terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Guiné 61/74 - P18245: Memória dos lugares (371): Buba, o espaldão do morteiro 81 e os Pel Mort [1086, 1242, 2138, 3020...] que por lá passaram


Inscrições:

Lado esquerdo: P M 3020  71-73 | SALGADO   [Pel Mort 3020 1971-73, mobilizado pelo RI 15, Tomar,em setembro de 1973; Salgado devia ser o apelido de um dos militares que trabalharam na construução ou, melhor, na manutenção do espaldão, c. 1971-73];

Lado direito: Pel Mort 213 [8] [, mobilizado pelo BC 10, Chaves, em agosto de 1969.



Inscrição: P M 3020  71-73 | SALGADO


Inscrição na parte de cima do paredão interior: P M 1086   [mobilizado pelo RI 15, Tomar, em maio de 1966]  |  [P M] 1242 [mobilizado pelo BC 10, Chaves, em outubro de 1967...]


Inscrição: P M 1086 | [ P M] 1242


Por este detalhe do espaldão do morteiro 81 (*), verifica-se que afinal não era obra do BENG 447, mas sim dos "artistas da casa", com bidões cheios de areia, com secções cheias de areia ou terra (já que não havia muita pedra na Guiné...), com as paredes revestidas de chapa de bidões... e na parte superior "acimentadas"... Uma canhoada em cheio rebentava facilmente o espaldão... Visto de cima e de longe, parecia todavia ser uma construção sólida...

 Guiné-Bissão >Região de Quínara > Buba > Esquadrão de morteiro 81 >  Em forma concêntrica, com dois anéis...

Casa Comum > Fundação Mário Soares > Arquivo Amílcar Cabarl > Pasta: 05360.000.325 > Espaldar de morteiro 81. Já existia no tempo do Pel Mort 2138 [, Buba, 1969/71]. Os Pel Mort que por lá passaram a seguir ou  antes [Pel Mort 1086, Pel Mort 1242, Pel Mort 3020...] (**) foram fazendo a respetiva manutenção e deixaram lá a sua "assinatura"...

Como o espaldão está desativado, a foto deve ser posterior à retração do dispositivo das NT, em meados de 1974.

Citação: (1963-1973), "Ponto de tiro de morteiros, do pelotão de morteiros 2139, do exército português.", CasaComum.org, Disponível HTTP:http://hdl.handle.net/ 11002/fms_dc_44169 (2018-01-20)




Guiné-Bissau > Região de Tombali > Buba > Maio de 2013 > "Por aqui passou o Pel Mort 1242 (1967/69)"... Restos do seu memorial, com o respetivo brasão. (***)

Foto (e legenda) : © José Teixeira (2013). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné] (****)

___________

Notas do editor:

(*) Vd. poste de 23 de janeiro de 2018 > Guiné 61/74 - P18244: (D)o outro lado do combate (17): ataque a Buba em 12 de outubro de 1969, ao tempo da CCAÇ 2382 e Pel Mort 2138: os fracassos assumidos pelo PAIGC (Jorge Araújo)

(**) Vd. poste de 15 de janeiro de  2018 >  Guiné 61/74 - P18214: Pelotões de Morteiros mobilizados para o CTIG: elementos históricos e estatísticos (Jorge Araújo)

(***) Vd. poste de 30 de maio de 2013 > Guiné 63/74 - P11653: Em busca de... (223): Pessoal do Pel Mort 1242 (Buba, outubro de 1967/ agosto de 1969) cujos nomes ficaram gravados na "pedra de Buba"... O que é feito de ti, camarada Clemente, ex-alf mil e comandante? E de ti, Simão? E de ti, Laginha?... E de vocês todos, 44 anos anos depois de terem regressado no T/T Uíge, em 23/8/1969?

Guiné 61/74 - P18244: (D)o outro lado do combate (17): ataque a Buba em 12 de outubro de 1969, ao tempo da CCAÇ 2382 e Pel Mort 2138: os fracassos assumidos pelo PAIGC (Jorge Araújo)


Foto nº 1 > Guiné-Bissão >Região de Quínara > Buba > Esquadrão de morteiro 81 >

Casa Comum > Fundação Mário Soares > Arquivo Amílcar Cabarl > Pasta: 05360.000.325 > Espaldar de morteiro, mais provavelmente do Pel Mort 2138 [e não 2139], que esteve em Buba (1969/71). Como o espaldão está desativado, a foto deve ser posterior ao 25 de abril de 1974.


Citação: (1963-1973), "Ponto de tiro de morteiros, do pelotão de morteiros 2139, do exército português.", CasaComum.org, Disponível HTTP:http://hdl.handle.net/ 11002/fms_dc_44169 (2018-01-20)


Foto nº 2 > Guiné > Região de Quínara > Buba > CCAÇ 2382 (1969/71) > Posição do espaldão do morteiro 81, na embocadura do rio Grande de Buba [poste P18231]


Fotos (e legendas): © Fernando Oliveira ("Brasinha") (2018). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Jorge Alves Araújo, ex-Fur Mil Op Esp/Ranger, CART 3494 
(Xime-Mansambo, 1972/1974)


GUINÉ: (D)O OUTRO LADO DO COMBATE  > ATAQUE A BUBA EM 12 DE OUTUBRO DE 1969  (AO TEMPO DA CCAÇ 2382 E DO PEL MORT 2138): OS FRACASSOS ASSUMIDOS PELO PAIGC


por Jorge Araújo



1. INTRODUÇÃO

Como tive a oportunidade de referir na anterior narrativa sobre este tema, uma foto de um “espaldão de morteiro” localizada na Casa Comum - Fundação Mário Soares - na pasta: 05360.000.325, com o título/assunto: “Ponto de tiro de morteiros, do pelotão de morteiros 2138, do exército português… estrutura militar portuguesa à beira de um rio [?]: ponto de tiro de morteiros, do pelotão de morteiros 2138” [poste P18223] deu lugar a uma nova investigação, tendo duas questões de partida [foto nº1]:

(i) como chegou ela (foto do espaldão) às mãos da guerrilha e/ou aos arquivos de Amílcar Cabral (1924-1973);

(ii) em que aquartelamento das NT teria ele sido construído?

Quanto à primeira questão, creio ser difícil, quase impossível, obter uma resposta fiável, a não ser que o seu autor tomasse a iniciativa de se identificar. Quanto à segunda, foram várias e imediatas as respostas, dando-nos conta tratar-se do «Espaldão do morteiro 81», colocado na embocadura do rio Grande de Buba, junto ao arame farpado do Aquartelamento de Buba. [foto nº 2]

Para além da preciosa ajuda dos nossos camaradas tertulianos que por lá passaram, destaco aqui o contributo do Fernando Oliveira (Brasinha) do Pel Mort 2138, que fez o favor de nos mandar algumas fotos desse local [poste P18231] … com história, e que muito agradecemos.

Para que conste, apresentamos acima duas fotos desse espaldão, a primeira, talvez de 1973 ou princípios de 1974 [ou mais tarde] (a do arquivo de fotos de Amílcar Cabral), a segunda do tempo do Pel Mort 2138 (1969/1971), do baú de memórias do camarada “Brasinha”.



2. O ATAQUE A BUBA EM 12 DE OUTUBRO DE 1969


A análise ao modo como o PAIGC planeou este ataque ao aquartelamento de Buba em 12 de Outubro de 1969, domingo, deu origem à elaboração de um “Relatório do Ataque” por parte do comandante da CCAÇ 2382 (1968/1970), ex-Cap Mil Carlos Nery Gomes de Araújo, bem como o competente croqui sobre a distribuição das forças IN. Este foi redigido a partir da informação obtida através da leitura dos documentos apreendidos ao capitão cubano Pedro Rodrigues Peralta, na sequência da sua captura por tropas paraquedistas do CCP 122/BCP 12, em 18 de Novembro’69, durante a «Operação Jove» [vidé poste P18223].

Recorda-se que este ataque foi liderado por Pedro Peralta e 'Nino' Vieira. De acordo com as informações do camarada Fernando Oliveira, este ataque foi lançado pela parte superior da pista de aterragem de aeronaves, tendo o IN estado muito próximo do arame farpado. O especial desempenho vai para o Esquadrão de Morteiros, junto à pista. Este ataque foi o baptismo de fogo do Pel Mort 2138, coincidindo com a despedida da CCAÇ 2382, comandada pelo Cap Carlos Nery Araújo.

Na infogravura abaixo, retirada do livro «Guerra Colonial», do Diário de Notícias, p. 295, as setas a amarelo servem para referenciar a zona onde se iniciou o ataque.




3. RELATÓRIO DO PAIGC SOBRE O PRIMEIRO ATAQUE A BUBA

- 12 DE OUTUBRO DE 1969

Como instrumento de investigação histórica «do outro lado do combate», visando encontrar eventuais elementos contraditórios entre versões, recorremos, uma vez mais, à principal fonte de consulta (privilegiada) que são os Arquivos de Amílcar Cabral, localizados na Casa Comum – Fundação Mário Soares.

Aí encontrámos referência a este ataque a Buba, realizado em 12 de Outubro de 1969, que pode ser consultado em: (1969), “Relatório das operações militares na Frente Sul”, 
http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_40082 (2018-1-20).

Nas primeiras duas páginas desse relatório de um total de vinte e três, cujo autor se desconhece, e que abaixo se apresenta dividido em pequenos fragmentos, é referido:

Na introdução:

“Após um longo período de minucioso reconhecimento e preparação das condições para a actuação da artilharia (tiro directo e indirecto) distribuída por 3 posições de fogo distintas, dedicou-se especial atenção em encontrar as vias de acesso para a infantaria e locais para a sua disposição. No cumprimento desta última missão de reconhecimento temos a lamentar a morte de um camarada e o ferimento de outros dois, entre os quais o camarada CAETANO SEMEDO, em consequência da detonação duma mina antipessoal”.




Efectivos:

Dispunhamos para a operação dos seguintes efectivos:

Artilharia

- 9 canhões sem recuo B-10, com 90 obuses;

- 9 morteiros 82, com 180 obuses;

- 2 peças GRAD, com 7 foguetes;

Infantaria

- 5 bi-grupos para o assalto ao quartel;

- 3 bi-grupos para isolar Buba dos visinhos;

- 1 bi-grupo para a segurança da artilharia;

Defesa anti-aérea

- 12 DCK



Desenvolvimento da acção:

A operação devia ter início no dia 12 de Outubro [1969] às 17 horas, mas devido a atrasos na instalação dos canhões, só foi possível iniciá-la às 17h30.

Os canhões efectuariam tiro directo a uma distância de 1.200 metros; os morteiros 82 e GRAD estavam em ligação telefónica com o posto de observação, situado a 800 metros do quartel. A posição dos morteiros estava a 2.200 metros e a das peças de GRAD a 3.950 metros do quartel.

Primeiro abriram fogo os canhões B-10, que falharam completamente, tendo apenas dois obuses atingido o quartel. O inimigo respondeu com um nutrido fogo de morteiros [Pel Mort 2138], canhões [2.º Pelotão/BAC], metralhadoras e armas ligeiras [CCAÇ 2382 + Pel Milícia], concentrando sobre o posto de observação (possivelmente já descoberto por ele), sobre a posição do fogo dos canhões e sobre o itinerário percorrido pela linha telefónica; como resultado da explosão dos obuses o fio telefónico foi cortado em 7 [sete] lugares diferentes, ficando a ligação interrompida.

Além disso, unidades inimigas de infantaria cruzaram o rio, pondo sob a ameaça de liquidação do posto de observação, os canhões, em retirada, e os morteiros.


Conclusão:

Nestas condições, abortou a acção da artilharia, que teve que se retirar, sempre debaixo do fogo das armas pesadas do inimigo.

Como não actuou a artilharia, tampouco actuou a infantaria.

Tivemos duas baixas na operação: dois feridos, um dos quais veio a falecer mais tarde. Além disso, temos a lamentar a morte de um camarada de infantaria, por acidente.



Fonte: Casa Comum >  Fundação Mário Soares >  Arquivo Amílcar Cabral

Pasta: 07073.128.011. Título: Relatório das operações militares na Frente Sul. Assunto: Relatório das operações militares do PAIGC contra Buba, Bedanda, Bolama, Cacine, Cabedu, Empada, Mato Farroba, Cufar. Utilização dos foguetes. Algumas impressões sobre a utilização da arma especial (GRAD) na Frente Sul durante os meses de Outubro e Novembro de 1969. Data: c. Novembro de 1969. Observações: Doc. incluído no dossier intitulado Relatórios 1965-1969. [Guileje]. Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabral. Tipo Documental: Documentos.


Em jeito de conclusão, podemos dizer que os dois relatórios se complementam, pela adição dos detalhes particulares observados em cada um dos lados do combate.


Obrigado pela atenção.

Com forte abraço de amizade,

Jorge Araújo.

22JAN2018.

_______________

Nota do editor:

Último poste da série > 14 de dezembro de 2017 > Guiné 61/74 - P18086: (D)o outro lado do combate (16): razões e circunstâncias da prisão e condenação do arcebispo católico de Conacri, Raymond-Marie Tchidimbo (1920-2011), na sequência da Op Mar Verde: de "santo" a "diabo", aos olhos do "guia iluminado", Sékou Touré: o testemunho do mais célebre prisioneiro político do sinistro campo de Boiro (excerto com tradução de Jorge Araújo)

Guiné 61/74 - P18243: Notícias (extravagantes) de uma Volta ao Mundo em 100 dias (António Graça de Abreu) - Parte XIX: 29 de outubro de 2016, Melbourne, Austrália



Austrália > 29 de outubro de 2016 > Melbourne,  centro da cidade


Austrália > 29 de outubro de 2016 > Melbourne, Flinders Street, o coração da cidade


Austrália > 29 de outubro de 2016 > Melbourne,  plataforma de helicópteros que transportam fãs do Melbourne Spring Cup, a corrida de cavalos mais importante do ano.



Austrália > 29 de outubro de 2016 > Melbourne, uma cidade de 4,3 milhões de habitantes, 




Austrália > 29 de outubro de 2016 > Melbourne > Royal Botanic Gardens, > Shrine of Remembrance [, Memorial aos Antigos Combatentes]

Fotos (e legendas): © António Graça de Abreu (2017). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. Continuação da publicação das crónicas da "viagem à volta ao mundo em 100 dias", do nosso camarada António Graça de Abreu, escritor, poeta, sinólogo, ex-alf mil SGE, CAOP 1 [Teixeira Pinto, Mansoa e Cufar, 1972/74], membro sénior da nossa Tabanca Grande, e ativo colaborador do nosso blogue com mais de 200 referências.

É casado com a médica chinesa Hai Yuan, natural de Xangai, e tem dois filhos, João e Pedro. Vive no concelho de Cascais.  

Prepara-se, entretanto,  para servir de guia em mais uma viagem à China, organizada pela agência Em Viagem, de parceria com a Fundação  do Oriente, de 14 a 29 de março de 2018. As inscrições estão abertas até 26 de janeiro.
 Acrescente-se que o proghrama é muito interessante ma so preço é proibitivo para um pobre ex-combatente da Guiné: 4370,00€  por pessoa, em quarto duplo, tudo incluído...

{Comtacto: +351 966 478 509
Morada: Av. 25 Abril, Loja 8C | 2750-511 Cascais, Portugal
E-mail: andreia.machado@emviagem.pt ]


2. Sinopse da série Notícias (extravagantes) de uma Volta ao Mundo em 100 dias:

(i) neste cruzeiro à volta do mundo, o nosso camarada e a sua esposa partiram do porto de Barcelona em 1 de setembro de 2016;

(ii) três semanas depois o navio italiano "Costa Luminosa", com quase três centenas de metros de comprimento, sair do Mediterrâneo e atravessar o Atlântico, estava no Pacífico, e mais concretamente no Oceano Pacífico, na Costa Rica (21/9/2016) e na Guatemala (24/9/2017), e depois no México (26/9/2017);

(iii) na II etapa da "viagem de volta ao mundo em 100 dias", com um mês de cruzeiro (a primeira parte terá sido "a menos interessante", diz-nos o escritor), o "Costa Luminosa" chega aos EUA, à costa da Califórnia: San Diego e San Pedro (30/9/2016), Long Beach (1/10/2016), Los Angeles (30/9/2016) e São Francisco (3/4/10/2017); no dia 9, está em Honolulu, Hawai, território norte-americano; navega agora em pleno Oceano Pacífico, a caminho da Polinésia, onde há algumas das mais belas ilhas do mundo;

(iv) um mês e meio do início do cruzeiro, em Barcelona, o "Costa Luminosa" atraca no porto de Pago Pago, capital da Samoa Americana, ilha de Tutuila, Polinésia, em 15/10/2016;

(v) seguem-se depois as ilhas Tonga;

(vi) visita a Auckland, Nova Zelândia, em 20/10/2016:

(vii) visita à Austrália: Sidney, a capital, e as Montanhas Azuis (24-26 de outubro de 2016);

(viii) o "Costa Luminosa" chega, pela manhã de 29710/2016, à cidade de Melbourne, Austrália.


   
3. Notícias (extravagantes) de uma Volta ao Mundo em 100 dias (António Graça de Abreu) - Parte XIX: 29 de outubro de 2016, Melbourne, Austrália


O navio chega às oito da manhã [ do dia 29 de outubro de 2016] ao Station Pier, o cais de cruzeiros de Melbourne. Meia hora depois já estou fora do porto em busca da cidade considerada uma das mais civilizadas e com melhor qualidade de vida em todo o mundo. 


Compro o cartão Myki, 14 dólares australianos, 10 euros, que me possibilita viajar durante 24 horas em todos os transportes públicos. Trezentos metros adiante estou no eléctrico 109 que vai atravessar o centro de Melbourne e tem por destino Box Hill, a “Colina da Caixa” que não faço a mínima ideia do que seja ou onde se situa.


Atravesso mais de meia cidade, subindo lentamente aí durante uns dois quilómetros por Collins Street que deverá ser a rua central. Antevejo o que me interessará conhecer na viagem de regresso desde Box Hill. Levo já uns quinze quilómetros no eléctrico, verde e branco, rápido e funcional a avançar agora por Victoria Pde., uma infindável avenida com casas baixas dos dois lados, lojas, pequenas oficinas e fabriquetas. Box Hill nunca mais aparece, estarei já num arrabalde no leste de Melbourne e não vim à segunda maior cidade da Austrália, com 4,5 milhões de habitantes, para me estender por subúrbios desconhecidos, com pouquíssimo interesse. 

Olho o mapa, saio e tomo novamente o eléctrico 109, mas na direcção oposta, rumo ao centro. Desço junto à catedral católica de St. Patrick construída em estilo neo-gótico em finais do século XIX. São nove da manhã, ainda não anda quase ninguém pelas ruas mas a igreja já está aberta. Entro. Apenas eu e um chinês nos entretemos a fotografá-la. Ao lado fica o edifício do Parlamento, de 1856, imponente e sóbrio, e quase em frente dois teatrinhos clássicos, o Princess e o vitoriano Her Majesty Theatre. 

Vou descendo a pé, para o centro. O Windsor Hotel é outra estrutura do século XIX na correnteza da rua, um cinco estrelas onde já dormiram reis e príncipes, muita gente boa, excelsas meretrizes e bastantes patifes, enfim, a nata do mundo. À porta do hotel vejo um grupo de pessoas impecavelmente vestidas, as senhoras com chapéuzinhos pretos de veludo e laçarotes com flores no alto da cabeça, os homens aperaltados em fatos de gala. Devem ir para um casamento, penso.

Avanço na rua que conduz à Chinatown. Tinha de ser, há quarenta anos que a China faz parte do meu quotidiano, por isso tudo quanto é chinês funciona para mim como um íman. Edifícios sóbrios, dois pailous (os pórticos) de entrada pintados em vermelhão e dourado, simples e bonitos, e depois os restaurantes, etc. Continuo a descer para Collins Street onde se localizam os melhores hotéis, bancos e as lojas e armazéns mais caros de Melbourne.

À porta do Hotel Sheraton estão a entrar para um autocarro mais umas dezenas de cidadãos e cidadãs “de luxo”, outra vez com farpelas de espantar. As ladies, jovens, ou com idade indefinível, ostentam jóias e os tais chapéus quase todos pretos, com tules e flores de seda como decoração, alguns gentlemen, também de todas as idades, vestem arrebitados fraques e calças de lista. Se vão para o mesmo casamento acredito que deverá ser festa de arromba, ou talvez se trate de uma qualquer recepção ou cerimónia de Estado. A trezentos metros da gente rica, num esconso entre prédios altos, a gente pobre testemunha que a igualdade entre os homens não é deste mundo. Uma dúzia de sem abrigo, ou drogados, cobertos de mantas esfarrapadas estão deitados no chão de pedra protegidos por uns largos guarda-chuvas, a servir de tecto. Desta vez não tirei fotografias, aprendi em Long Beach, EUA, a deixar estas pessoas em paz.

Desço por Swanston Street, chego ao que será o coração de Melbourne, a Flinders Street com a sua icónica e longuíssima estação dos caminhos-de-ferro pintada de amarelo e vermelho, mais a catedral protestante de S. Paulo e a velha ponte sobre o rio Yarra. São onze da manhã, já há pessoas, quase todas jovens, enchendo as ruas e cafés. Tomam um pequeno almoço, nada pequeno, a puxar para um substancial almoço e conversam, cruzam opiniões, exercitam-se na arte de bem falar com os amigos.

Continuo a perambular ao longo do rio e vejo adiante uma plataforma para pousarem helicópteros. Dois deles, brancos, vermelhos e azuis, levantam e aterram quase à vez, aí de cinco em cinco minutos. Penso que estarão transportando turistas para uma breve vista aérea sobre a cidade. Aproximo-me. Afinal os passageiros, umas trinta pessoas em fila, aguardando a sua vez de voar, são semelhantes às que já encontrei atrás na cidade, luxuosamente vestidas a rigor, os espaventosos chapelinhos de veludo nas senhoras, mais trajes de seda de espantar e, nos homens, os fatos e fraques caríssimos.

Qual casamento, qual recepção de Estado?! A um dos jovens, integrado naquela disciplinada molhada de requintada gente, perguntei para onde iam, agora de helicóptero. Muito simples, “horse racing”, a Melbourne Spring Cup, a corrida de cavalos mais importante do ano. Ah, afinal trata-se de perpetuar, ao modo australiano com uma festa grande e chique, a herdada tradição britânica de adorar cavalos e de os pôr a correr, com gente fina a assistir e a apostar.

Da parte da tarde, visita ao Museu de Melbourne, com uma interessante abordagem aos aborígenes, os povos autóctones do território australiano, que nos séculos XVIII e XIX foram vítimas de um quase genocídio por parte dos recém chegados ingleses, irlandeses, escoceses. A História não está esquecida e hoje, absolutamente minoritários, os aborígenes sobrevivem como podem, integrados na malha multi-étnica australiana.

Uma ronda pelos parques e jardins de Melbourne. Nos Alexander Gardens, na margem esquerda do rio Yarra, mesas e bancos para picnics e, ao lado, grelhadores eléctricos. Basta ligar o fogão para estar tudo preparado para uma valente churrascada à moda da Austrália, com uns suculentos lombinhos de porco, umas pequeninas costoletas de borrego, uns celestiais bifinhos de vaca, tenra e gostosa. Dizem-me que este tipo de grelhadores se encontra espalhado por muitos lugares e parques da Austrália.

Mais a sul, no Royal Botanic Gardens, levanta-se, na ondulação dos jardins, um pesado monumento, de 1930, construído em honra dos australianos mortos em combate na I Guerra Mundial. É uma cópia do que terá sido uma das sete maravilhas do mundo antigo, o Mausoléu de Halicarnasso, com um telhado tipo pirâmide e a larga fachada com colunas gregas. Chama-se Shrine of Remembrance, algo como “Altar da Memória” à direita do qual foi acrescentada uma pira com uma chama sempre a arder evocativa dos australianos falecidos na II Guerra Mundial e até na guerra do Vietname, na mesma altura em que nós, portugueses, andávamos pelas guerras de África.

Subo a escadaria. No interior do monumento, bandeiras da Austrália e muitas flores em volta de um quadrado no chão, de mármore negro, onde estão gravadas a letras de ouro GREATER LOVE HATH NO MAN, um versículo do Evangelho Segundo S. João, 15, 13, que significa, em tradução livre “ninguém tem maior amor pelos seus amigos (do que quem dá a sua vida por eles).”



Chego no momento do cornetim de silêncio. Toda a gente em volta, de pé, em sentido. No meu Portugal e na Guiné-Bissau, por causa das “malhas que o império tece”, há muitos anos, também fui soldado numa guerra(*). O toque de silêncio. Uma lágrima a descer pelo rosto.

__________________

Nota do autor:

(*) Eis o testemunho: António Graça de Abreu, Diário da Guiné, Lama, Sangue e Água Pura, Lisboa, Guerra e Paz Ed., 2007.

___________________

Guiné 61/74 - P18242: Parabéns a você (1380): Augusto Silva Santos, ex-Fur Mil Inf da CCAÇ 3306 (Guiné, 1971/73), Francisco Godinho, ex-Fur Mil Inf da CCAÇ 2753 (Guiné, 1970/72) e José Albino, ex-Fur Mil Art do Pel Mort 2117 e BAC 1 (Guiné, 1969/71)



____________

Nota do editor

Último poste da série de 22 de janeiro de 2018 > Guiné 61/74 - P18237: Parabéns a você (1379): Rogério Freire, ex-Alf Mil Art MA da CART 1525 (Guiné, 1966/67) e Virgínio Briote, ex-Alf Mil Comando, CMDT do Grupo "Os Diabólicos" (Guiné, 1965/67)

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Guiné 61/74 - P18241: Convívios (839): 35º almoço-convívio da Tabanca da Linha, Algés, 18/1/2018 - As fotos do Manuel Resende - Parte II: Tudo gente magnífica... "Caras novas", com destaque para o pessoal da CART 1689, camaradas dos escritores Alberto Branquinho e José Ferreira da Silva


Foto nº 1 > O Armando Pires, de pé, o Jorge Rosales e o Mário Magalhães... Não sei se aquele dedo é "desafiador"... No final, até houve um cheirinho de fado, mas não na voz do "fadista de Bissorã"...


Foto nº 2 > O Armando Pires e uma "cara nova", o José Ferreira (, que vive no Barreiro, não confundir com o José Ferreira  da Silva,  do Bando do Café Progresso, Porto)...


Foto nº 3 > João Lourenço, uma "cara nova"... É membro da ONG Ajuda Amiga. Nasceu em 1944 e viveu na Guiné-Bissau até 1997 (se não erro). Fala crioulo, estudou no liceu de Bissau. O pai era empregado de uma da mais importantes casas comerciais.  Tem um irmão que foi alferes. Ele também a fez a tropa (e a guerra) no CTIG.  Fez o CSM em 1961.Foi convidado a integrar a Tabanca Grande.



Foto nº 3 > Sei que o primeiro, da esquerda, é o nosso grã-tabanqueiro Luís [Cândido Tavares] Paulino, de Algés, ex-Fur Mil da CCAÇ 2726 (Cacine e Cameconde, 1970/72)... Está a organizar um encontro de arromba, 4 dias, com os seus camaradas açorianos. E foi quem nos ajudou a identificar o camarada da direita: "Chama-se Joaquim, Grilo e é um beirão meu conterrâneo de Gouveia, residindo há muitos anos em Lisboa".


Foto nº 4 > O Alberto Branquinho, um dos nossos talentosos escritores, alf mil op esp, da "mítica" CART 1689...


Foto nº 5 > Luís Graça, editor deste blogue, e Alice Carneiro, "não tão assíduos quanto gostariam"...


Foto nº 6 > Germana (, espos do Cralos Silva, régulo da Tabanca dos Melros), Elisabete e Francisco Silva (cirurgião ortopedista, depois de passar à "peluda")


Forto nº 7 > Tenho dificuldade em  dizer "quem é quem": o casal Santos, de Lisboa, e mais uma cara nova...


Foto nº 8 > José Miguel Louro e Maria do Carmo, que também não costumam faltar


Foto nº 9 > Os inseparáveis Gina e António Marques, membros vitalícios da Tabanca da Linha... Com muita pena nossa, vão falhar este ano o XIII Encontro Nacional da Tabanca Grande: é que em 5 de maio, sábado, há a festa de anos do neto mais velho... Como sempre todos os anos, o António não se esquece do fatídico dia 13 de janeiro de 1970 em que caímos os dois numa mina A/C, com o nosso Gr Comb, em Nhabijões... Pediu-me desculpa por não me ter telefonado... O mais importante é que ele não se esqueceu da trágica efeméride...



Foto nº 10 > O Zé Carioca (que fez anos no dia 21...) e a esposa, Ilda (que, pela expressão, está a "torcer o nariz" ao bacalhau à minhota...)


 Foto nº 11 >  Os magníficos  Helena e Mário Fitas


Foto nº 12 > Helder Pontes, ex-fur muil CART 1689/ BART 1913, camarada de Alberto Branquinho, José Ferreira da Silva, Francisco Machado e Alberto Sousa. A CART 1689 era conhecidaomo "Os Ciganos", tendo demabulado por toda (ou quase toda) a Guiné. Tem mais de 120 referências no nosso blogue.  Andaram por sítios como , Catió, Cabedu, Gandembel e Canquelifá, entre 1967 e  1969, dando e levando porrada da grossa. Só temos um Hélder (e é Sousa, de apelido) na Tabanca Grande, e para mais nunca pegou numa... G3, era um TSF... O Pontes vai ajudar-nos a compar a secção dos H, que está muito desfalcada...



Foto nº 13 > Francisco Machado, ex- fur mil da CART 1689 / BART 1913, igualmente camarada de Alberto Branquinho e José Ferreira da Silva. Fica convidado, o nosso camarada Francisco Macahdo, a sentar-se também à sombra do poilão da Tabanca Grande.


Foto nº 14 > Alberto Sousa, mais outro ex-fur mil da CART 1689 / BART 1913... É uma boa altura para convidar o Alberto a integrar as fileiras da Tabanca Grande.


Foto nº 15 > O Carlos Silvério, meu amigo, camarada, vizinho e conterrâneo... Veio com a Zita. O casal é lourinhanense... "Periquitos", na Tabanca da Linha. Ele andou pelo Olossato e por Bissau, antes de a gente fechar as portas da guerra. A Zita esteve com ele em Bissau... Já o convidei meia dúzia de vezes para se sentar à sombra do nosso poilão... Mas ele diz que prefere o sol...Lugares ao sol..., não temos na Tabanca Grande, só à sombra... Espero que ele ainda entre ao 7º convite... Ficou a ponderar: parece que o problema é a foto... fardada. Enfim, temos que compreender e respeitar quem tem alergias às fardas...


Oeiras > Algés > Restaurante "Caravela de Ouro" > 35º almoço-convívio da Magnífica Tabanca da Linha > 18 de janeiro de 2018 > Reuniu 78  dezenas de comensais (,estavam inscritos 80, houve duas desistências de última hora, por motivos de saúde)...

Publicam-se mais umas fotos do fotógrafo oficial da Tabanca da Linha, o Manuel Resende (cargo que acumula com outros: secretariado, comunicação & marketing, logística & operações, contabilidade & finanças...). Destaque para algumas caras novas, em especial do pessoal da CAT 1689,  sem esquecer os nossos "casalinhos".

Fotos (e legendas): © Manuel Resende (2018). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
___________

Guiné 61/74 - P18240: Ser solidário (209): Construção de Escola em Candamã, iniciativa da Associação Humanitária Resgatar Sorrisos (Mário Beja Santos / Luís Branquinho Crespo)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 19 de Janeiro de 2018:

Meus estimados, 

Sou de opinião que se devia publicitar este pedido sobre os "Diferentes" e os "Viriatos", é nestas coisas que sinto imenso orgulho em ser português. 
Mário

************

2. Mensagem de Luís Branquinho

Enviada a 19 de Janeiro
Para: Beja Santos
Assunto: Envio do desenho da Escola da Guiné

Dr Beja Santos
Primeiro que tudo a sua saúde e a dos seus e um Bom ano de 2018.
Suponho que se lembra de mim (escrevi o livro “Guiné - Um Rio de Memórias”) e dou-lhe a conhecer a escola que a Associação Humanitária Resgatar Sorrisos (ONGD) vai começar a construir em Candamá, próximo de Bambadinca: duas salas de aula, casas de banho e cozinha).
Iremos em, Março próximo oito homens em Missão Humanitária concluir a primeira fase da obra que já está marcada no terreno com as fundações já efectuadas.

Como sei que andou por esses sítios (eu andei mais abaixo pelo Xitole e Saltinho) pode informar-me quem esteve nessa zona para além da companhia dos Diferentes e dos Viriatos? Gostaria de os contactar e talvez possa deles obter apoio para a Obra Humanitária que a Resgatar Sorrisos leva a efeito.
Aguardo as suas informações.

Um abraço e ao dispor
Atentamente
Luís Branquinho Crespo








********************

3. Aqui fica o apelo do nosso camarada Luís Branquinho Crespo (ex-Alf Mil Art da CART 2413, Xitole e Saltinho, 1968/70), sensibilizando os "Diferentes"(?) e os "Viriatos" (CART 2339 dos nossos camaradas Carlos Marques Santos, Ernesto Ribeiro e Torcato Mendonça), assim como outros camaradas que passaram por aquele sector, para ajudarem nesta acção humanitária com origem na ONGD Associação Humanitária Resgatar Sorrisos.
CV
____________

Nota do editor

Último poste da série de 6 de dezembro de 2017 > Guiné 61/74 - P18053: Ser solidário (208): Tabanca de Porto Dinheiro: unidos pela educação em Timor: convívio com o João e a Vilma Crisóstomo, o Rui Chamusco, o Gaspar e a Maria da Glória Sobral, o Eduardo Jorge Ferreira, a Alice Carneiro e o nosso editor Luís Graça...Vem aí um novo projeto, o LAMET - Luso American Movement for Education in Timor Leste...