações que o Comando-Chefe difundira oportunamente; a fase de execução iniciou-se em 180700 MAI 73, com a emboscada no cruzamento de GUILEJE, já referida atrás.

Com a presença do 3º CE do PAIGC nas matas de MEJO, cuja actuação se verificara na tarde do dia 21 MAI, sobre a população quando esta procedia à recolha de água, o cerco do IN apertava-se; tudo indicava que a sua pressão fosse cada vez mais intensa, com frequentes flagelações diurnas e nocturnas.

(2). Não atribuição de reforços

Desde o início dos acontecimentos (emboscada de 18 MAI), tive a premonição de que se tratava de uma situação muito grave, tanto mais que as informações que do Comando-Chefe nos chegavam, indiciavam que esta acção em força ia acontecer.

E não sabia eu, nessa altura, o que estava a suceder em GUIDAGE (na fronteira Norte com o SENEGAL), desde o dia 8 MAI; à semelhança do que ocorrera em GUILEJE, a acção do IN foi iniciada com uma emboscada a uma coluna de reabastecimento, que também não se realizou, seguida de fortes e intensas flagelações ao quartel de GUIDAGE.

Só posteriormente vim a ter conhecimento que, em 19 MAI, grande parte das reservas do Comando-Chefe estavam hipotecadas no reforço a GUIDAGE, nomeadamente o Batalhão de Comandos Africanos que, nesse mesmo dia, efectuou a Operação AMETISTA REAL, sobre a base inimiga de CUMBAMORI.

O Sr. Comandante-Chefe entendeu não me atribuir o reforço que eu solicitara (uma companhia de tropa especial) e, sem qualquer justificação, comunicou-me esta sua decisão, ordenando-me que devia regressar na manhã do dia 21 MAI a GUILEJE e que ia nomear o Sr. Coronel Paraquedista RAFAEL DURÃO para assumir o Comando do COP 5, passando eu para 2º Comandante.

Nestas condições, foi para mim muito claro que, nos tempos mais próximos, não chegariam quaisquer reforços a GUILEJE.

(3). Defesa da população

Na MISSÃO atribuída ao COP 5, pode ler-se:

“(5) Assegura a defesa eficiente dos aglomerados operacionais ocupados pelas NT e o socorro em tempo oportuno dos reordenamentos da sua ZA.”

Nas circunstâncias concretas existentes em 21 MAI 73, não estava em condições de garantir a defesa eficiente da população de GUILEJE.

Sendo certo que a existência da população civil era um factor importante para que GUILEJE estivesse ocupado militarmente, não é menos certo que nas condições vividas nessa altura, a presença dessa população era um elemento que condicionava a acção das NT.

(4). Não evacuação de feridos

Face à não evacuação das baixas resultantes da emboscada de 18 MAI, fiquei ciente que nenhuma evacuação seria feita, pela Força Aérea, a partir de GUILEJE; até então, estava seguro que, em situação de emergência como esta, seriam satisfeitos os pedidos de evacuação de feridos graves, de acordo com o que o Sr. Comandante-Chefe afirmara na sua última visita de 11 MAI; recordo que a mensagem recebida em 27 ABR, já referida atrás, determinava que as evacuações por helicóptero eram condicionadas ao estudo prévio da Força Aérea, o que significava que seriam consideradas.

Ora, verificou-se que, por falta de evacuação, um Cabo da Companhia de GUILEJE, gravemente ferido na emboscada, acabou por falecer cerca de 4 horas após ter sido ferido; este facto teve um forte impacto negativo no moral das NT e da população.

Este aspecto da não satisfação dos pedidos de evacuação era da maior gravidade e, nestas circunstâncias, formulo a seguinte pergunta: com que autoridade se podia mandar sair a tropa, com fortíssima probabilidade de haver contacto com o IN, tendo a certeza que os feridos, se os houvesse, não seriam evacuados?

A evacuação, via fluvial, já não era possível, além do mais por falta de barcos para esse efeito.

(5). Falta de água no aquartelamento

O abastecimento de água era feito a cerca de 4 kms na direcção de MEJO; o último fora realizado na manhã de 19 MAI e não mais foi feita nenhuma tentativa, devido à presença muito provável do IN na área e igualmente ao facto da não evacuação das previsíveis baixas, se as houvesse, o que poderia acontecer, com alto grau de probabilidade.

É do conhecimento geral que se pode viver durante algum tempo sem comida (esta estava assegurada pelas rações de combate), mas sem água, o tempo de sobrevivência é reduzido.

(6). Escassez de munições, especialmente de Artilharia

Por não ter sido possível realizar a coluna de reabastecimento do dia 18 MAI, só podíamos contar com as munições existentes em GUILEJE.

Desde o início das flagelações, a reacção pelo fogo foi feita com um consumo parcimonioso de munições, especialmente no que respeita a Morteiros e Artilharia, em virtude de o nível das mesmas não ser elevado.

Passados 3 dias após a minha chegada inicial a GUILEJE, que se tinha verificado em 22 JAN 73, fiz uma proposta de substituição das Peças de 11,4 cm (o material de Artilharia presente) por Obuses de 14 cm, porque tinha conhecimento que a reserva de munições das primeiras era pequena. Nesta proposta, sugeria que, se houvesse ainda munições de 11,4 em GUILEJE, as Peças lá continuassem mesmo depois de substituídas pelos Obuses de 14 cm, só recolhendo a BISSAU no final da época das chuvas, quando se reiniciassem as colunas, que naquela época não era possível realizar.

Esta minha proposta demorou bastante tempo a ser aprovada, de modo que, em 18 MAI estavam em GUILEJE 2 Obuses (o terceiro ainda se encontrava em GADAMAEL) e já tinham recolhido as 3 Peças, contrariamente ao que tinha sido proposto, pois que estas saíram de GUILEJE antes de se completar a substituição proposta. Acrescenta-se que igualmente parte das munições de 14 cm ainda se encontravam em GADAMAEL, à espera de transporte para o seu destino.

Em 18 MAI, estavam em GUILEJE apenas 2 Obuses de 14 cm (um chegara avariado); o tiro deste material não foi regulado, por falta de meio aéreo para esse efeito; nestas condições, a eficácia do apoio de Artilharia não era muito grande, enquanto que o tiro das Peças de 11,4 estava perfeitamente ajustado, o que tinha sido feito por observação aérea, antes das restrições do Apoio Aéreo, impostas pelo aparecimento dos mísseis terra-ar inimigos.

(7). Destruição do Centro de Comunicações

A destruição do Centro de Comunicações, que ocorrera na tarde de 21 MAI, por acção da flagelação inimiga, deixou GUILEJE impossibilitado de estabelecer ligação rádio com qualquer entidade.

Nestas condições, a única maneira de contacto com o exterior era através de aviões que sobrevoassem a região; foi por isso que foi pedido à patrulha de FIAT G 91, que nessa tarde de 21 MAI fez o apoio de fogo, o envio de um avião durante a noite, para servir de elemento de ligação, face à destruição do Centro de Comunicações; o Comandante da patrulha informou que iria ser feito o que fosse possível.

(8). Novo Comandante do COP 5

A única medida que o Sr. Comandante-Chefe tomou (desconheço se foram tomadas outras), para resolver a situação de GUILEJE, foi a nomeação do Sr. Coronel Paraquedista RAFAEL DURÃO novo Comandante do COP 5, passando eu para 2º Comandante; esta nomeação, que me foi comunicada na reunião de 20 MAI em BISSAU, significava uma falta de confiança na minha acção de Comando. Não fui informado acerca da data em que o Sr. Coronel DURÃO chegaria a GUILEJE (este estava a comandar o CAOP 1, com sede em MANSOA).

A nomeação do novo Comandante, em minha opinião, não resolveria a situação, porque:

. não viria acompanhado de reforços; era minha convicção que estes ser-lhe-iam atribuídos, mas demorariam vários dias a chegar a GUILEJE;
. não solucionaria a falta de água;
. não estava em condições de fazer chegar a GUILEJE, em tempo oportuno, as munições de Artilharia e outros materiais críticos;
. não garantiria as evacuações, a partir de GUILEJE.

(9). Existência de um morto

Infelizmente as NT tinham um morto, provocado pela flagelação da tarde de 21 MAI.
Poderá perguntar-se, legitimamente, como é que tantas e tão intensas flagelações e com muitos rebentamentos dentro do quartel, só provocaram um morto. Isto aconteceu porque os abrigos existentes eram de betão armado e supostamente à prova de Morteiro 120, o que não foi comprovado porque não se verificou nenhum impacto directo.

Pode parecer estranho que um dos factores a considerar para tomar a minha decisão tenha sido a existência de um morto; de facto, se houvesse uns três ou quatro feridos, quer militares, quer civis, isso obrigaria a permanecer em GUIEJE, por impossibilidade de os transportar em coluna apeada.

(10). Efeito de surpresa

A coluna apeada, que na tarde de 21 MAI me escoltou de GADAMAEL para GUILEJE, não teve nenhum incidente; como não tinha sido detectada pelo IN (e a chegada ocorreu no final do dia), este durante a noite não tinha possibilidade de verificar o movimento no trilho utilizado, sendo muito provável que, se a possível retirada se realizasse na manhã do dia seguinte, constituísse uma verdadeira surpresa.

(11). Previsão dos acontecimentos, a curto prazo

Ao nomear o Sr. Coronel DURÃO para novo Comandante do COP 5, era minha convicção que o Sr. Comandante-Chefe lhe iria atribuir os reforços que ele solicitasse. Só que esses reforços, após a sua atribuição, demorariam vários dias a chegar a GUILEJE.

A pressão do IN não abrandaria, pelo contrário, era altamente provável que se intensificaria; poderia haver, com fortes probabilidades, mais mortos e feridos e um previsível assalto pelo IN, bem como a tomada de prisioneiros pelo PAIGC, incluindo elementos da população, se isso fosse do seu interesse.

Em função de todos os factores indicados e face às condições descritas, relativamente à situação específica em GUILEJE, só considerei duas modalidades de acção:

. permanecer em GUILEJE, esperando a chegada do novo Comandante, com todas as consequências daí resultantes;
. retirar na manhã seguinte, aproveitando o efeito de surpresa; adiar, nem que fosse por um dia, poderia inviabilizar a operação.

Depois de pesar os prós e os contras das duas possíveis soluções, optei pela segunda:

RETIRAR, DO AQUARTELAMENTO DE GUILEJE, NA MANHÃ DO DIA SEGUINTE – 22 MAI – TODA A POPULAÇÃO, BEM COMO OS MILITARES E MILÍCIA, ATRAVÈS DO TRILHO GUILEJE – GADAMAEL, EM COLUNA APEADA.

Tomada a decisão, elaborei uma mensagem a comunicá-la ao Comando-Chefe, na esperança de que fosse possível, embora com dificuldade, transmiti-la durante a noite, o que não foi conseguido.

Comunicada esta decisão aos Oficiais presentes na reunião informal, com a qual todos concordaram, dei ordens para serem executadas destruições e inutilizações do material que não podia ser transportado, no sentido de impedir a sua utilização pelo IN.

As destruições que mandei fazer foram: minas, material cripto (incluindo as máquinas de cifra), toda a documentação (classificada e não classificada), que foi destruída pelo fogo e material de transmissões.

Mandei inutilizar ou tornar inoperacionais: os 2 Obuses de 14 cm, as viaturas e o armamento pesado: Metralhadoras e Morteiros.

Dadas as circunstâncias e atendendo a que o IN, nessa noite de 21/22 MAI, flagelou o aquartelamento 3 vezes (20.25 /22.00 horas - cerca de 30 impactos; 01.05/03.00 horas - cerca de 40 impactos e 04.00/05.00 horas – cerca de 60 impactos), as destruições e inutilizações não puderam ser feitas com a profundidade e extensão que o seriam, se as condições fossem outras.

Durante a noite foi intensificada a acção da Artilharia, em resposta às flagelações, gastando todas as munições completas existentes, antes de tornar inoperacionais os 2 Obuses e também com a intenção de mostrar ao IN que continuávamos com boa capacidade de reacção.

Mandei, igualmente, informar a população, através do Régulo em exercício, da partida nas primeiras horas do dia seguinte, informando que sairíamos em coluna apeada.

7. Execução da retirada

A Operação de retirada foi organizada da seguinte maneira: em primeiro escalão, saiu o Sr. Comandante da CCAÇ 4743 (GADAMAEL) com os seus dois grupos de combate, seguidos de parte da população; em segundo escalão, o Sr. Comandante da CCAV 8350 (GUILEJE), com a sua Companhia, milícia e restante população; em último lugar, o pessoal militar sobrante, incluindo os elementos do Comando do COP 5, tendo sido eu o último a sair do quartel.

A retirada iniciou-se cerca das 05.30 horas, tendo-se verificado a chegada a GADAMAEL por volta do meio-dia; não houve qualquer contacto com o IN.

O efeito de surpresa foi total; tendo-se efectuado a retirada na manhã do dia 22 MAI, o PAIGC só entrou em GUILEJE em 25 MAI, isto é, 3 dias depois; durante o período 22/25 MAI continuou a bombardear a posição que tinha sido ocupada pelas NT.
A chegada a GADAMAEL, sem qualquer incidente, foi um sucesso, comprovando que a decisão que tomei, ao meu nível de Comando, foi adequada à situação.


8. Consequências da retirada


Quando a coluna chegou a GADAMAEL, já lá se encontrava o Sr. Coronel Paraquedista RAFAEL DURÃO, o novo Comandante designado pelo Sr. Comandante-Chefe, a quem comuniquei o que se tinha passado; o novo Comandante mandou formar as tropas recém-chegadas de GUILEJE, proferiu algumas palavras que não recordo, referindo que os militares não tinham culpa do que acontecera, atribuindo-me, implicitamente, a responsabilidade da decisão, o que correspondia inteiramente à verdade.

O Sr. Coronel DURÃO enviou então uma mensagem para o Comando-Chefe, que terminava assim:

“…QUANDO CHEGADA GADAMAEL PORTO FACE DESTRUIÇÕES HAVIDAS VERIFICO SER IMPOSSÍVEL REOCUPAÇÃO TEMPOS MAIS PRÓXIMOS. AGUARDO INSTRUÇÕES”.

Passado pouco tempo, enviou nova mensagem, do seguinte teor:

“…SUGIRO DESTRUIÇÃO COMPLEMENTAR GUILEJE POR MEIOS AÉREOS”

A resposta a esta última mensagem foi:

“REF…SEXA JULGA PREMATURO BOMBARDEAMENTO GUILEJE. COAT EXECUTA BOMBARDEAMENTO AREA CIRCUNDANTE. INFORME CAOP 3 COR FERREIRA DURÃO”.
O não bombardeamento de GUILEJE permitiu que o PAIGC fizesse uma grande propaganda, relativamente aos materiais apreendidos, amplamente difundida, com manifesto exagero.
O PAIGC, contrariamente à decisão do Sr. Comandante-Chefe, achou por bem continuar as flagelações, o que fez até ao dia 25 MAI.

Não consegui obter elementos sobre os bombardeamentos efectuados pela Força Aérea, na área circundante de GUILEJE, no período de 22/25 MAI.

Após ter tomado conhecimento da retirada de GUILEJE, o Sr. Comandante-Chefe, enviou, em 221800 MAI, a seguinte mensagem, para GADAMAEL:

“…INFORME CMDT CAOP 3 COR PARA FERREIRA DURÃO QUE SEXA GENERAL COMANDANTE-CHEFE DETERMINOU SEJA RETIRADO IMEDIATIAMENTE DO COMANDO COP 5 MAJ ART ALEXANDRE DA COSTA COUTINHO E LIMA E MANDADO APRESENTAR QG/CCFAG PARA EFEITO AUTO CORPO DELITO”.

Em 24 MAI, foi recebida em GADAMAEL nova mensagem:

“SEXA GENERAL DETERMINA RETIRADO COMANDO MAJOR COUTINHO E LIMA…DEVENDO SEGUIR VIA CACINE EM SINTEX. TARDE DE 25 MAI NÃO DEVE JÁ ESTAR GADAMAEL”

Parti de CACINE, a bordo de um navio da Armada em 26 MAI, pelas 06.00 horas, tendo chegado a BISSAU no dia seguinte; apresentei-me no QG/CCFAG, tendo-me sido comunicado que passava à situação de prisão preventiva, à guarda da Companhia de Polícia Militar, sedeada no forte da Amura, onde também se encontrava instalado o Comando-Chefe; recebi ordem expressa de que não podia estabelecer contacto com as Repartições do Comando-Chefe.

Em 22 MAI 73, o Sr. Comandante-Chefe emitiu o seguinte despacho:

“Considerando que o Comandante do COP 5, Major de Artilharia, ALEXANDRE DA COSTA COUTINHO E LIMA:
- Ordenou a retirada das forças sob o seu comando do quartel de Guileje para Gadamael, sem que para isso estivesse autorizado;
- Mandou destruir edifícios e inutilizar obras de defesa do referido quartel, bem como material de guerra e munições;
- Não cumpriu a missão que lhe foi atribuída;

Determino, que o Exmº. Brigadeiro MANUEL LEITÃO PEREIRA MARQUES proceda a auto corpo de delito contra o mencionado oficial e, atendendo à gravidade e natureza dos delitos, o arguido seja desde já recluso em prisão fechada.”


Comecei a ser ouvido pelo Sr. Brigadeiro LEITÃO MARQUES em 28 MAI 73; o processo ficou concluído em 10 ABR 74 e constou de 4 volumes, com o total de 903 folhas. Foi transferido do Tribunal Militar Territorial da Guiné para o 1º Tribunal Militar de Lisboa (1º TMTL), onde se processaria o julgamento.

A pena prevista para os crimes supostamente cometidos e de que fui acusado, era de 6 meses a 4 anos de presídio militar.

O processo foi amnistiado pelo Decreto-Lei nº 194/74 da Junta de Salvação Nacional e, por decisão unânime dos Juízes do mesmo 1º TMTL, ARQUIVADO, em 17 MAI 73.

A minha carreira militar prosseguiu, aparentemente sem ter sido prejudicada.
No livro que estou a escrever, abordarei todos os assuntos relativos à minha 3ª Comissão na Guiné, com destaque para “A retirada de GUILEDJE”, que será o próprio título desse livro e uma análise do processo que me foi instaurado.

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Nota de L.G.:

(1) Vd. poste de 23 de Março de 2008 > Guiné 63/74 - P2677: Simpósio Internacional de Guileje: Comunicação de Coutinho e Lima (1): Comandante do COP 5, com 3 comissões no CTIG

1 comentário:

Anónimo disse...

Não tenho elementos para rebater a justeza desta tomada de decisão, outros os têm, mas até pelo que aqui está escrito, não concordo com ela e com o panegírico que dela se faz.
Tenho lido, esta é a minha opinião, alguns dos últimos textos colocados aqui na Tabanca Grande, com algum desconforto, algum desagrado.
Assisto, volto a repetir que é a minha opinião, a um “endeusamento” do PAIGC e a um “apoucamento” das Forças Armadas Portuguesas, mitigado pela concessão de algumas benesses, como que a “apaziguar” vozes discordantes.
A reconciliação, que eu quero, desejo e abraço, faz-se pelo respeito mútuo e não pela tentativa de “engrandecer” um e “diminuir” o outro.
Se reconheço com toda a facilidade a superior organização do PAIGC, (sobretudo em comparação com Angola e Moçambique), bem como a sua bem delineada e executada diplomacia e propaganda no estrangeiro, cheia de sucesso, e sobretudo a tenacidade, heroicidade, sacrifício dos seus combatentes, personificados nessa figura que é Nino Vieira, o agora tão atacado Presidente da Guiné, (o que faz a politica?!), não deixo de reconhecer a tenacidade, heroicidade, espírito de sacrifício, do português anónimo lançado numa guerra longe da sua casa, da sua terra, em condições tão adversas como um clima insuportável e uma estratégia que envolvia o enquadramento de populações e ocupação de espaço, contra uma guerra de guerrilha que se baseia no atacar e fugir.
Já o disse uma vez e volto a repetir:
A frase: “a guerra da Guiné estava perdida”, é apenas, no meu entender uma frase, que nem por ser muitas vezes repetida se torna verdade.
Foi usada por todos com diferentes finalidades:
O PAIGC muito bem na sua propaganda no estrangeiro
Os altos comandos tentando obter mais homens e meios e também numa visão mais longínqua querendo levar a uma mudança de política em Portugal.
O PAIGC, muito bem, fez um esforço de guerra em dois ou três pontos bem escolhidos do território e conseguiu algum ascendente que soube muito explorar, mas a verdade é que no resto do território, sobretudo no chamado Leste a guerra era muito esporádica e a estrada vital Xime/Nova Lamego fazia-se sem qualquer problema, por exemplo.
A política fez a guerra, a política acabou a guerra, e esta é a verdade!
Volto a repetir que a política é uma coisa e a guerra outra, embora estejam umbilicalmente ligadas.
Sou contra a guerra, contra esta guerra, contra todas as guerras, que não haja dúvidas, mas os homens com quem combati, portugueses e guineenses, de um e do outro lado merecem o respeito devido à sua memória.
Não podemos querer que um abandono de uma posição, Guiledge, se transforme na vitória de uma guerra, como nunca transformaríamos a destruição de tantas bases do PAIGC ao longo da guerra, numa outra vitória.
Se alguma coisa me faz dizer que não perdi dois anos da minha vida numa guerra, foi o facto de ter conhecido um povo e um país que amo, a Guiné, e de ter tido o privilégio de ter combatido com homens portugueses e guineenses que deram o melhor de si, se excederam em generosidade e entrega e merecem portanto todo o meu respeito, por isso, com frontalidade, mas muita amizade, escrevo o que agora escrevi.
Enquanto não formos capazes de deixar de lado a política, o “politicamente correcto”, e nos abraçarmos olhos nos olhos, com o respeito mútuo de quem reconhece que ganhámos todos e ninguém perdeu, a não ser aqueles que por lá ficaram e a quem presto a minha homenagem, poderemos descansar os nossos corações e as nossas vidas, pacificando o passado e abraçando o futuro.
Com um abraço amigo do
joaquim mexia alves