quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Guiné 61/74 - P17785: Historiografia da presença portuguesa em África (92): quando a Guiné do tempo de Sarmento Rodrigues tinha uma "boa imprensa": Norberto Lopes, o grande repórter da "terra ardente"



Um dos muitos anúncios de casas comerciais que existiam na Guiné em 1956. A empresa  Aly Souleiman & Companhia, com sede em Bissau, tinha filiais em diversos  pontos do território da Guiné, de norte a sul, incluindo Bafatá e Gadamael.

"Aly Souleiman  (apelido grafado à francesa...),  e não "Ali Suleimane" (à portuguesa) era um  próspero comerciante sírio-libanês, já citado pelo repórter Norberto Lopes em 1947 aquando da sua visita a Bafatá...

O acrónimo da empresa era ASCO, tal como o seu endereço telegráfico (*)... Algumas das mais importantes empresas estrangeiras, e nomeadamente as de origem francesas, com negócios no Senegal e na Guiné portuguesa, usavam acrónimos ou siglas: NOSOCO, SCOA, CFAO...

Está, definitivamente, explicado o  mistério do acrónimo ASCO que aparece num edifício de Gadamael, e sobre o qual gastámos alguns bons KB...


Foto: © Màrio Vasconcelos (2015). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Guiné > Região de Tombali > Gadamael > CART 2410 (1968/69) > Messe e quarto de sargentos... Foi também, até ao início da guerra o edifício da filial local da empresa ASCO - Aly Souleiman & Conpanhia... O durante muito tempo o enigmático acrónimo (ou sigla)  A.S.C.O. ainda já estava nessa época. (e ainda hoje lá está) , ao cima da parede lateral direita (*).

Foto (legenda): © Luís Guerreiro (2010). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. Norberto Lopes (Vimioso, 1900-Linda A Velha, Oeiras, 1989) foi um notável jornalista e escritor, tendo estado entre outros ao serviço do "Diário de Lisboa", onde foi chefe de redação, desde 1921, cronista e grande repórter, além de diretor (entre 1956 e 1967). Saiu do "Diário de Lisboa" para cofundar em 1967 o vespertino "A Capital" (que dirigiu até 1970, ano em que se jubilou).

Mestre do jornalismo na época da censura, transmontano de
alma e coração,. sempre se bateu pela liberdade de expressão, que considerou a maior conquista do 25 de Abril. Entre a suas obras publicadadas, destaque-se:"Visado pela Censura: A Imprensa, Figuras, Evocações da Ditadura à Democracia "(1975). Aprendeu a lidar com a censura e os censores e a escrever nas entrelinhas.

Em sua honra e memória, foi criado pela Casa de Imprena o Prémio Norberto Lopes de Reportagem de Imprensa. Claro, conciso, preciso. objetivo e imparcial... são alguns dos atributos da sua escrita e do seu estilo como repórter da imprensa escrita, um dos maiores do nosso séc. XX português. Foi. além disso, um grande amigo da Guiné e dos guineenses. Tal como nós, também ele bebeu a água do Geba...

Já aqui publicámos uma nota de leitura sobre o seu livro "Terra Ardente -Narrativas da Guiné". (Lisboa, Editora Marítimo-Colonial, 1947, 148 pp. + fotos) (**).

Sobre o livro, o nosso crítico literário Beja Santos escreveu o seguinte:

"(...) Visitou a Guiné, como jornalista por ocasião das celebrações do 5.º centenário do seu descobrimento. Do que viu e sentiu publicou uma série de artigos e depois enfeixou-os sob o título de Terra Ardente. É uma prosa afogueada, sem fazer tagatés aos poderes do dia mas sem esconder a profunda admiração pelo trabalho do seu amigo Comandante Sarmento Rodrigues. 

(...) Convém recordar que Norberto Lopes tinha da Guiné um termo de comparação, visitara-a cerca de 20 anos antes. Agora, mostra o seu entusiasmo (...)' É incontestável que a Guiné está no limiar de uma era nova. Quem tenha percorrido, como eu, o interior da colónia e admirado alguns dos aspectos mais salientes do progresso realizado nos últimos tempos, não pode deixar de reconhecer que está a escrever na Guiné uma página nova e brilhante em matéria de administração colonial'. (...)


Enfim, diz Beja Santos, "há momentos em que o jornalista sem contenção mostra-se lavrante da prosa, aprimora o que em princípio é o espartilho do espaço da reportagem" (...)

Pois está  na altura de dar a conhecer,  um pouco mais, o trabalho de Norberto Lopes, sobre a Guiné ao tempo do governador geral Sarmento Rodrigues (***). O livro, "Terra Ardente", não é de fácil acesso,  para a generalidade dos nossos leitores, mas em contrapartida as suas reportagens publicadas do "Diário de Lisboa" podem ser lidas no portal Casa Comum, da Fundação Mário Soares.


2. Recuperámos e publicamos com a devida vénia, a narrativa nº 8, relativa à viagem Bolama-Bafatá... A reportagem foi originalmente publicada no "Diário de Lisboa",  em 25/2/1947.

Síntese:

(i) Norberto Lopes deixa Bolama, agora decadente, que ele conhecera, há anos atrás, ainda com o estatatuto de capital da Guiné, sob o governo de Velez Caroço, personagem que admira;

(ii) segue, cambando o Rio Grande, para São João e Fulacunda;

(iii) a decadência dos biafadas leva-o a refletir sobre o risco de crescente "islamização" dos povos da Guiné e a necessidade de apostar forte numa política de integração dos povos ribeirinhos, animistas (balantas, felupes, papéis, bijagós...);

(iv) dali segue para Buba, Xitole e Bambadinca, atravessando o rio Corubal de canoa, dado o colapso de um setor da ponte  General Carmona, logo depois da sua inauguração (1937);

(v) fala dos problemas de comunicação no território, de difícil resolução, o que é ilustrado com uma incrível foto de uma "ponte de estacaria" na estrada Gabu-Pirada (e não Tirada, evidente gralha tipográfica);

(vi) do outro lado do rio Corubal está uma carrinha "Austin" que o levará a Bambadinca e Bafatá, passando pelo Xitole, sendo esta  região descrita como uma das mais férteis e prósperas da Guiné;

(vii) Bambadinca é referida como uma "florescente povoação" e "importante centro comercial" mas é Bafatá que lhe enche os olhos;

(viii) aqui produzia-se na altura cerca de 14 mil toneladas de mancarra por ano, metade do total da produção da colónia;

(ix) vila desde 1918, Bafatá destronara a  histórica vila de Geba, tornando-se o segundo maior centro populacional e o maior entreposto comercial do território;

(x) são citadas duas grandes casas comerciais, que florescem na capital da mancarra;  a Aly Souleimane & Companhia, de origem sírio-libanesa (***), e a Barbosa & Comandita, de origem cabo-verdiana.

A descrição da vila de Bafatá e dos seus progressos termina com a seguinte nota de belo recorte literário:

“À noite acende-se a luz eléctrica. Já corre a água nos marcos fontenários. Trilam ralos. Coaxam sapos. Chiam morcegos. Silvos agudos anunciam a proximidade do mato, porque, em qualquer povoação da Guiné em que se estejam, a selva nunca está distante e faz sempre valer os seus direitos milenários”.

Como diríamos hoje,  a Guiné do tempo de Sarmento Rodrigues  (****) também teve a sorte de ter uma "boa imprensa"... Muito melhor, de resto,  da que tem hoje, infelizmente,  a Guiné-Bissau. (LG)
.





















Recorte do "Diário de Lisboa" (diretor: Joaquim Manso), nº 8708, ano 26, terça feira, 25 de fevereiro de 1947, pp. 1 e 3 .


Cortesia de portal Casa Comum > Fundação Mário Soares > Arquivos > Diário de Lisboa / Ruella Ramos > Pasta: 05780.044.11059

Citação:

Citação:(1947), "Diário de Lisboa", nº 8708, Ano 26, Terça, 25 de Fevereiro de 1947, CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_22398 (2017-9-20)


[Seleção, montagem dos recortes, edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
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(***) Vd. poste de 19 de março de 2017 > Guiné 61/74 - P17155: Historiografia da presença portuguesa em África (72): Subsecretário de Estado das Colónias em visita triunfal à Guiné, de 27/1 a 24/2/1947 - Parte I: A consagração do governador geral, o comandante Sarmento Rodrigues, como homem reformador e empreendedor (Reportagem de Norberto Lopes, "Diário de Lisboa", 27/1/1947)

(****) Último poste da série > 20 de setembro de  2017 > Guiné 61/74 - P17782: Historiografia da presença portuguesa em África (91): 1ª Exposição Colonial Portuguesa, Porto, 1934: parte do seu sucesso foi devido à Rosinha Balanta, 'exposta ao vivo', e ao seu fotógrafo, o portuense Domingos Alvão (1872-1946)

Guiné 61/74 - P17784: As memórias revividas com a visita à Guiné-Bissau, que efectuei entre os dias 30 de Março e 7 de Abril de 2017 (2): 2.º Dia, a cidade de Bissau (António Acílio Azevedo, ex-Cap Mil)


1. Continuação da publicação das "Memórias Revividas" com a recente visita do nosso camarada António Acílio Azevedo (ex-Cap Mil, CMDT da 1.ª CCAV/BCAV 8320/72, Bula e da CCAÇ 17, Binar, 1973/74) à Guiné-Bissau, trabalho que relata os momentos mais importantes dessa jornada de saudade àquele país irmão.


AS DESLOCAÇÕES PELO INTERIOR DA GUINÉ-BISSAU

 2º DIA: 31 DE MARÇO DE 2017 – A CIDADE DE BISSAU

Conforme tinha sido préviamente planeado, destinámos o primeiro dia a revisitar a cidade de Bissau que, alguns tal como eu não conheciam desde o ano de 1974.
A primeira impressão foi favorável ao percorrermos de jeep, os cerca de oito quilómetros, que separam a zona do Aeroporto do centro de Bissau, numa ampla via rodoviária com duas vias, cada das quais tem três faixas de rodagem em cada sentido, ou duas nalguns locais mais estreitos, com o pavimento devidamente asfaltado, artéria esta que não existia naquele ano já longínquo de 1974.

Com grande movimento rodoviário, esta longa artéria atravessa zonas onde se localizam alguns hotéis, o edifício da Assembleia Nacional Popular, designado como Palácio Colinas de Boé e também o grande e muito frequentado Mercado de Bandim, que embora já existisse nos anos setenta, se estendia noutra via, quase paralela a esta avenida, mas para poente.
Esta larga avenida termina na antiga Rotunda da antiga Praça do Império, local onde se ergue o também antigo Palácio do Governador da então nossa Província da Guiné, mas actualmente depois de recuperado foi transformado no Palácio da Presidência da República da Guiné-Bissau, coexistindo na mesma praça outras edificações ainda da era colonial.


Bissau: Avenida com duas vias e nalguns locais com três faixas de rodagem cada e que liga o Aeroporto à antiga Praça do Império, no centro da cidade. Nesta avenida e a cerca de um quilómetro do Aeroporto, situa-se o Aparthotel Machado, onde pernoitávamos, tomávamos o pequena almoço e jantávamos 


Bissau (Guiné-Bissau): Mercado de Bandim, marginando a avenida que do Aeroporto nos leva à antiga Praça do Império, no centro de Bissau. Tem cerca de 1 quilómetro de extensão, sendo impressionante a quantidade de pessoas que a frequentam, uns como vendedores e a maioria de potenciais compradores

Descemos dos jeeps na antiga Praça do Império e decidimos ir tomar café e comer uma nata, no renovado Café Império, que já existia nos anos 70 do século passado, no mesmo local, ainda que com outra configuração, instalado num edifício que faz esquina com a avenida que conduz ao Cais do Pidjiquiti, no Rio Geba, que agora se chama Avenida Amílcar Cabral.

Alguns elementos do grupo (Moutinho e Leite Rodrigues) dirigiram-se entretanto de jeep, ao edifício da Alfândega de Bissau a fim de aí tentarem desbloquear um contentor de 40 pés, que com material escolar oferecido pelo Lions da Lusofonia de Matosinhos, de que o Leite Rodrigues é membro, se destina às escolas da Guiné-Bissau, mas que, por razões burocráticas, ali se encontra cativo desde Novembro de 2016, por falta de pagamento de taxas de armazenagem! “Burocratices”, por toda a parte…

Procurando ocupar o tempo disponível, o restante pessoal resolveu descer a pé a avenida até à zona do cais, apreciando o pouco que resta das antigas e bonitas casas, a maioria delas do tempo colonial, que alindavam essa mesma avenida, mas a decepção depressa se apoderou de nós, face ao aspecto de degradação e ruína da maioria deles, situação agravada pelo péssimo piso dessa mesma artéria e das artérias que para ela convergem.
Completando este desagradável cenário, chocou-nos o péssimo estado em que se encontra toda a marginal do Cais de Bissau, junto ao Rio Geba, antigamente bem calcetada em cubos de granito e agora transformado em autêntica picada, cheia de lixo e muito pó.

Aproximando-se a hora do almoço, decidimos telefonar ao Moutinho, dizendo-lhe que íamos avançando para o Restaurante Porto, situado próximo da Sé de Bissau e não muito longe do edifício da Alfândega de Bissau, ficando aí a aguardar a chegada dele e do Leite Rodrigues.


Bissau: Breve paragem para tomarmos um café no Café Império, localizado na esquina da antiga Praça do Império, com a avenida que conduz ao Cais do Pidjiquiti. Na imagem: Azevedo, Cancela, Rebola e o nosso motorista Jorge

A Guiné-Bissau, que se localiza na costa ocidental do Continente Africano, faz fronteira a norte com a República de Senegal, a nascente e a sul com o da Guiné-Conakry e a poente com o Oceano Atlântico, ocupando uma superfície com 36.125 quilómetros quadrados e possuindo uma população que ronda 1.600.000 habitantes.
A história da cidade de Bissau, que actualmente conta com uma população de cerca de 400.000 habitantes, localiza-se na margem direita do estuário do Rio Geba, começa a desenhar-se no já longínquo ano de 1687, com um acordo entre o Rei daquela região Africana e Portugal, que deu origem a que no dia 15 de Março de 1682, fosse concretizada a fundação da cidade.

Para defesa do território começaram, desde logo a ser construídas diversas fortificações de que a mais conhecida e importante, é a ainda actual e bem conservada Fortaleza da Amura, concluída no ano 1766, erguida nas proximidades do Rio Geba e há já muitos anos integrada na zona urbana da cidade.

Bissau, é ainda considerado um importante centro de comércio, por onde são canalizados e exportados muitos dos produtos, não só de origem guineense, mas também das regiões do vizinho território do Senegal, que faz fronteira norte com a Guiné-Bissau, sendo disso exemplo algumas boas estradas, ao que parece, construídas por fundos financeiros suportados pela República do Senegal.

Em termos climatéricos, em cada ano, encontram-se bem definidas no território guineenses duas épocas, perfeitamente distintas e que são conhecidas como a época das chuvas e a época seca.
A primeira, com chuvadas diárias, inicia-se, normalmente, no mês de Maio e alonga-se até ao final do mês de Outubro, com chuvas, muitas vezes fortes e intensas, ainda que não contínuas, mas repetidas várias vezes ao dia. Saliente-se que o grau de humidade, neste período do ano, é muito elevado, levando as pessoas – talvez mais os não residentes – a estarem permanentemente a transpirar.
A época seca, ainda que mais quente que a das chuvas, é mais fácil de suportar, mas também não será “pera doce”, para quem não está adaptado a este tipo de clima.


Bissau: Foto da antiga, mas bonita e bem arranjada Praça do Império, com o antigo Palácio do Governador em fundo, que é actualmente a residência oficial do Presidente da República da Guiné-Bissau 

É na bonita e antiga Praça do Império, actualmente bem cuidada e ajardinada, onde, para além do Palácio Presidencial, se erguem, tal como já atrás referi, alguns outros belos edifícios da capital guineense, como o da Delegação da TAP, o do Hotel e Pastelaria Império e o da antiga Associação Comercial de Bissau (actualmente sede do PAIGC) e local de onde irradiam os principais eixos rodoviários para a saída de Bissau, com principal incidência nos seguintes destinos:

a) Avenida Amílcar Cabral, com cerca de um quilómetro de extensão que, em frente ao Palácio nos leva até à margem direita do Rio Geba, onde se localiza o Porto de Bissau, esta infelizmente bastante deteriorada e de piso quase sem asfalto, o mesmo acontecendo, aliás, em grande parte dos seus arruamentos transversais;

b) Avenida dos Combatentes da Liberdade da Pátria, com cerca de oito quilómetros que, direccionada para poente une a cidade ao Aeroporto Internacional Osvaldo Vieira e daqui a todo o resto do território, já que até à Vila de Safim, esta estrada, com cerca de treze quilómetros, é a única saída da capital do País para toda a Guiné-Bissau;

c) Estrada de Santa Luzia, que conduz à zona urbana com o mesmo nome e área onde se sediam algumas das principais instalações militares e algumas das mais importantes unidades hoteleiras do País;

d) A única excepção que nos aparece como saída de Bissau, será a estrada que do Aeroporto conduz os visitantes à zona turística de Quinhamel, na zona norte e litoral ao Rio Geba.

Permitam-me perguntar, por que é que, pelo menos, toda a zona envolvente ao Palácio Presidencial, não se encontra arranjada e limpa como esta antiga Praça do Império?! Não despertará nos locais a vontade, o interesse e o desejo de que as pessoas que visitam a Guiné-Bissau, fiquem com boa impressão do País, não só para lá voltar, mas sobretudo para transmitir aos familiares e amigos que é um bom destino a visitar?

Cada vez mais, fico com a sensação de que a actual “pobreza política”, que infelizmente grassa por todo o lado, se sobrepõe aos interesses nacionais, não fazendo o menor esforço para se ir lembrando que a aposta no futuro de qualquer País ou região, passa pela indústria turística, canalizadora da entrada de divisas, bem precisas para o desenvolvimento de um povo ou de uma região?


Bissau: Foto tirada na parte central da antiga Praça do Império, com o edifício da TAP, ao fundo à esquerda 


Bissau: Antiga Praça do Império, com a Confeitaria e o Hotel Império, em segundo plano 

Depois desta breve paragem na Pastelaria Império, decidimos fazer uma breve passeata a pé pela praça situada em frente ao Palácio, que é considerada a sala de visitas da Capital Guineense, bem como pela sua área envolvente, procurando relembrar tempos antigos.

Terminado este curto passeio, dirigimo-nos, agora de jeep, pela antiga Avenida da República, para o Porto de Bissau, local onde se situa o Cais do Pidjiguiti, local bem conhecido de muitos milhares de militares portugueses, pois foi lá que desembarcaram e posteriormente embarcaram no seu regresso a Portugal, passados mais de dois anos e após o cumprimento do serviço militar obrigatório por aquelas bandas e período durante o qual, lá morreram muitos desses militares, a quem prestámos a nossa homenagem numa romagem de saudade que fizemos ao Cemitério Municipal de Bissau, localizado nas traseiras do actual Hospital Simão Mendes, dado que o antigo e bem equipado Hospital Militar, foi depois do 25 de Abril saqueado e vandalizado, encontrando-se em ruínas.

Ficamos igualmente decepcionados com o aspecto muito degradado em que se encontra, não só a antiga Avenida da República, actualmente identificada como Avenida Amílcar Cabral, mas também as artérias que dela irradiam para poente e para nascente, na maioria das quais os esgotos correm a céu aberto, a que podemos anexar a degradação da bela marginal da cidade, que nos anos de 1973/1974, bem conhecemos e por onde passeávamos algumas vezes, nas noites quentes de Bissau.

O bonito edifício dos CTT que em 1973/1974, era o local onde nos dirigíamos para fazer a marcação prévia das chamadas telefónicas que queríamos fazer para as nossas famílias em território metropolitano e que era um das mais emblemáticas construções da antiga Avenida da República, encontra-se com o interior bastante arruinado, dela escapando apenas a fachada principal que mantém a traça e pinturas que conhecemos.


Bissau: Foto obtida no Cais do Pidjiguiti, com o Ilhéu do Rei em fundo 

Um facto insólito, por nós vivido, prende-se com o facto de alguns dos colegas se deslocarem ainda na manhã deste primeiro dia, às instalações da Alfândega de Bissau, esforço repetido três ou quatro dias depois, para tentar desalfandegar um contentor de quarenta pés que, acondicionando material escolar, tinha sido enviado gratuitamente para Bissau, em princípios de Novembro de 2016, pelo Lions da Lusofonia de Matosinhos, destinado a ser entregue a algumas das missões de solidariedade da Guiné-Bissau, a fim de ser posteriormente distribuído por diversos agrupamentos escolares daquela País.

Por estranho que pareça, passados quase seis meses, o contentor com o material, ainda se encontra por “desalfandegar”, encontrando-se depositado no Parque daquela Alfândega, onde o conseguimos localizar.

Inquirido o responsável da Alfândega local, por esta, não muito normal situação, foi-nos por ele transmitido que não tinha tido conhecimento da entrada nos serviços aduaneiros da documentação referente à mercadorias transportada naquela contentor, nem sabia onde se encontraria a documentação que confirmasse a sua chegada!

Com éramos portadores de cópia da documentação que confirmava a sua data de descarga e identificação do agente transitário local, o responsável da Alfândega, ao ser confrontado com estes factos, mostrou-se algo nervoso e confuso, e solicitou-nos que lá voltássemos na quarta-feira seguinte, prometendo-nos ajudar a resolver este imbróglio.

Saindo desta primeira tentativa de solução do desalfandegamento do contentor, com promessas positivas de resolução, almoçámos ali nas proximidades, tendo-nos dirigido ao “Restaurante Porto”, sediado numa das ruas perpendiculares à Avenida Amílcar Cabral e um pouco acima da Catedral, onde os outros colegas nos esperavam.

Fotos: © A. Acílio Azevedo

(Continua)
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Nota do editor

Primeiro poste da série de 19 de Setembro de 2017 > Guiné 61/74 - P17779: As memórias revividas com a visita à Guiné-Bissau, que efectuei entre os dias 30 de Março e 7 de Abril de 2017 (1): 1.º Dia, a viagem de ida (António Acílio Azevedo, ex-Cap Mil)

Guiné 61/74 - P17783: Parabéns a você (1316): Coronel Art Ref Alexandre Coutinho e Lima (Guiné, 1963/65; 1968/70 e 1972/73); Maria Teresa Almeida, Amiga Grã-Tabanqueira de Lisboa e Raul Albino, ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 2402 (Guiné, 1968/70)



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Nota do editor

Último poste da série de 15 de Setembro de 2017 > Guiné 61/74 - P17767: Parabéns a você (1315): Manuel José Ribeiro Agostinho, ex-Soldado Radiotelegrafista, CCS/QG/CTIG (Guiné, 1968/70)

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Guiné 61/74 - P17782: Historiografia da presença portuguesa em África (91): 1ª Exposição Colonial Portuguesa, Porto, 1934: parte do seu sucesso foi devido à Rosinha Balanta, 'exposta ao vivo', e ao seu fotógrafo, o portuense Domingos Alvão (1872-1946)


Capa da "Civilização: grande magazine mensal", Porto, 1934. 
Coleção de Mário Beja Santos (2017) . 
[Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].


Texto baseado em alguns comentários ao poste P17775 (*), da autoria do nosso editor Luís Graça e do nosso amigo Cherno Baldé (que vive em Bissau):

1. O nosso amigo, camarada e colaborador permanente do blogue, Mário Beja Santos, refere-se ao 'escândalo' da balanta Rosinha, de peito generoso à mostra na capa das revistas da época por ocasião da 1.ª Exposição Colonial Portugal, no Porto, em 1934... 

Estamos a falar de há mais de 70 anos, num época cheia de contradições e ameaças à paz mundial, com o triunfo do nazifascismo na Europa e da ideologia da superioridade da "raça ariana"... mas também do triunfo político e ideológico, entre nós, do Estado Novo que vai encetar um processo de 'recolonização' tardia dos nossos territórios de "além-mar" em África e na Ásia...

Curioso que há leitores nossos, na Guiné-Bissau, que ainda hoje se indignam de verem, no nosso blogue, as "suas mães" de peito ao léu... E não são leitores quaisquer, alguns são filhos de "pai tuga" e mãe guineense, vulgo "filhos do vento"... Já nos chegaram ecos, ao nosso blogue, dessas reações que não são só de pudor... E depois temos os/as cientistas sociais com o seu discurso do "cientificamente correto"...

A verdade é que não usávamos, nas paredes das nossas casernas ou abrigos, pósteres de mulheres africanas, nuas... As mulheres nuas, ou semi-vestidas, em poses eróticas, eram da "playboy", louras, de olhos azuis... Eram elas que nos ajudavam a climatizar os nossos pesadelos... E continuam a ser elas (e eles), mais louras ou morenas, mas sempre "sexies", que ajudam o capitalismo a vender as merdas que produzimos e consumimos, dos carros às "férias de sonhos" em "ilhas paradisíacas"... Será que alguma coisa mudou desde o "pecado original"?

Pode-se perguntar qual a fronteira entre o "nu etnográfico" e o "nu pornográfico"?... Também é verdade que fotos como a da Rosinha Balantas eram usadas, com alguma "ousadia", nas nossas revistas e sobretudo nas coleções de fotografia colonial...

Eram muito populares, entre os machos lusitanos, as fotos da coleção com raparigas guineenses em poses bastante ousadas para a época: nuas ou semi-nuas... Quem não comprou e não mandou, pelo correio, para a família e amigos alguns destes postais "ousados" dos anos 60?...

O "nu feminino" (mas não o "nu masculino"!)  era visto como um dos traços "exóticos" e "apetecíveis" da... Guiné Portuguesa... Ora,  eu nunca vi nenhum "nu minhoto” para ilustrar a grandeza e a diversidade do Portugal plurirracial e pluricontinental... Hoje esses "postais ilustrados" (muitos deles já aqui reproduzidos, dado o seu interesse, digamos, documental) seriam, no mínimo, "politicamente incorretos"...

Hoje reproduzir um capa como a de 1934, da revista "Civilização" (dirigida pelo escritor Ferreira de Castro, o autor de "A Selva", que chegou a ser nobilizável...) começa a ser objeto de desconforto e até de censura social... A fronteira entre o racismo, a xenofobia, a misoginia, a homofobia, o machismo começa a ser estreita... correndo o risco da nossa geração, a que fez a guerra colonial,  de ser acusada por outros "ismos" de... racista, xenófoba, misógina, homofóbica, machista...

2. Contrapõe o Cherno Baldé, o nosso perito em Bissau (em questões étnico-linguísticas, mas também éticas, religiosas, históricas, antropológicas...):

“Porque é que o ‘nu feminino era visto como um dos tracços exóticos ... da Guiné Portuguesa e não das outras colónias, Angola e Moçambique, por exemplo? Ou as "Bajudas" da Guiné teriam peitos mais salientes/atraentes que todos os outros países, incluindo Portugal, como tu bem observas?”

E acrescenta o dr. Cherno Baldé, nosso amigo e irmãozinho:

“Eu sou daquela época e confirmo que, na altura e para as comunidades da época, não constituía escândalo deixar as meninas andarem de peito livre sem qualquer preconceito. Os preconceitos vieram depois com a invenção do conceito de ´civilização’, ou seja a mania de querer mostrar ‘civilização’ da parte de quem pretendia deter alguma superioridade racial e social, como se andar vestido, já de per si, significava fazer parte da classe dos ‘civilizados’.

Hoje, porém, sabemos que o conceito é completamente falso, pois senão as mulheres talibãs e outras fundamentalistas da mesma religião, com as suas burcas, seriam as mais civilizadas de todas”.

3. Eu respondi nestes termos, ao sabor das teclas:

Querido amigo e irmãozinho Cherno Baldé (que eu não cheguei a conhecer em Contuboel, ainda “djubi’, em junho/julho de 1961):

Não podemos estar mais de acordo!... O que é a ‘civilização’? Não é (ou não devia ser) pelas diferenças ‘acidentais’ (minissaia ou burca, por exemplo, no que diz respeito ao vestuário feminino...) que os povos se distinguem, diferenciam, se separam, e até se combatem até à morte... Muito menos, pelo ‘fenótipo’...

A ‘Rosinha Balanta’ devia ser, espero, um jóia de miúda, que terá casado e terá sido mãe e avó, como muitas outras mulheres, as nossas mães e avós, em Portugal, na Guiné, em todo o mundo... Não era fácil para uma rapariga, balanta, animista (ou cristã, a avaliar pelo fio com crucifico que usa ao peito, a viver num país colonizado, nos anos 30 do século passado, sobreviver e sobretudo viver com um mínimo de dignidade, saúde, paz... Quero imaginar que teria sido feliz... Espero que tenha sido feliz... Para já "conheceu mundo": teve a sorte de conhecer Portugal e o Porto, em 1934!... E de fazer parte do "jardim zoológico humano" do palácio de Cristal, como alguém lhe chamou, com crueldade (***)...

A Rosinha teria hoje 100 anos e seria um pouco mais velha do que a minha saudosa mãe, Maria da Graça (1922-2014)!...  Sabemos quem foi o seu famoso fotógrafo, o Domingos Alvão... Pode discutir-se é um exemplo de nu 'etnográfico', 'artístico', 'colonialista', 'pornográfico' ...

É verdade que  em Portugal, na época, nem as camponesas do Minho nem as ceifeiras do Alentejo andavam de peito ao léu... Hoje também não andam, porque já não existem nem camponesas do Minho nem ceifeiras do Alentejo, a não ser nos museus do traje e nos ranchos folclóricos...

Em contrapartida, já vemos hoje as jovens mães, nos transportes públicos,  nas esplanadas, na rua... a puxar pela mama, discretamente, naturalmente, para amamentar os seus bebés... Mas a mama ao léu não dá jeito (e não é "socialmente tolerada"), a não ser em certas épocas do ano, em certos sítios (como a praia...). O uso da "mama ao léu" tem regras: por exemplo, na arte, no cinema, na indústria da noite, no lazer, e até nas manifestações políticas... contra o poder falocrático.

Cherno, tu, que és um observador de grande argúcia, pões uma questão, deveras desafiante, provocatoriamente desafiante, aos nossos leitores: por que é que o ‘nu feminino’ não era também (e tão bem...) ‘explorado’ pelos antropólogos, artistas, fotógrafos caçadores de ‘exotismo’, agências de viagens, administradores coloniais, angariadores de mão de obra para as colónias, militares, comerciantes e até ‘missionários católicos’ (que eram os melhores clientes das fábricas de ‘soutiens’)... das outras colónias, Angola, Moçambique, São Tomé e até Cabo Verde?...

Cabo Verde (mas também São Tomé e Príncipe) era um caso à parte dada a tradicional influência da igreja católica românica, e sobretudo a sua origem, como sociedade ‘escravocrata’...

De Moçambique sei pouco, nunca lá fui... De Angola, só lá comecei a lá ir a partir de 2003 e confesso que sou ignorante do seu passado, marcado pela liderança de mulheres fortes como a rainha Ana de Sousa, ou rainha Ginga (c. 1582-1663).

Da Guiné, teu país, meu irmãozinho e amigo, só posso dizer que tinha (e tem) mulheres lindas!... A beleza (feminina e masculina) não é monopólio de ninguém... Mas há ‘estereótipos de beleza’ de base racista... e a que o colonialismo (europeu) e o nazifascismo não são alheios.

Descobri (não sabia…) que a ‘Civilização: grande magazine mensal’ foi uma publicação periódica, editada no Porto entre 1928 e 1937. Foi fundada pelos escritores Ferreira de Castro (1898-1974) e Campos Monteiro (1876-1933). O editor era a Livraria Civilização. A Rosinha Balanta vem numa das capas da revista, em 1934, a propósito da 1.ª Exposição Colonial Portuguesa…

4. Há um artigo, interessante, escrito em português do Brasil sobre o ‘papel’ da Rosinha, a bajuda balanta, em carne e osso, que esteve ‘exposta’, na 1.ª Exposição Colonial Portuguesa, no Porto, em 1934... e que, sem querer, terá sido uma das causas do grande sucesso da exposição, ganhando claramente os favores do público, a par do menino Augusto... (A exposição terá sido vista por um milhão de pessoas; mais de 3 centenas de 'nativos', homens, mulheres e crianças,  vieram expressamente das colónias, a pedido do ministro Armindo Monteiro (1895-1955), para dar "corpo e alma" à exposição que, mais do que um mero divertimento popular, tinha um claro propósito propagandístico.)

(Vd, Mateus Silva Skolaude - Exotismo e Sensualidade Africana: Raça, Nação e Império na 1.ª Exposição Colonial Portuguesa de 1934. in: Nossa África: ensino e pesquisa / Organizadores Simoni Mendes de Paula e Sílvio Marcus de Souza Correa. São Leopoldo, Rio Grande do Sul, Brasil: Oikos, 2016, 228 p.; E-book, pp. 131/145. ISBN 978-85-7843-614-8. Disponível aqui em formato pdf.)

Eis aqui alguns excertos, com a devida vénia:

(...) Para tanto, foi no jardim do Palácio de Cristal [, no Porto,] a grande atração do evento, tendo em vista o objetivo de recriar os territórios ultramarinos em sua mais completa diversidade. Era indispensável traduzir o cotidiano dos povos o mais próximo da realidade, desde a floresta tropical, o deserto, a alimentação e as aldeias típicas, ou seja, o objetivo consistia em oferecer ao público, a sensação de viajar por todo o império português.

Neste passeio, as representações etnográficas acabaram por ser as mais populares, num total de 324 nativos expostos, entre mulheres, homens e também crianças. (...)

Diferentemente de um museu, a exposição incorporava um universo à parte, considerando as particularidades de cheiros, sons e imagens em movimento. Neste sentido, os 324 nativos, desde a chegada ao Porto, foram cuidadosamente observados por professores e estudantes universitários, sob a responsabilidade dos antropólogos da Universidade do Porto. A partir das experiências com os indígenas, os cientistas chegariam a conclusões com respeito a usos e costumes, a maior ou menor aptidão em trabalhos manuais, assim como, às suas capacidades intelectuais. (...)

Estes nativos eram evocados como sendo todos portugueses (...).

E continua o autor, Mateus Silva Skolaude:

(…) Não por acaso, a 1.ª ECP teve um fotografo oficial, o Sr. Domingos Alvão (1872-1946), proprietário da Casa Alvão na cidade do Porto e que publicou um “Álbum fotográfico da 1.ª Exposição Colonial Portuguesa” com 101 clichés fotográficos, editado no Porto pela Litografia Nacional. (…) 


 Os grupos étnicos da Guiné foram os que mais receberam atenção por parte da imprensa e do público de forma geral. Também foram os mais fotografados pela câmara oficial de Domingos Alvão que procurou realçar o caráter físico destas populações indígenas. (...)

(...) Para além da exotização imposta pelos organizadores e propagandistas da exposição, era necessário também criar laços de afetividade na população metropolitana com os povos oriundos das colônias. Para que isto efectivamente tivesse algum resultado prático, utilizou-se a estratégia de individualizar alguns nativos, como forma de torná-los verdadeiros ícones da exposição.

(...) Esse foi o caso do menino Augusto [, bijagó,] (***) e da jovem Rosinha, da etnia balanta, que foi exposta pelos organizadores da exposição, tendo em vista os anseios da política estado-novista que buscava despertar, na subjectividade masculina, o desafio de sujeitos dispostos a migrarem para os territórios ultramarinos do império. A estratégia foi bem-sucedida. Rosinha e as mulheres balantas não só atraíram um grande público, como também constituíam uma “sensualidade” capaz de mobilizar, na memória do passado, o futuro da política imperial.

Concluindo: parte do sucesso da exposição é mérito da Rosinha e do seu fotógrafo (**):

(...) Naquela altura, circulou um cartão postal cuja fotografia original se encontra no álbum fotográfico de Alvão. Sua legenda afirmava o papel atribuído a Rosinha: “O Sucesso da Exposição de 1934”. Este sentimento foi amplamente partilhado pelos visitantes. Rosinha tornou-se o “objeto” mais fotografado, analisado e discutido da exposição. (...) (****)
______________

(**) Último poste da série > 19 de setembro de 2017 > Guiné 61/74 - P17780: Historiografia da presença portuguesa em África (90): a nossa conhecida NOSOCO - Nouvelle Société Commerciale Africaine, uma das patrocinadoras da Exposição Colonial Internacional de Paris, em 1931

(***)   Vd. poste de 9 de janeiro de 2013 > Guiné 63/74 - P10916: Postais ilustrados (19): O menino, Augusto,  que fumava cigarros "White Horse" (Beja Santos)

(...) Em 1934, o regime consagrado pela Constituição de 1933 queria dar provas de que o Império era muito mais do que o imaginário, era obra de missionação, havia para ali recursos a explorar para o engrandecimento da Nação. O capitão Henrique Galvão recebeu instruções para que a encenação ultrapassasse tudo o que até agora fora mostrando dos diferentes povos no vasto Império. E ele não se poupou a esforços. 

O problema foi a moral pública, a reclamar daquelas bajudas com maminhas ao léu, aqueles Bijagós despudorados com saias de ráfia, praticamente nus, e de olhar tão inocente. Faziam-se excursões, rezam as notícias publicadas nos jornais da época, para ver aqueles povos bárbaros, as crianças atiravam pedradas, a polícia tinha que agir, o ministro das Colónias, Armindo Monteiro, não gostou das críticas, ordenou ao capitão Henrique Galvão que acabasse com os desmandos, quem desrespeitasse os guinéus ia para a choça. 

O Augusto devia ser uma criança muito dócil, os pais até devem ter achado graça ver o menino a fumar, reproduzido em bilhete-postal. Não vale a pena fazer comentários, fica o registo de um tratamento primitivo. Em muitos domínios, a História não dorme. (...)


(****) Vd. também o artigo da investigadora do ICS-UL [Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa}, Filipa Lowndes Vicente: "Rosita" e o império como objecto de desejo. Público,. 25/8/2013

(...) "No contexto das discriminações raciais da Europa da década de 1930, como já no século XIX, o corpo da mulher negra podia ser exposto, legitimamente, de muitas formas, num claro contraste com o corpo nu da mulher branca, remetido para as fotografias transgressivas de uma pornografia para consumo privado masculino. O corpo nu da mulher negra estava disponível visualmente, porque imperava uma ideologia legitimada por um racismo científico que o inferiorizava, e que lhe retirava voz e poder. Os lugares desta exposição legítima do corpo eram inúmeros: nas exposições universais e coloniais, nos postais fotográficos que jogavam com a ambiguidade entre a legitimidade científica da antropologia e o erotismo; ou em imagens de jornal a ilustrar os costumes de povos "estranhos e distantes". (...)

Guiné 61/74 - P17781: Os nossos seres, saberes e lazeres (230): De Manchester (em luto) para Leeds, passando pelo Yorkshire profundo (1) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70) com data de 19 de Junho de 2017:

Queridos amigos,
Foram 19 dias e peras. Aterrou-se e só se falava do ataque terrorista na arena de Manchester.
Os primeiros dias foram bem acalorados, seguiu-se para o Sul da Escócia e veio a chuva intermitente, felizmente que o viandante estava numa casa aprazível, bem ajardinada, deu vazão a dois livros de dimensão gigante que levara para fazer recensões no blogue. Divertiu-se à farta, às vezes metia-se no autocarro e, contrariando os pareceres dos agentes turísticos locais, foi parar a aldeolas ditas sem interesse, pura mentira, há sempre um chafariz, uma porta, um jardim encantado, até uma salsicharia onde se encontrou um espaço com vendas filantrópicas para angariar fundos para crianças muito doentes e com pais de modestos recursos.
Como verão, e espero que não haja ilusões nesse sentido, é o viandante que faz a viagem.

Um abraço do
Mário


De Manchester (em luto) para Leeds, passando pelo Yorkshire profundo (1)

Beja Santos

Nunca o viandante fizera férias tão prolongadas em país estrangeiro, tudo desenhado à régua, o rigorismo das despesas assim o recomenda, tanto por pernoita, tanto por transportes aéreos e terrestres, qual o montante para vitualhas e qual a porção de excedente para extravagâncias, sabe-se que é grande a curiosidade por visitar lojas de instituições de benemerência (vulgo charity shops), onde o viandante procura calçado e diferente vestuário e versátil quinquilharia. Acontece que há muitos museus com entrada gratuita, mas as casas senhoriais e qualquer tipo de espetáculo é de 10 libras para cima.
Começa-se por Manchester, logo no dia seguinte a uma grande tragédia que enlutou o Reino Unido, foram dias sem parar a exibir nos ecrãs inocentes que morreram num ataque terrorista enquanto ouviam a cantora pop Ariana Grande. Ora por coincidência o Manchester United foi vencer na final da Liga Europa o Ajax, e esta fotografia circulou por meio mundo, o ponta-de-lança Paul Pogba dedicou esta vitória a um familiar e às vítimas do ataque. Se uma imagem vale por mil palavras, o que pensar desta imagem?


O primeiro dia efetivo de cirandagem tem os céus plúmbeos, em Yorkshire, onde se encontra o viandante, está tudo em verdor florestal, num país onde chove que se farta não é enigma. Para tirar imagem nestes dias chochos o melhor é o viandante socorrer-se da autenticidade de uma imagem em bilhete-postal, aqui ficam as Dales de Yorkshire, vales formosos, tudo irrepreensivelmente tratado, milénios a retirar pedra para que os solos ficassem úberes, como são, há ali pastagens eternas, as Dales embrincam com as charnecas, o que aqui se descreve é conhecido por todos aqueles que leram Os Montes de Vendavais, a obra de consagração de Emily Brontё. É uma sensação voluptuosa viajar por estas estradas secundárias até desembarcar na afadigada Leeds, hoje o segundo centro financeiro do Reino Unido.


O viandante pretenda começar o dia a visitar o centro de arte de Leeds, enfim, cumprimentar pelo menos Paula Rego e Francis Bacon, deu com o nariz na porta, o museu está em obras até Outubro. Aqui se exibe de Paula Rego uma tela de 1993, The Artist in Her Studio, há para ali temáticas muito comuns e facilmente muito identificáveis, logo em primeiro plano as boas couves portuguesas e um burro, animal que a artista nunca esqueceu das férias passadas em família.


Devido a esta alteração, prossegue a viagem na City Square, vai dar-se uma espreitadela à gare ferroviária de Leeds, recentemente restaurada. Tiveram cuidado de manter elementos Arte Deco logo na entrada, que prazer para os olhos ver como há cerca de 75 anos havia um sentido apurado para uma entrada palaciana de caráter público com uma bem doseada iluminação, que continua na vanguarda do bom design.


Daqui parte-se para o City Square, a praça tem magnificência, a estátua do Príncipe Negro, um dos ícones da história da Inglaterra, ocupa lugar central. Há belas esculturas, reteve-se a de James Watt, um senhor para com quem temos uma dívida eterna por ter magicado a máquina a vapor.



Não se pode entrar no centro de arte, mas o instituto Henry Moore está disponível, tem sempre belas exposições à nossa espera. Saudou-se o genial escultor com esta imagem e tomou-se a decisão de visitar um esplêndido edifício vitoriano, ali ao lado, é ali que funciona a biblioteca. Convém recordar que naquelas décadas ascensionais da industrialização do país e do nascimento do império, desenvolveu-se por toda a parte um fenómeno conhecido por orgulho cívico: qualquer cidade, mesmo de menor dimensão, teria de ter uma casa de música, se possível uma ópera, biblioteca, amplos jardins, transportes ferroviários, bairros para gente humilde. Falando em bibliotecas, deviam apresentar-se como palácios, locais de veneração da cultura.


Sai-se da biblioteca para flanar na grande artéria comercial, ali se destaca a galeria Vitória, é uma artéria cheia de requinte onde os retalhistas se socorrem hoje das boas artes do embelezamento das vitrinas. Vejam lá se esta montra pejada de máquinas de costura de um estabelecimento de roupas não é um achado.




Este local dá pelo nome de The Corn Exchange, foi em tempos áureos um mercado de cereais, hoje é um centro comercial. Enquanto por aqui se cirandava, o viandante deu com uma placa de memória por todos aqueles que aqui trabalhavam e que tombaram na guerra. Os britânicos são assim, cuidam de recordar que houve um sacrifício imenso em vários continentes, nos mares e nos céus, e que cada local do país deu o seu sangue heroico. São valores assim que ajudam a compreender o transcendente das culturas e das civilizações.


Mais uma vagabundagem antes do viandante se despedir de Leeds. Ele veio aqui pela primeira vez, há alguns anos atrás, à procura de um fenómeno de reabilitação dos antigos armazéns hoje transformados em residências, arquitetos de muitas proveniências vêm aqui estudar como é possível reabilitar zonas de armazéns portuários e reconvertê-los em bairros aprazíveis. Também o viandante já viu em Bristol algo de semelhante, pensa sempre que aquelas regiões ali do Poço do Bispo e Xabregas bem podiam ganhar outra vida, tornar a Lisboa Oriental muitíssimo mais aprazível e vistosa, como merece. Foi um belo dia em Leeds, amanhã, em franca companhia, parte-se para o Sul da Escócia, Moffat.

(Continua)
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Nota do editor

Último posta da série de 13 de setembro de 2017 > Guiné 61/74 - P17762: Os nossos seres, saberes e lazeres (229): Aquele último dia em Bruxelas, já saudoso pelo regresso (9) (Mário Beja Santos)

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Guiné 61/74 - P17780: Historiografia da presença portuguesa em África (90): a nossa conhecida NOSOCO - Nouvelle Société Commerciale Africaine, uma das patrocinadoras da Exposição Colonial Internacional de Paris, em 1931



Cartaz da Exposição Colonial Internacional de Paris, 1931, onde Portugal esteve representado (*).  Foi um retubambante sucesso, e uma manifestação da glória imperial gaulesa, cun espaço expositivo de  110 hectares / 220 campos de futebol, em Vincennes, Paris, Três anos depois, Portugal quis também reforçar, mais para consumo interno, a mensagem propagandística de que não éramos um país pequeno (Henrique Galvão dixit...).

O cartaz promocional da exposição de Paris foi uma oferta da nossa conhecida NOSOCO - Nouvelle Société Commerciale Africaine [NOva SOciedade COmercial africana], com delegações em Senegal, Casamance e Guiné Portuguesa.

Foto: © Mário Beja Santos (2017) . Todos os direitos reservado. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camarads da Guiné].





Guiné > Bissalanca > c. 1958/59 > Fotografia tirada na despedida do gerente da NOSOCO, Monsieur Boris, que nesse dia regressava a Paris (está ao centro de fato e gravata) [nº 1, a amarelo]. O avião era, naturalmente, da Air France [5].

O João Rosa [2], o guarda-livros, [e que foi um dos fundadores do MLG - Movimento de Libertação da Guiné e um dos primeiros contactos políticos de Amílcar Cabral, tendo feito reuniões clandestinas, na sua casa, com o próprio Amílcar Cabral e outros nacionalistas guineenses;  morreria no hospital,, e 1961, na sequência da sua prisão e tortura pela PIDE, em 1961, segundo informação do Leopoldo Amado], está na segunda fila à direita ; à sua frente, o 2º da direita é o Toi Cabral [António da Luz Cabral, irmão de Amílcar Cabral] [3]. Os restantes elementos da foto são alguns (quase todos) dos empregados do escritório da NOSOCO em Bissau, entre eles, supomos, o Mário Dias [que não conseguimos ainda identificar, e a quem já pedimos para "validar" esta legendagem...].

O quatro elemento conhecido do grupo [4] é, a contar da esquerda, o Armando Duarte Lopes, o pai do nosso amigo Nelson Herbert, e velha glória do futebol guineense... (Festeve em 1943 no Mindelo, sua terra natal, integrado numa força expedicionária, vinda do continente, que veio reforçar o sistema de defesa da Ilha de São Vicente durante a II Guerra Mundial; viveu depois, trabalhou e casou em Bissau. Conhecido como o Armando 'Bufallo Bill', seu nome de guerra, foi o melhor de futebolista da UDIB, e do Benfica de Bissau, tendo sido nternacional pela selecção da antiga Guiné Portuguesa..).

Recorde-se que o apelido Herbert, no caso do nosso amigo Nelson, antigo jornalista na VOA (Voz da América), vem do  avô materno francês, que foi o representante local, na Guiné, da CFAO - Compagnie Française de l'Afrique Occidentale, fundada em 1887, e  que, com a NOSOCO e  a SCOA,  foi um das peças importantes do do sistema colonial francês.

Foto (e legenda): © Mário Dias (2006) . Todos os direitos reservado. [Edião e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. A NOSOCO eram uma das empresas comerciais, estrangeiras, e nomeadamente de capital francês, que operavam na Guiné. A sua presença já era efetiva em Bissau, desde pelo menos 1915.  (A partir de 1930, passa a fazer parte da multinacional Unilever.)

Outras casas comerciais francesas poderosas era,: (i) a Companhia Francesa da África Ocidental (CFAO); e (ii) a Sociedade Comercial do Oeste Africano (SCOA). Nesta última onde trabalhou o Elisée Turpin, co-fundador do PAIGC, e o Carlos Domingos Gomes, Cadogo Pai (membro da nossa Tabanca Grande). A SCOA foi fundada em 1907 e tinha sede em Paris, e sucursal em Manchester,  agências em Nova Iorque e Casablanca... Objeto da actividade económica: "toutes opérations commerciales, industrielles et financières en Afrique"...

Embora sendo um "filho da Guiné",  Cadogo Pai, nascido em 1929,  foi admitido como de auxiliar de escriturário, em agosto de 1946, na firma francesa, SCOA – Sociedade Comercial do Oeste Africano (proprietária do edifício onde está hoje a Pensão Berta), com várias lojas pela Guiné (Bissau, Bolama, Bissorã…). Foi transferido para Bolama no final do ano. Em 1949, nasceria aí o seu filho, Carlos Gomes Júnior, futuro empresário, dirigente do PAIGC e primeiro ministro. Em 1951 é encarregado, na mesma firma e sente a pressão da concorrência dos encarregados (europeus) das outras casas, e nomeadamente portuguesas: Gouveia, Ultramarina, Pinto Grande, Ernesto Gonçalves de Carvalho, etc.

Nas suas memórias, Cadogo Pai conta que é por essa altura, na 1ª metade da década de 1950, que a SCOA e as outras empresas francesas, NOSOCO e CFAO, começam a sentir restrições na sua atividade comercial, dada a posição monopolista da Casa Gouveia: tendo vocação exportadora, eram "obrigadas a vender os seus produtos à Gouveia" (sic)... Na realidade, a CUF (, através da Casa Gouveia, ) detinha o monopólio da exportação do amendoim da Guiné, até à independência da Guiné-Bissau. (**)

É nessa altura que o Cadogo Pai (que eu conheci pessoalmente em Bissau, em março de 2008)  começa a ponderar a hipótese da demissão e começar a trabalhar por conta própria. O seu chefe, francês, não apoiou logo a ideia; em contrapartida, ter-lhe-á proposto... "uma transferência para Paris, dada a confiança que ganh[ara] em toda a organização, a exemplo de muitos colegas que foram transferidos na altura para Ziguinchor, Dakar, etc." E mais: tê-lo-á avisado que "o vento da independência iniciada nos países vizinhos (Conakry, Senegal, etc.) chegaria à Guiné-Bissau", pelo que , se ficasse na Guiné, iria passar mal, como veio a acontecer... 

O Cadogo Pai irá estabelecer-se  por conta própria em 5 de setembro de 1955. Em contrapartida, não sabemos nem quando nem como os franceses cessaram a sua actividade económica na Guiné... Presumivelmente com a guerra e por causa da guerra, e a consequente quebra (brutal) da produção de oleaginosas, e nomeadamente da "mancarra" (**)



Anúncio comercial reproduzido, com a devida vénia, de Turismo - Revista de Arte, Paisagem e Costumes Portugueses, jan/fev 1956, ano XVIII, 2ª série, nº 2. Na foto, o moderno edifício da loja da NOSOCO, em Bissau.

Numa lista, de 18 pp.,  com  mais de 150 empresas coloniais da África Ocidental Francesa (AOF), em 1925, vem a seguinte informação  sobre a NOSOCO, sociedade anónima com um capital de 8 milhões de francos. Dedicava-se à importação e exportação. Na Guiné, tinha sucursais no Cacheu, Bissau e Bolama:

"NOUVELLE SOCIÉTÉ COMMERCIALE AFRICAINE [NOSOCO], 9, cours de Gourgue,
Bordeaux (Gironde). T. 852. Codes: A.B.C. 5e éd., Lieber. Soc. an. au cap. de 8.000.000
de fr. Conseil d'adm.: Prés.: M. Pascal Buhan; MM. Gaston Thubé fils, Amédée Thubé,
adm. Direction: 2, av. de Launay, Nantes (Loire-Inf.). T. 11-49. Ad. t. Nosoco-Nantes.
Comptoirs: Sénégal: Rufisque, Kaolack, Fondiougne; Casamance: Ziguinchor; Bissao
[Bissau]: Cacheo, Bissao, Boulam. Importation et exportation au Sénégal, en Casamance et en Guinée. (2-38657)." 

Vinte e seis anos depois, no anuário de 1951, das 441 empresas coloniais francesas da AOF  + Togo (78 pp.), a situação da NOSOCO já era outra: (i) faz  parte do grupo Unilever (tal como mais outras quatro); (ii) tem sede em Dacar; (iii) continua a ser uma "sociedade anónima"; (iv) o capital social é de 220 milhões de francos CFA; (v) na Guiné Portuguesa (sic), está em Bissau, Bolama, Farim e Bafatá: (v) exporta matérias-primas, importa produtos manufaturados, como qualquer boa empresa colonialista...

"244 — Nouvelle Société commerciale africaine (NOSOCO)[Unilever],
Siège social: 131 [ou 31 ?], boulevard Pinet-Laprade, DAKAR (Sénégal)[= 204] [a mesma sede da Cie du Niger français (C.N.F.)[Unilever]
Capital. — Société anon., 220 millions de fr. C. F. A.
Objet. — Import. et export. au Sénégal, en Casamance et en Guinée portugaise.
Exp. — Arachides, palmistes, caoutchouc, cire, cuirs, gommes, etc.
Imp. — Tissus, riz, huile, sucre, conserves, quincaillerie, épicerie et toutes
marchandises.
Comptoirs. Sénégal: Dakar, Thiés, Diourbel, Fatick, Kaolack;. Foundiougne. —
Casamance: Ziguinchor, Kolda. — Guinée portugaise: Bissao, Boulame, Farim, Bafata.
Conseil. — MM. Arnaud Faure, présid. dél. M. Gérard, G. Rouzaud, Wallerston, L.
Leibosis, admin."

(Fonte: Les Entreprises Coloniales Françaises)


Fotos: © Mário Vasconcelos (2015). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


2. Segundo dados que recolhemos na Net, a NOSOCO foi criada em 1879, no Senegal, tendo-se tornado uma das maiores empresas na área da importação /  exportação. O seu negócio principal será a exportação de oleaginosas... Na Guiné portuguesa, estava em competição com a Casa Gouveia (Grupo CUF) (como vimos, socorrendo-nos das memórias de Cadogo Pai).

A NOCOSO, sociedade anónima,  acabou por se tornar uma filial da ainda mais poderosa UAC - United Africa Company, de origem britânica que, antes da II Guerra Mundial, detinha 40% do total do comércio da África Ocidental, mas já como subsidiária da transnacional Unilever, de capital britânico e holandês. (A UAC, com a crise do capitalismo de 1929, estava à beira da banca rota, sendo então comprada pela Unilever;  seria totalmente absorvida em 1987 pela empresa-mãe, a Unilever,  deixando portanto de ter existência, de facto e de direito).

Será interessante saber que a Unilever  nasce justamente em 1930 através da fusão da Margarine Unie (fabricante holandês de margarina) e da Lever Brothers (fabricante inglês de sopas). É hoje um dos gigantes mundiais do agroalimentar, das bebidas, dos produtos de limpeza e cuidados pessoais... Os "factos" falam por si:  c. 400 marcas, c. 170 mil empregados, c. 52,7 mil milhões de euros de faturação, c. 2,5 mil milhões de clientes... (Como termo de comparação, refira-se o montante das exportações portuguesas em 2016: c. 26,3 mil milhôes de euros, segundo dados da PORDATA).

E tudo (ou quase tudo ou uma grande parte ) começou em África... com o colonialismo europeu. Em  África,  que continua pobre e subdesenvolvida...(***) (LG)

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Notas do editor:

(*) Vd. poste de 16 de setembro de  2017 > Guiné 61/74 - P17772: Historiografia da presença portuguesa em África (88): Exposição Colonial Internacional de Paris, 1931 (1) (Mário Beja Santos)

(**) Vd. poste de 31 de outubro de 2015 > Guiné 63/74 - P15309: Historiografia da presença portuguesa em África (64): Cem pesos era "manga de patacão" para o camponês guineense, produtor de mancarra... Era por quanto venderia um saco de 100kg ao comerciante intermediário... Em finais de 1965 o governo de Lisboa garante a compra pela metrópole da totalidade da produção exportável da mancarra guineense e fixa o preço por quilo em 3$60 FOB (Free On Board)

Vd. também poste de 7 de janeiro de 2015 > Guiné 63/74 - P14126: (Ex)citações (258): A prosperidade de Bafatá não se deveu tanto ao "patacão da guerra" como ao negócio da mancarra (Cherno Baldé)

(***) Último poste da série > 17 de setembro de 2017 > Guiné 61/74 - P17775: Historiografia da presença portuguesa em África (89): Exposição Colonial Portuguesa, Porto, 1934 (2) (Mário Beja Santos)